17 de out de 2012

o amante de lady chatterley, via gustavo barroso

algum tempo atrás, em 2008, levantei umas pistas que me parecem interessantes e mereceriam talvez uma pesquisa a rigor.

trata-se da misteriosa tradução de o amante de lady chatterley, atualmente no catálogo da record, com tradução em nome de "rodrigo richter".

em 1938, a minúscula e efemeríssima agência minerva editora, de linha integralista, estridentemente fascista e antissemita (cujo colaborador mais constante era gustavo barroso - até me pergunto se não seria ele o dono ou um dos associados dessa editora), publica uma tradução da lady chatterley, inexpurgada. tem reedições em 1941 e 1946. a tradução vinha anônima.

em 1956, a civilização brasileira volta a publicar essa tradução. em 1959, acrescenta na página de rosto créditos de tradução em nome de "rodrigo richter".

é incontável a quantidade de reedições dessa obra. quando a record adquiriu a civilização, ela passou a integrar seu catálogo, saindo pela bestbolso. aliás, essa tradução não escapou à sanha da martin claret, onde foi transcrita sob o nome de "jorge luís penha" e lá permanece viçosa até hoje.

reproduzo abaixo partes de dois posts que publiquei aqui e aqui, com algumas considerações:
desde que foi publicado pela primeira vez na itália, em 1928, lady chatterley's lover (na versão final de lawrence, a chamada "terceira versão") foi proibido pela censura britânica, sendo publicado em outros países, mas na inglaterra circulando ou clandestinamente ou numa versão "expurgada" durante 30 anos. em 1959, num julgamento nos estados unidos, o supremo tribunal liberou a edição da obra integral no país, abrindo a brecha para novo julgamento na inglaterra, onde ela foi finalmente liberada em 1960.
a tradução que aparece na civilização brasileira em nome de rodrigo richter, em 1959, na verdade foi publicada inicialmente em 1938, pela agência minerva. a página de rosto dessa edição de 1938 já traz os dizeres "versão integral inexpurgada", e na página da imprenta consta "versão autorizada". não consta o nome do tradutor.

a agência minerva publica uma segunda edição em 1941 e uma terceira em 1946, ambas com o apêndice "em defesa de 'lady chatterley'":

  
em 1956 o título reaparece na civilização brasileira, onde segue sua carreira por algumas décadas. é apenas em 1959 que a civilização brasileira acrescenta os créditos de tradução em nome de "rodrigo richter", desde a edição cuja capa de eugênio hirsch ficou célebre pela renovação gráfica que introduziu na editora. "rodrigo richter" se mantém até hoje como autor da tradução no catálogo da record (bestbolso).


com esses achados, o caso parece se tornar ainda mais interessante. trata-se de uma tradução que vem desde 1938, tendo portanto completado 70 anos de existência. [hoje, 74 anos!] 
quanto ao verdadeiro tradutor, que se manteve anônimo por vinte anos, não posso afirmar nada. "rodrigo richter" pode ser um pseudônimo, pode ser um nome emprestado, pode ser alguém de verdade. isso, decerto, a record há de saber melhor do que eu. 
quanto à sua edição inicial em 1938, o curioso é que ela foi publicada pela agência minerva. em seu reduzidíssimo catálogo, constam na mesma época a publicação de um livro de l. bertrand, a maçonaria, seita judaica: suas origens, sagacidade e finalidades anticristãs (1938), em alardeada tradução do integralista e antissemita gustavo barroso; o famosíssimo os protocolos dos sábios de sião (1936), traduzido, anotado, comentado e "apostilado" também por ele; e ainda o grande processo de berna sobre a autenticidade dos "protocolos" - provas documentais (1936), do mesmo gustavo barroso. 
na mesma década de 1930, gustavo barroso publicou várias obras pela companhia editora nacional, seja em seu selo principal, no selo civilização brasileira ou em sua coleção brasiliana (as colunas do templo; brasil, colônia de banqueiros; judaísmo, maçonaria e comunismoa história secreta do brasil em 3 vols.; história militar do brasil). até os anos 1950, gustavo barroso fazia parte do quadro de sócios da civilização brasileira, ainda subsidiária da companhia editora nacional. 
isso parece sugerir vivamente que a migração de o amante de lady chatterley da agência minerva para a civilização brasileira teria se dado por meio de gustavo barroso, que teria feito a evidente conexão entre ambas. [sobre as relações entre gustavo barroso e a nacional/civilização, com octalles e ênio silveira, há farta documentação disponível para pesquisas.]
a curiosidade que fica é como, em primeiro lugar, a agência minerva teria decidido publicar em seu microcatálogo um título decididamente polêmico, ao lado de peças de propaganda antissemita traduzidas ou "apostiladas" pelo mais ruidoso e profícuo ideólogo integralista do país. (aqui talvez fosse o caso de se levarem em conta as posições protofascistas de d.h. lawrence, que certamente seriam prato cheio para alimentar a propaganda integralista no brasil...) 
então junte-se tudo isso: um livro que, sob vários aspectos, é um marco da literatura mundial, passa 30 anos censurado, é editado no brasil em sua versão integral antes mesmo de cair a censura por uma editora virulentamente militante na ala mais extremada do fascismo brasileiro, reaparece numa editora progressista,  depois é absorvida pela voragem comercial que tragou boa parte da diversidade de nossa indústria editorial e se mantém até hoje, com quase 75 anos de movimentada existência nas costas, incluindo até uma rude espoliação - a gente sente uma espécie de densidade nessa trajetória, que acho interessante e, quem sabe, importante de ser lembrada e resgatada. além disso, a própria vetustez da tradução em si poderia fornecer bons subsídios para o estudo de práticas tradutórias do passado, sem contar que um estudo desses entrelaçamentos editoriais ajudaria a compor em mais detalhes o cenário ideológico e cultural da primeira metade do século 20.
como tema de uma pesquisa de mestrado, creio que pode ser bastante fecundo. e até me arrisco a dar um palpite: não terá sido o próprio gustavo barroso, tradutor de vários livros, a traduzir também essa obra? não será "rodrigo richter" o nome que a civilização inventou ou lhe foi sugerido em 1959, ano da morte de gustavo barroso, para batizar sua tradução lançada vinte anos antes pela extinta agência minerva?

2 comentários:

  1. Fantástico texto, Denise! Extraordinária pesquisa! Parabéns, mais uma vez. O seu texto me faz lembrar como são conflituosos e contraditórios o interior humano e, por consequência, toda a humanidade e sua história.

    ResponderExcluir
  2. obrigada, fabrizio. de fato, este tema me pareceu particularmente fecundo para uma pesquisa nos programas acadêmicos de estudos de tradução - até por isso resgatei-o do baú deste blog ;-)

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.