14 de dez de 2012

georges selzoff I

ao que parece, os tempos heroicos da literatura russa no brasil ganham uma alavancada um pouco mais sistemática por iniciativa de um leto, natural de riga, iúri zéltzov, que depois afrancesou o nome para georges selzoff. imigrando para o brasil, estabeleceu-se em são paulo (não sei a data; provavelmente na esteira da revolução soviética).

no começo dos anos 1930, ele criou uma pequena editora, a georges selzoff & cia., usando também o nome comercial de "edição cultura". a editora publicava uma coleção chamada "bibliotheca de auctores russos". teve vida efêmera, com quiçá uma dúzia de livros, e parece ter encerrado suas atividades em 1932 ou 1933.

há notícias esparsas sobre ele, aqui e ali: conta boris schnaiderman que foi ele o primeiro a traduzir algumas obras russas diretamente do original. como não tinha pleno domínio do português, as traduções eram feitas a quatro mãos, sendo ele auxiliado ora por um, ora por outro escritor brasileiro.

transcrevo abaixo alguns trechos de entrevistas onde schnaiderman fala um pouco de seltzov.
Aliás, está errado dizer que eu teria iniciado a tradução direta do russo. Não iniciei, não. Já tinha ocorrido isso no começo da década de 1930, com uma coleção de uma editora com nome de Biblioteca de Autores Russos. Quem iniciou foi George Seltzoff.
Revista E, SESC, n. 161, aqui 
O senhor chegou a ter alguma notícia do Georges Selzoff, da Bibliotheca de Auctores Russos?Conheci. Ele era amigo dos meus pais. (Pega um livro, Águas de Primavera, 1932.) Aqui está Georges Selzoff e Brito Broca, justamente baseado no princípio de um, que escreve em português, e o outro, que sabe russo.
Mas há outras obras que ele assina sozinho.Ele assinava sozinho mas não produzia sozinho.
Por exemplo, Um Jogador, de Dostoiévski. Bibliotheca de Auctores Russos. Agora, ele publicava e ele mesmo vendia.
De onde ele vem, o senhor se lembra?Ele vinha de Riga. Era de formação russa. É que em Riga, quando houve a Revolução, muitos fugiram da Rússia Soviética e ficaram nas proximidades. Muitos, certamente, esperavam que o regime comunista durasse pouco. Havia grandes núcleos de russos, principalmente em Riga. Eu o conheci pessoalmente. Quando eu tinha uns 10 anos, ele devia ter uns 35, 40.
Eu só consegui ver publicações dele de 1930 a 1933. Ele durou mais como tradutor?Não. Eu o encontrei depois, mas ele já não se ocupava mais disso. Financeiramente não teve muito retorno. É estranho, porque havia um interesse grande pela literatura russa e ele procurou aproveitar isso. Então,
conseguiu difundir os livros, mas ele não estava organizado como editor. 
entrevista a gutemberg medeiros, revista usp, v. 75, nov. 2007, aqui 
No Brasil se fez tradução direta do russo antes de mim. Houve um indivíduo chamado Iuri Zéltzov, assinava como Georges Selzoff, à maneira francesa, porque era mais chique. E ele fundou uma editora, a Bibliotheca de Auctores Russos. Agora, ele não sabia português suficiente. Então, ele se associou a dois escritores brasileiros, o Brito Broca e o... o... [estala o dedo] Às vezes o nome está na ponta da língua e não sai... e o Orígenes Lessa. Ficaram trabalhando pra ele. Ele ficava traduzindo do russo como podia, traduzindo pro português, e eles iam colocando num estilo aceitável.  
entrevista a raquel cozer em 2010, relembrada em a biblioteca de raquel, aqui . ver também aqui

curiosa, tentei levantar as publicações da selzoff/cultura. gutemberg de medeiros menciona publicações de 1930 a 1933. infelizmente só consegui localizar edições em 1931 e 1932. também não consegui encontrar nenhuma menção à contribuição de orígenes lessa para as traduções publicadas pela casa. [vide retificação mais abaixo.] por outro lado, encontrei menções ao paraibano allyrio meira wanderley em algumas edições da casa. como schnaiderman especifica aqui que selzoff "ia lendo o texto russo com o português precário que tinha, e eles punham em português decente”, talvez a memória o tenha traído e talvez se tratasse de fato de allyrio wanderley, já então residente em são paulo.

o resultado a que cheguei até o momento é o seguinte:
  • um jogador (das notas de um rapaz), de dostoievski, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931


  • khadji-murat, de tolstoi, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931

Autor:Tolstoi, Lév. Nikolaevich, graf. 1828-1910.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:'Khadji Murat'.
Imprenta:São Paulo [Edição Cultura] 1931. 
Descrição física:173 p. ilus.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
891.73
Indicação do Catálogo:II-108,3,20
II-104,4,7

  • padre sergio, tolstoi, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931 (vinhetas e ilustrações de m. barychnicoff):

