16 de nov de 2012

crônica de um sumiço, II

I.
rafael parrotto havia mostrado como ligia junqueira sumiu dos créditos de tradução de o fio da navalha, de somerset maugham, na edição da globo de bolso em 2009, substituída por lino vallandro e vidal serrano. o caso está aqui.

no email que me enviou documentando esse sumiço, parrotto também comentara: "Aliás, estes dois nomes, Lino Vallandro e Vidal Serrano, também são creditados como tradutores do livro 'Admirável Mundo Novo', publicado pela mesma Editora Globo, também na Coleção 'Globo de Bolso'".

quanto ao fio da navalha, ok, o alerta está dado e a globo está apurando o caso. mas fui dar também uma checada no livro do huxley. confirmado, eis a ficha catalográfica em nosso acervo na biblioteca nacional e a capa do livro disponível no site da editora:

Autor:Huxley, Aldous,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1894-1963.
Título original:[Brave new world. Português]
Título / Barra de autoria:Admirável mundo novo / Aldous Huxley ; tradução: Lino Vallandro e Vidal Serrano. -
Imprenta:São Paulo : Globo, 2009. 
Descrição física:397p. ; 18cm. -
Série:(Globo de bolso)
Notas:Tradução de: Brave new world.
BNB 02/10 
ISBN:9788525046611 (broch.)
Assuntos:Ficção inglesa.clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Entradas secundárias:Vallandro, Lino,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1917-
Nunes Junior, Vidal Serrano,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1966- 
Títulos de série:Globo de bolso 


mas o deslinde da coisa parece meio complicado. no site da editora encontramos duas outras edições da mesma obra, uma pela globo de bolso, outra pela biblioteca azul, ambas de 2001, trazendo bem especificadinho:


Título: Admirável mundo novo (pocket)
Autor: Aldous Leonard Huxley
Gênero: Literatura Estrangeira Romance
Tradutor: Lino Vallandro e Vidal de Oliveira
Páginas: 312
Formato: 14 x 21cm
ISBN: 85-250-3327-7


Título: Admirável mundo novo
Autor: Aldous Leonard Huxley
Gênero: Literatura Estrangeira Romance
Tradutor: Lino Vallandro e Vidal de Oliveira
Páginas: 312
Formato: 14×21 cm
ISBN: 85-250-3322-7

mas, se olharmos o exemplar da biblioteca azul, vemos que os dados na ficha CIP são diferentes:


fico perplexa: será que confundiram o vidal de oliveira tradutor de ibsen, shakespeare, balzac, romain rolland, maugham e huxley com o jurista vidal serrano nunes jr. jurista, docente da puc-sp? e que vem a ser o mesmo que apareceu no caso do sumiço da lígia junqueira em o fio da navalha? e aí toca a rastrear o histórico da obra.

II.
brave new world, de 1932, saiu no brasil em 1941 pela editora globo, em tradução de vidal de oliveira. as imagens da capa e da página de rosto estão meio ruinzinhas, mas com boa vontade é possível identificar os créditos:



de todo modo, aí está a ficha catalográfica de nosso exemplar na biblioteca nacional:

Autor:Huxley., Aldous Leonard,1894-1963.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Admirável mundo novo.
Imprenta:Porto Alegre, ed. da Liv. do Globo. [1941] 
Descrição física:346 p. ilus.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Oliveira, Vidal declique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 

não há muitas notícias de reedições nas décadas seguintes. em 1979, vemos ressurgir a tradução de vidal de oliveira em sua quinta edição, porém acrescentando-se créditos a lino vallandro:


em nosso acervo nacional localizei um exemplar de 1982. eis sua ficha catalográfica:

Autor:Huxley, Aldous,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1894-1963
Título original:[Brave new world. Português]
Título / Barra de autoria:Admirável mundo novo / Aldous Huxley ; tradução de Vidal de Oliveira e Lino Vallandro. -
Edição:10. ed. -
Imprenta:Porto Alegre : Globo, 1982. 
Descrição física:250p. ; 18cm. -
Série:(Série Paradidática)
Notas:Tradução de: Brave new world.
Contém dados biobibliográficos.
BNB 83 
Assuntos:Ficção inglesa.clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Entradas secundárias:Vallandro, Linoclique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Oliveira, Vidal declique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 

duas coisas me chamaram a atenção: primeiro, o número de páginas, bem menor que a edição de 1941; segundo, a série: paradidática, ou seja, para vendas para o governo com destino às escolas. seria uma adaptação, uma condensação? e por isso a diminuição da quantidade de páginas e o acréscimo do nome de lino vallandro, se tivesse sido ele o responsável por essa hipotética adaptação?

