28 de nov de 2012

que espanto!


eu estava lendo a revista traduzires, publicação da pós-graduação em tradução da universidade de brasília, e encontrei um artigo interessantíssimo de júnia barreto sobre os trabalhadores do mar, de victor hugo, na tradução de machado de assis. o artigo está aqui e conta o que a tradução de machado sofreu às mãos da editora abril a partir de 1970.

resumindo, o pessoal da abril pegou um capítulo do meio do livro e botou no fim. então ficou uma sandice. pois gilliatt, o protagonista, se mata no final da história, que termina assim: "No momento em que o navio dissipava-se  no horizonte, a cabeça desaparecia debaixo da água. Tudo acabou; só restava o mar".

mas, com esse disparate, o que acontece? está ele lá se suicidando e aí acorda com fome, vai atrás de comida, sobrevive - como fantasma, imagina-se - a uma tempestade, encontra o monstro marinho, bate num recife, passa por aquelas vicissitudes todas e termina o livro cantarolando bonny dundee! - fico até imaginando se não foi algum engraçadinho, meio entediado lá numa mesa da abril, que quis dar um toque de brás cubas a gilliatt.

segundo a articulista, essa sandice perseverou por anos a fio, até 2000. a abril cultural se extinguiu em 1984-1985, mas fiz um rápido levantamento de suas edições d' os trabalhadores do mar desde 1970, e encontrei reedições em 1971, 1972, 1973, 1974, 1979, 1980, 1982 e 1983. como a distribuição da abril era voltada para bancas de jornal, suas tiragens eram altíssimas, de 70 mil exemplares para cima, e não raro com reimpressões no mesmo ano. quanto a outras edições entre 1984 e 2000 em outras editoras, não sei dizer.

na partilha de 1985, coube a richard civita o catálogo da extinta abril cultural, bem como o círculo do livro (empresa em sociedade entre a bertelsmann alemã), e assim encontramos uma edição d'os trabalhadores do mar pelo círculo em 1986. não sei como está. a partir de 1987, a nova cultural passa a publicar uma adaptação infantojuvenil feita por maria jacintha. não vi, não conheço, mas imagino que esteja correta, em vista de se tratar de ninguém menos que maria jacintha. a partir de 1993, a nova cultural volta a publicar o texto integral, mas não faço ideia se usou a edição da abril ou não: seguem-se reedições em 1994, 1999, 2002 e 2003. aí teria de ver; em todo caso, júnia barreto nos tranquiliza avisando que as edições de 2000 em diante estão normais.

de qualquer forma, se a abril cultural inaugurou sua sandice em 1970 e nela persistiu até seu encerramento, isso vai somar pelo menos nove edições até 1983, sem contar as reimpressões num mesmo ano. é só fazer as contas: mesmo feito por baixo, o cálculo dá um resultado assustador.

minhas saudações e parabéns a júnia barreto pelo belo artigo e pelo alerta fundamental.

atualização em 29/11/12: rodrigo avisa que a edição da nova cultural de 1994 está ok, e a de 2002, avisa thiago, também ok. ver também aqui.


22 comentários:

  1. Isso é de estarrecer! Quantos e quantos incautos terão lido essa obra de boa fé!?
    E quantos ainda lerão, pois os milhares de exemplares impressos estão por aí, feito sacis, prontos p/ pregar peças nos desavisados...

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  2. Que história mais kafkiana, Denise. Pena que o Saramago não está mais aqui. Se com um simples "não" ele escreveu a maravilha que é a "História do Cerco de Lisboa", imagina o que não faria com isso...
    Beijos...

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  3. como havia dito júnia, avisam-me que a edição da nova cultural em sua coleção obras-primas (2002 e 2003) está ok.

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  4. Pois eu fui um incauto que, na adolescência, leu de boa fé essa mesma edição. Por isso, posso dizer, acompanhando seu título: QUE ESPANTO.
    Abraço, Alfredo.