  • judas iscariotes, de leonide andreieff, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931 (capa e ilustração de m. barychnicoff):

Autor:Androev, Leonid Nikoaevich, 1871-1919.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Judas Iscariotes.
Imprenta:São Paulo, G. Selzoff, 1931. 
Descrição física:141 p. ilus.
Notas:Registro Pré-MARC
Assuntos:Judas Iscariote.clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Classificação Dewey:
Edição:
225.92
Indicação do Catálogo:225.92/J92an7 

  • o pavilhão no. 6, de anton tchecoff, não encontrei referência de tradução, 1931

Autor:Tchecoff, Anton.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O pavilhão nº 6.-
Imprenta:São Paulo [Bibliotheca de Auctores Russos] 1931. 
Descrição física:187p. il.
Notas:Português.
Indicação do Catálogo:VI-90,3,13

  • konovaloff, de maximo gorki,  não consta referência de tradução, 1931, com menção a uma segunda edição revista no mesmo ano
Autor:Gorki, Maximo.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Konovaloff.-
Edição:2.ed.-
Imprenta:São Paulo [Bibliotheca de Auctores Russos] 1931. 
Descrição física:156p.
Notas:Português.
Indicação do Catálogo:VI-87,2,24 

  • os inimigos, de anton tchecoff, contendo também "delírio (gussieff)", "algazarra em família", "no carro (o caminho do mestre-escola)", "verotchka", "estudante (conto do jardineiro chefe)", "zinotchka" e "uma noite atroz", com menção a selzoff e olandim como editores, 1931*

  • os sete enforcados, de leonide andreieff, tradução a quatro mãos com orígines lessa, 1932. agradeço a josé mota victor a gentileza por enviar imagem da página de rosto: 

  • ninho de fidalgos, de ivan turguenieff, não encontrei referência de tradução, 1932. provavelmente elsie lessa, mulher de orígenes lessa (vide atualização abaixo):
Autor:Turguenieff, Ivan.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Ninho de fidalgos. -
Imprenta:São Paulo Georges Selzoff 1932. 
Descrição física:184p.: il.
Notas:Português
Indicação do Catálogo:VI-88,4,31 

  • águas da primavera, de ivan turguenieff, tradução a quatro mãos com brito broca, 1932, com menção a uma segunda edição no mesmo ano. não localizei imagem de capa nem exemplar em nosso acervo, mas encontrei uma edição da melhoramentos nos anos 1950, com "tradução revista por marina stepanenko". quem sabe não será a de selzoff/ broca?



agora, uma curiosidade. até onde consegui apurar, a única obra não russa que a editora georges selzoff (edição cultura) publicou foi um livro justamente de seu assíduo colaborador, allyrio meira wanderley - sol criminoso, em 1931:



em 1933, quando as atividades de selzoff como editor já pareciam ter se encerrado, temos uma tradução sua a quatro mãos com a. meira, pela companhia editora nacional, em sua "bibliotheca pedagogica brasileira", série 4, vol. IV - porque morremos, de alexandre lipschütz:


Autor:Lipschutz, Alexander, 1883 - clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Porque morremos.
Imprenta:São Paulo, Comp. ed. nacional, 1933. 
Descrição física:243 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Assuntos:Morte - Causas. clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Entradas secundárias:Meira, Georges trad. clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
577.7
Indicação do Catálogo:577.7/L767w7 


atualização: descobri que a cidade que o diabo esqueceu, livro de contos de orígenes lessa tão constantemente reeditado até data recente, teve sua primeira edição em 1932 (alguns dizem 1931), pela editora georges selzoff.

isso parece indicar que pode ter havido uma "sinergia" tal como no caso de allyrio wanderley. um pequeno detalhe reforçando a hipótese desse intercâmbio é o fato de que, em 1932 e depois em 1933, orígenes lessa teve outros dois livros seus publicados pela companhia editora nacional: não seria totalmente implausível supor que tivesse sido ele a indicar selzoff para a tradução do livro de lipschütz para a c.e.n.

atualização em 16/12/12: ha! encontro à p. 190 do dicionário crítico de escritoras brasileiras (escrituras, 2002), de nelly novaes coelho, a informação de que elsie lessa, que se casara com orígenes lessa em 1930, traduziu ninho de fidalgos! nelly não dá o nome da casa publicadora, mas como, até data recente, a única edição brasileira de ninho de fidalgos, com este título, foi a que saiu pela editora de georges selzoff, talvez seja uma mera questão de juntar a com b. (apenas em 1962 a lux publicará ninho de nobres, em tradução do russo por rui lemos de brito.) para allyrio wanderley, ver aqui.

* atualização em 18/12/12: agradeço a gutemberg medeiros pela imagem de capa d'os inimigos. ver georges selzoff II, com outros materiais a respeito, aqui.

atualização em 11/3/13: de fato trata-se da tradução de selzoff com broca, devidamente creditados no verso da página de rosto. ver aqui.

atualização em 8/4/13: eis a página de rosto da edição de ninho de fidalgos:


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