ok, muito que bem, suponhamos então que lino vallandro fez uma adaptação na antiga tradução de vidal de oliveira e por isso ganhou direito a créditos de tradução (tenho lá minhas dúvidas sobre a pertinência disso, mas que seja). passados três anos, chegamos à décima-sexta edição, sempre como paradidático:

Autor:Huxley, Aldous,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1894-1963.
Título original:Brave new world.Portugues
Título / Barra de autoria:Admiravel mundo novo / Aldous Huxley ; traducao Vidal de Oliveira e Lino Vallandro. -
Edição:16a ed. -
Imprenta:Porto Alegre : Globo, 1985. 
Descrição física:205p. ; 19cm. -
Série:(Serie Paradidatica).
Notas:Traducao de: Brave new world.
BNB 87/02 
Entradas secundárias:Oliveira, Vidal de.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Vallandro, Lino,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1917- 

as vendas para o governo devem ter se interrompido, pois catorze anos depois, em 1999, estaremos na 20a. edição, o que mostra uma desaceleração acentuada das reedições. aqui este exemplar de 1999 tem 11 x 16, ou seja, de bolso, com 241 páginas.


III.
a partir de 2001, acontece uma coisa interessante: a globo solicita um isbn para uma edição que volta a ficar gorduchinha e em formato maior:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN
"TODAS AS INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE CADASTRO FORAM FORNECIDAS
PELOS EDITORES NO MOMENTO DA SOLICITAÇÃO DO ISBN"
Escolha o campo para pesquisa:
ISBN
TÍTULO DA OBRA
NOME DA EDITORA
NOME DO AUTOR
Preencha o campo abaixo, sem os traços.
ISBN 10 Dígitos
ISBN 13 Dígitos
RESULTADO DA BUSCA
TÍTULO: ADMIRÁVEL MUNDO NOVO (POCKET)
AUTOR: ALDOUS HUXLEY
TRADUTOR: LINO VALLANDRO
TRADUTOR: VIDAL DE OLIVEIRA
Nº DE EDIÇÃO: 2
ANO DE EDIÇÃO: 2001
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 320
EDITORA: EDITORA GLOBO

só que, na edição impressa e na ficha CIP, como vimos antes, vidal de oliveira some de vez, lino vallandro permanece e surge vidal serrano nunes jr. eis a ficha do exemplar impresso:

Autor:Huxley, Aldous,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1894-1963.
Título original:[Brave new world. Português]
Título / Barra de autoria:Admirável mundo novo / Aldous Huxley ; tradução : Lino Vallandro e Vidal Serrano. -
Edição:2. ed. -
Imprenta:São Paulo : Globo, 2001. 
Descrição física:318p. ; 18cm. - [segundo o site da globo, 21 cm]
Série:(A aventura de ler)
Notas:Tradução de: Brave new world.
ISBN:8525033472 (broch.) 
Entradas secundárias:Vallandro, Lino,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1917-
Nunes Junior, Vidal Serrano,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1966- 

IV.
ok, então recapitulando:
  • em 1941, vidal de oliveira traduziu admirável mundo novo, livro grossinho, na faixa de umas 350 páginas, para a globo
  • quase uns quarenta anos depois, a obra passa a integrar a série de paradidáticos da editora, fica uns 30% mais magrinha e nos créditos de tradução aparece lino vallandro ao lado de vidal de oliveira 
  • passam-se mais uns vinte anos, a obra parece dar uma engordadinha e voltar ao peso original. se lino vallandro tinha aparecido antes porque era o responsável pela dieta paradidática, ele acaba ficando na obra talvez meio por uma espécie de usucapião, junto com o vidal (isso na hora de pedir o isbn)
  • mas na hora de fazerem a ficha CIP que vai no livro e é sua principal identificação, de validade internacional, entra o outro vidal, o serrano. confusão de quem? da globo? da cbl? não sei dizer.
é uma reconstituição possível e plausível do que pode ter ocorrido entre 1941 e 2001. o surpreendente é que se passem mais oito anos e em 2009, aparentemente sem se dar conta do sumiço de vidal de oliveira, a globo relance a obra bem gorduchinha, com quase 400 páginas (assim parecendo tratar-se mesmo daquela antiga tradução integral de vidal de oliveira, dos idos de 1941). quanto aos créditos de tradução, bom... lino vallandro e vidal serrano nunes junior:


um espanto, não?