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  5. Anônimo28.11.12

    Eu passei o meu exemplar para um sebo, mas anotei o erro nas páginas. Pelo alguém leu certo.
    Stella Machado

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  6. Pois é, tem sido feito um trabalho maravilhoso para se tirar das livrarias as edições ATUAIS espúrias. As vezes temos conseguido correções das editoras apesar de ver ainda em determinadas livrarias exemplares com os erros antigos. Aqui no blog existe uma lei sobre a responsabilidade das livrarias em relação a edição com fraudes. Mas essa lei atinge aos sebos? Milhares de pessoas preferem comprar em sebos pelo preço mais barato, alunos que estão fazendo vestibular, em faculdades, que são solicitados a fazer trabalhos para professores no ensino fundamental, etc. Claro que grande parte que não tem o conhecimento e o perfil de um leitor que faz pesquisa e busca o melhor, coloca o preço em primeiro lugar e vai ao sebo. E essa edição cuja foto está em seu blog, da Abril, já cansei de ver a rodo, exaustivamente em sebos e, muitas vezes em promoção do tipo: 3 livros por dez reais. Claro que centenas vão comprar. Será que existe uma solução para isso?

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  7. As digitalizações de obras em domínio público que circulam por aí, em PDF, html etc, serão baseadas em qual edição original? Essa trapalhada editorial de DÉCADAS pode ter efeitos mais catastróficos do que os milhares (ou milhões?) desses exemplares espúrios em sebos. Sem contar os de bibliotecas, especialmente a grande maioria das públicas e comunitárias que vivem de doações...

    Olha o tamanho do estrago!

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  8. é, é meio por aí, tem toda razão, luiz!

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  9. Um pouco aliviado, a da NUPILL é baseada na de 2002:

    http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?id=143112

    http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=6865

    Agora é torcer para todas as outras digitais serem baseadas nessa, para o estrago ser um pouco menor.

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  10. que legal, luiz, obrigada por verificar e avisar.

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  11. Rodrigo29.11.12

    A edição que tenho é de 1994, da Nova Cultural, e está correta, sem ressuscitamentos. Na sua suspeita sobre a intencionalidade da alteração, lembrei daquela senhora que quis restaurar o Ecce Homo da igreja de Borja. Imagina aparecerem defensores dessa edição alterada, enaltecendo o efeito da presepada.

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  12. opa, legal, rodrigo! então nova cultural ok! obrigada por avisar. hahaha, e a lembrança é divertida em sua escabrosidade ;-)

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  13. Tenho duas edições, a da capa vermelha e uma de 2003. Realmente a dos anos 70 tem o todo o "Livro quarto", da segunda parte colocado após o "Livro terceiro", da terceira parte, que seria o final. Quem leu com atenção viu logo que havia erro, afinal, se passa do quarto para o terceiro.

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  14. E não é que fazendo meu inventário de livros "lidos/não lidos", descubro que tenho Os Trabalhadores do Mar, lançado pela Abril, aqui. Felizmente é a versão de 2002 e termina exatamente como deveria, com a frase aí do post.

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  15. a edição d 2003 da nova cultural está ok tb, foi a q eu li.

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  16. Anônimo25.8.14

    Estava procurando informações sobre as traduções dessa obra, mas me deparei com spoiler..., por favor, não coloque spoiler do conteúdo na página. Se colocar, avise. É desagradável e condenável colocar informações importantes de obras literárias, filmes e etc. sem avisar que o texto possui revelações sobre o enredo.

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  17. hahahahaha! ok, então. este é um blog de estudos e pesquisas, não de resumos de livros. desagradável e condenável é vir um anônimo aqui reclamar de um trabalho sério e dedicado.

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  18. Anônimo12.2.15

    Denise, a tradução do Machado é boa? Pergunto porque já li em algum lugar que ele fez fortes modificações em suas traduções, como a de Oliver Twist. Isso procede? Além disso, depois daquela tradução de "O corvo" não dá muito pra levar a sério o Machado como tradutor, ele destruiu o poema.

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  19. hoje em dia não seria tida como muito boa, não, anônimo - começa que ele não traduziu oliver twist do inglês, e sim do francês. interrompeu a certa altura e ficou incompleta. a trad. do corvo é até bastante respeitada, mas também passa muito pelo francês e ele adota algumas soluções do baudelaire.

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