11 de dez de 2012

eu é que agradeço

fiquei tão emocionada com essa postagem do roberto denser, aqui, que tomo a liberdade de transcrevê-la abaixo:


SEGUNDA-FEIRA, 19 DE NOVEMBRO DE 2012


Um Breve Agradecimento

traducao
Foi a Denise Bottmann quem abriu meus olhos. Antes dela, antes desse contato diário com a internet, e, como consequência, com sua luta (guerra, na verdade) e seu trabalho, eu nunca havia me preocupado com a qualidade ou procedência das traduções dos livros que eu comprava ou lia (sim, há uma diferença), exceto quando me via diante de uma inegável tradução ruim, que reconhecia apenas como leitor e de forma empírica, uma vez que não sou algo que se possa chamar de especialista em tradução — Fique claro: acredito que não seja preciso ser especialista para perceber quando o tradutor trabalhou com esmero, com o cuidado que a obra merecia etc.

O que me levava a essa despreocupação era a confiança cega que eu dedicava aos livros. Entenda: na escola, aprendi a vê-los como um produto acabado, isento de erros, onde se encontrava a verdade incontestável que eu devia aprender e aceitar. “Está na bíblia, logo é verdade: aprenda e aceite.”, uma lógica que foi exportada para os outros livros, e que nunca, ou quase nunca, ousamos contestar e que resulta numa passividade na forma como os vemos ou os entendemos — pelo menos em parte de nossas vidas, ou durante uma vida toda, a depender do rumo que se tome — semelhantes àquela que muitos dedicam à tevê. Via de regra, não temos acesso ao processo de criação, tradução etc. do livro e, por consequência, passamos a ignorar tudo o que está por trás. Pegamos o livro pronto e, pensamos, acabado — da melhor forma que seria possível.

Mais uma vez: nós vemos o espetáculo pronto, ignoramos os ensaios, os erros, as repetições intermináveis, a escolha da trilha sonora, a elaboração dos figurinos, tudo o que está por trás daquela coisa deslumbrante que é o resultado final dum espetáculo teatral. E ao nos vermos diante desse resultado, muitas vezes ignoramos aquilo que para o elenco foi considerado uma série de erros, uma péssima execução. Eis o paralelo que faço com traduções ruins, mas não somente: também há os plágios, há a apropriação de traduções em domínio público, para as quais se atribui uma autoria qualquer, uma falta de ética terrível e inconcebível num país sério... Deixarei para falar sobre isso em outra oportunidade, pois, como o título sugere, escrevi esse texto tão somente para agradecer, e de forma breve.

E o que quero agradecer? Quero agradecer à Denise por ter aberto meus olhos. Por me ter feito perceber, de forma mais consciente, a importância da tradução que, ouso dizer, chega a ser tão importante quanto a obra — e o que me leva a ficar irritado quando alguém afirma que o trabalho do tradutor é apenas um “bico”. Foi graças à Denise que passei a tomar cuidado com minhas leituras: hoje, antes de ler um livro, costumo olhar a tradução, pesquisar na internet sobre o tradutor, procurar alguns dos seus trabalhos anteriores etc., e, só então, comprar a obra. Cheguei ao ponto de escolher os livros pelo tradutor, da mesma forma como costumamos escolher pelo autor ou pela editora. Se estou na livraria e dou de cara com duas edições de uma mesma obra, com traduções diferentes, sempre levo a de um tradutor no qual confie, o qual conheça. É assim com as traduções da Denise (as quais compro de olhos fechados), do Ivo Barroso (por quem nutro o tipo de admiração que se dedica aos heróis, o tipo de respeito que se dedica aos pais e avós, e que traduziu alguns dos livros mais importantes que já li e reli em toda a minha vida, e que meu alemão limitado a poucas palavras jamais me permitiria encarar no original), do Herbert Caro (que me proporcionou momentos de plenitude ao lado de Thomas Mann), do Paulo Bezerra (meu conterrâneo, tradutor daquele que é o escritor mais importante da minha formação) e tantos outros que não cito, mas dos quais procuro o nome quando me vejo diante dum livro traduzido.
Obrigado, Denise, por abrir meus olhos. 

Obrigado, tradutores, pelo trabalho sagrado ao qual vocês se dedicam. Muitas das obras que vocês traduziram, mudaram a minha vida e, tenho certeza, a de muitos outros leitores.

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