e aí me vejo com um megafone parada na frente do prédio da editora, gritando: "dona globo, cadê a lígia junqueira do fio de navalha? dona globo, cadê o vidal de oliveira do admirável mundo novo?"



imagem: aqui

atualização em 21/11/2012: ver o desfecho aqui

11 comentários:

  1. Porca Madona... Que sutileza desconfortável, desassossegante... Dona Globo, e agora? Explique-se.

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  2. É por isso que penso que todos esses grandes autores que foram muito lançados no passado por aqui e eram muito populares deveriam, aos poucos, ter toda sua obra retraduzida. Tenho o máximo respeito pelos tradutores do passado e pelo nosso patrimônio tradutório. Mas existem elementos que são eternos, clássicos e terão o mesmo impacto e valor em todas as épocas como livros, filmes, etc, não importa a obra na qual tenham sido feitos. Mas outros como traduções ficam inevitavelmente datados por melhores que sejam os tradutores. Acrescentando-se o fato, como já muito documentado aqui, de práticas editorais erradas que de pouco tempo para cá vêm sendo corrigidas. Além disso, naquela época, os leitores não tinham o esclarecimento que tem hoje e nem a ampla divulgação da net. Então muita coisa já melhorou, mas determinados erros persistem. Me incomoda ver grandes editoras lançando autores importantes, em pleno século XXI, com traduções dos anos 40 com aqueles termos vetustos que nos fazem toda hora ir ao dicionário, construções de frases datadas e outros elementos mais que fazem a obra ser mais difícil do que o original. Fora as práticas da época já muito comentadas aqui de cortes, supressões, acréscimos que não eram comunicados ao leitor pelas editoras. Tudo era visto como tradução integra e fiel do original. Então, quando tradutoras continuam lançando, na atualidade, essas traduções antigas, algo que há muito deveria ter desaparecido continua, a meu ver. Então, como não sou profissional de tradução e nem do meio editorial, para não estar cometendo uma injustiça, pergunto a você, Denise. Por quê editoras de grande porte continuam relançando traduções antigas? Custa muito uma tradução nova? Quais as dificuldades? Uma vez comentei com um aluno de letras da USP de certas editoras ainda continuarem a lançar traduções indiretas de obras russas, o que achava desnecessário atualmente, e ele me disse que o número de tradutores de russo e de outras linguas consideradas mais distantes ainda é insufuciente no Brasil. Não sei. Será isso verdade? Mas aqui, no caso, estamos falando de obras em lingua inglesa. O que impede que elas sejam retraduzidas? Não esquecendo o que sempre falo aqui e me alegra de ver cada vez mais editoras tendo essa prática: o de colocar o currículo e a biografia de seus tradutores.

    Forte abraço!

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  3. Acho que todo mundo percebeu o erro, comom quando se digita rápido, mas não custa corrigir: "Mas existem elementos que são eternos, clássicos e terão o mesmo impacto e valor em todas as épocas como livros, filmes, etc, não importa a ÉPOCA na qual tenham sido feitos.

