8 de out de 2012

que contraste!



inúmeras vezes frisei a importância de se pesquisarem amplamente as grandes contribuições da esquerda brasileira para a abertura do brasil ao mundo por intermédio da atividade de tradução.

inúmeras vezes também apontei as descabeladas fraudes de tradução perpetradas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência mais ou menos intermitente. consistiam basicamente na apropriação de traduções em geral portuguesas, que eram publicadas ou anonimamente ou, com maior frequência, como "feitas especialmente para o clube do livro por josé maria machado".

num expressivo contraste de valores, posições e ações - pense-se, por exemplo, na athena editora (aqui) -, tem-se que mário graciotti, concebedor, fundador e proprietário do clube do livro, era um destacado membro da frente integralista brasileira, tendo sido, aliás, seu primeiro secretário.

hoje vim a descobrir que josé maria machado, o tal das "traduções especiais" do clube do livro, era correligionário de graciotti e foram ambos companheiros de fundação da SEP (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, à qual se seguiu, poucos meses depois, a fundação da AIP (ação integralista brasileira). conta graciotti que machado - "português de nascimento, mas brasileiro de coração" - era um funcionário do clube português, cuja sede abrigara a assembleia de fundação da entidade. veja-se aqui o artigo de victor emanuel vilela barbuy, "setenta e seis anos da sep". machado escreveu uma obra chamada a marca de caim (cujo título, em tal contexto, dispensa maiores comentários), publicada em 1948 pela coluna sociedade editora.

imagem: capa da revista anauê, 1935, ano I, n. 2, aqui

5 comentários:

  1. E, no entanto, eles publicaram livros alguns livros bem interessantes e que não eram nem exatamente "mainstream" nem de direita, como alguns romances romenos. Um deles, "Um Pedaço de Terra", poderia até ser qualificado como um romance socialista-realista. (Essa informação vem do artigo do Prof. John Milton, "Translating Classic Fiction for Mass Markets: The Brazilian Clube do Livro", The Translator. Volume 7, Number 1 (2001), 46.) É realmente curioso. Por que se dar ao trabalho de manipular um texto desse tipo para adequá-lo aos padrões do "Clube do Livro"? Não seria mais simples não lançar esse tipo de obra?

    Cláudia
    http://umatalvezclaudia.blogspot.com.br

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  2. olá, cláudia, não creio que houvesse propriamente uma preocupação doutrinária na escolha dos textos. o doutrinarismo "social" - cuidados com a higiene física e moral - aparece, quando aparece, é mais num ou noutro prefácio e em algumas notas do editor. a escolha das obras devia se dar por um processo bastante singelo: textos comercialmente rentáveis e de venda certa - se você notar, boa parte dos lançamentos do clube do livro vem na esteira, com intervalo de poucos anos (às vezes de apenas dois, três), de algum sucesso de vendas de alguma outra editora no brasil. já a escolha dos raros outros menos comerciais ou não conhecidos no brasil devia ser de tipo bem caseiro - digamos, algum colega leu, achou bacana, tinha fácil na mão, sugeriu e a coisa foi aceita. acho que é mais por aí do que por razões programáticas.

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    1. Pode ser, Denise. Mesmo assim, acho estranho que eles decidissem lançar um autor romeno como Zaharia Stancu, que foi preso por oposição ao fascismo e que escrevia romances realistas-socialistas.

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  3. cláudia, estou vendo agora que o tradutor do stancu foi nelson vainer, aliás diretor da crônica israelense, e que divulgou muitas coisas da cultura e da literatura romena entre nós (universalidade da cultura romena; o caminho do céu e outras novelas romenas; antologia da poesia romena; antologia do contro romeno; férias na romênia; introdução ao cancioneiro romeno; além de divulgador de theodor herzl entre nós).
    pode ser um tema interessante de pesquisa, não acha?

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  4. Realmente, muito interessante, Denise!

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