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  4. caro fabrizio, suas questões são muito pertinentes e um pouco complexas. há vários aspectos, a meu ver: em primeiro lugar, há que se levar em conta que, para uma editora poder publicar a tradução de uma obra cujo original que não esteja em domínio público, é preciso adquirir junto ao autor, a seus sucessores ou à editora detentora de seus direitos o chamado "direito de tradução" para poder traduzi-la e publicá-la no país. maugham não está em domínio público; deve ter havido uma contratação dos direitos de tradução e publicação no brasil. tudo isso custa, seja como despesa, seja como investimento; de modo geral considera-se que uma tradução faz parte do ativo fixo da empresa. uma editora é uma empresa: se ela investiu em seu catálogo, é natural que possa, queira e deva explorá-lo de forma economicamente rentável. a menos que se trate de uma tradução horrorosa, eivada de erros, não vejo bem por que, em termos empresariais, uma editora haveria de retomar todas as negociações para uma nova tradução e "aposentar" a tradução anterior.
    segunda coisa: várias, muitas mesmo, traduções antigas são boas, muito boas. claro que carregam as marcas de seu tempo, mas essa própria pátina, digamos assim, geralmente não só não chega a toldar o entendimento da obra, como até pode permitir um tipo de fruição muito interessante, mais densa - não tenho nada contra ler as traduções de mário quintana ou lúcio cardoso ou rosário fusco, muito pelo contrário.
    em terceiro lugar, algumas traduções são verdadeiros monumentos culturais. não devem ser jamais substituídas - complementadas, sim, que surjam outras, sim, mas que se as deixe de publicar, não, de jeito nenhum. daí também a importância desse resgate cultural que a própria globo está fazendo, por exemplo, da comédia humana em suas traduções coordenadas por paulo rónai.

    vc pergunta: custa muito uma tradução nova? em termos. pouco não custa. agora suponhamos obras cujos originais estejam em domínio público. aí é mais fácil, mais rápido e menos caro fazer novas traduções - é por isso - e também porque os direitos de edição e tradução deixam de ser exclusivos da editora que os contratou, passam a ser livres - é por isso que, quando a obra de um autor entra em DP, costumam pipocar novas traduções em outras editoras que não aquela que contratara seus direitos durante o prazo de proteção.

    veja virginia woolf, por exemplo: entrou em DP e imediatamente saíram no mesmo ano três novas traduções de mrs. dalloway (a minha está meio atrasada para sair, mas é uma das três) por três editoras diferentes. certamente a globo mantém a tradução louvabilíssima de quintana, mas o público leitor passa a ter disponíveis outras tb.: ou seja, quatro traduções diferentes da mesma obra.

    então, resumindo, do ponto de vista empresarial é absolutamente normal e esperado que uma editora utilize os bens que fazem parte de seu ativo fixo; seria irrealista esperar que fiquem reinvestindo em coisas nas quais já investiram; do ponto de vista cultural, acho muito importante que se preserve não só a memória, mas também a circulação de traduções antigas - até para se ter uma visão ampla, rica, de nossa produção e de nossa leitura.

    por fim, vc pergunta: o que impede que elas sejam retraduzidas? em DP, costumam ser amplamente retraduzidas, mas, quando se contrata o direito de tradução e publicação de uma obra protegida, costuma-se ter exclusividade sobre aquela obra no país pelo prazo que estiver estipulado em contrato (pode ser cinco, dez anos; renovável ou não etc.), ou seja, nenhuma outra editora pode traduzir e publicar aquela obra no mesmo país. por isso não são retraduzidas, e por isso também pipocam retraduções com o ingresso em DP.

    meio confuso, mas consegui me explicar?

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  5. Sim, Denise, você, mais uma vez, me esclareceu perfeitamente. E, por isso que disse, ao perguntar, que a minha preocupação em fazer esses questionamentos era não comenter nenhuma injustiça contra ninguém visto eu não trabalhar na área editorial e de tradução, ser apenas leitor e não ter conhecimento de certas coisas. Eu já escrevo aqui há muito tempo e você já conhece o meu estilo de falar. Eu sempre pergunto, presumo, suponho e nunca afirmo o que não sei. Eu falo isso não para me justificar ou enaltecer, mas simplesmente para aproveitar a minha opinião de que as pessoas deveriam ter essa prática mais cuidadosa e educada de falar como, aliás, você também tem. Realmente, tendo em vista os argumentos que você deu, a Globo e outras editoras estão corretas em manter as traduções antigas. E, como disse, tenho o maior respeito pelo nosso patrimônio tradutório e não acho que ele deva ser esquecido. Só que, como disse, pelo menos as editoras deveriam fazer certas revisões, avisar o leitor de que se trata de uma tradução de determinada época e que foi revisada. Algumas editoras fazem isso, outras não. Mas está perfeitamente esclarecido. Obrigado, mais uma vez.

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  6. sim, vc tem toda a razão: "pelo menos as editoras deveriam fazer certas revisões, avisar o leitor de que se trata de uma tradução de determinada época e que foi revisada". algumas revisões são cômicas: veja este caso, antiguinho, mas ilustrativo - http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2010/11/requentando-sopa.html

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  7. Pois é, exemplo muito ilustrativo de que como a questão ds REVISÃO das traduções antigas tem que passar a ser também muito observadas por todos nós. Pois, mesmo como você disse, uma tradução de uma época distante, de mérito, não prejudique o entendimento do leitor e a fruição do texto com expressões datadas, às vezes a compreensão pode sofrer determinadas dificuldades. Parece exagero, mas para o amante de leitura e mesmo para quem não o seja, um só erro ou anacronismo pode deixá-lo com a pulga atrás da orelha a leitura inteira apesar de não prejudicar, em geral, a compreensão do todo. Mas provoca desconforto. Vou dar um pequeno exemplo que pode parecer infímo e insignificante perto do que vc e outros devem ter e pode parecer uma irrelevância, mas creio que não é. E quem não tem pouco conhecimento de inglês ou não tem costume de ler muito pode ficar confuso nessa passagem que vou citar e não identificar o anacronisco. Trata-se de "Os Carrilhões" de Dickens em tradução do renomado José Paulo Paes que possuo em uma edição da ediouro. Em um determinado trecho que vou resumir, se encontra o seguinte (a caixa alta é minha)

    " Toby...chocou-se contra alguém e foi atirado da rua aos tropeções.
    - Mil perdões, cavalheiro...espero não tê-lo MAGOADO.
    Quanto a MAGOAR alguém, Toby não era nenhum Sansão; o mais provável seria que se houvesse MAGOADO a si próprio: na realidade, fora atirado ao meio da rua como uma peteca. Tal era, porém, a convição de sua própria força, que estava de fato preocupado com a parte contrária, e disse-lhe novamente:
    - Espero não tê-lo MAGOADO
    ...
    - Não, meu amigo, não me MAGOASTE!

    Nem preciso dizer para os inúmeros profissionais, assim como você, Denise, qual é, não o erro, mas o anacronismo de José Paulo Paes nessa tradução. Eu, por ter um inglês regular e ler muito, não me confundi e na mesma hora percebi o erro. Na edição que tenho da Ediouro, que comprei nos anos 90, nem consta a data dessa edição da editora e muito menos de quando foi feita a tradução. Apenas que os direitos dela foram cedidos pela Cultrix. Depois, descobri aqui no seu blog que essa tradução é dos anos 50 ou 60. Há muito tempo não é relançada mas, se for, um pequeno trecho como esse irá confundir muitos leitores. E esses anacronismos estão presentes em várias partes do texto e de muitas traduções antigas, trazendo incompreensões ao longo do texto, que às vezes podem prejudicar o todo; e mesmo que seja uma pequena parte, traz um desconforto, no mínimo, pois ninguém se sente bem ao ler algo e não entender em um texto que é considerado de fácil leitura como os de Dickens. Fora o que já disse: as leituras de traduções antigas, por mais brilhantes que sejam, talvez devido a forma de escrever da época, são, em geral, mais cansativas e morosas do que as suas contrapartes atuais em domínio público. Então, que se reeditem e nunca sejam esquecidos os nomes dos grandes tradutores como Mário Quintana, Lúcio Cardoso, Raquel de Queiroz, etc, mas, até mesmo em respeito a eles, que as editoras, profissionais de tradução e leitores fiquem também ou ainda mais atentos a essa questão de revisão. Pois, senão, para um leitor que não conhece o passado de um grande tradutor, ele é que leva a culpa de um erro ou algo que nem é erro e passa injustamente um trabalho, que pode ser brilhante, por algo mal feito. Abraços.

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  8. Anônimo9.9.13

    Essa versão de bolso vale a pena? É o texto integral? pq é a única edição que estou achando pra comprar...

    Vlww!!

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  9. vale, sim; foi só confusão na hora da atribuição.

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  10. Anônimo11.9.13

    Grato pela resposta, Denise.

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  11. Anônimo9.8.16

    Gostaria de lembrá-los que a Editora Globo é a antiga RioGráfica, enquanto a Editora da Livraria do Globo (de Porto Alegre) é que fez as traduções anteriores a 1986, data da compra pelo Sr. Marinho dos direitos sobre o nome da Livraria do Globo. Confusões posteriores são da sucessora da riográfica.

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