9 de out de 2012

mais uma sugestão de pesquisa (esta, ufa!)

o autor mais assíduo das chamadas "traduções especiais" do clube do livro parece ter sido josé maria machado. já comentei algumas vezes, por exemplo aqui e aqui, que essas traduções especiais muitas vezes não passam de meras adaptações de traduções portuguesas ao português brasileiro.

I.
apenas para registro, segue uma rápida lista de "traduções especiais" de josé maria machado. em vista das altas tiragens e frequentes reedições das obras publicadas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência (embora intermitente), talvez fosse interessante rastrear os verdadeiros tradutores dessas obras e compor um painel mais preciso de nossa produção e recepção literotradutória.

1944 (1987), gustave flaubert, madame bovary
1945 (1988), edgar allan poe, histórias extraordinárias 
1946, oscar wilde, o retrato de dorian gray (“j. machado”)
1947 (1988), honoré de balzac, mulher de trinta anos
1948, emily brontë, o morro dos ventos uivantes
1951, robert louis stevenson, o médico e o monstro
1953, walter scott, ivanhoé
1954, mark twain, as aventuras de tom sawyer 
1955, cyrano de bergerac, viagem aos impérios do sol e da lua
1955, flavia steno, apaixonadamente
1956, alexandre dumas, o colar de veludo 
1956, charles dickens, uma aventura de natal (com tito marcondes)
1956, jonathan swift, as viagens de gulliver
1956, théophile de gautier, a paixão de militona
1957, george sand, a pequena fadette*
1957, herman melville, moby dick
1958, charlotte brontë, o professor 
1958, victor hugo, os miseráveis (condensada, 516 pp.)
1960, georges kamké, na ponta de um arco
1961, alexandre dumas, a loura huberta 
1961, françois rabelais, o gigante gargântua
1961, mark twain, as aventuras de huckleberry finn
1962, fenimore cooper, o último dos moicanos
1963, ivã turgueniev, o passaporte
1963, oscar wilde, o jovem rei
1965, prosper mérimée, a serpente
1968, summer lincoln, a cicatriz
1969, charles dickens, tempos difíceis
1969, leon tolstoi, o diabo branco
1972, walter scott, a última torre
1974, alexandre dumas, homem de guadalupe
1975, william sackleton, dois mistérios (com paulo arinos)
1976, honoré de balzac, uma paixão no deserto (com augusto dantas)
1977, anne brontë, a preceptora
1983, honoré de balzac, o renegado

* agradeço a informação de elaphar. citem-se a propósito do clube do livro os estudos de john milton.

obs.: os dois primeiros e o quarto títulos saíram como tradução anônima - apenas em data posterior, assinalada entre parênteses, surge o nome de josé maria machado. já o retrato de dorian gray foi a primeira obra trazendo a menção "traduzido especialmente para o clube do livro", que depois se tornaria habitual. interessante notar que, nesta primeira aparição, consta apenas "j. machado".


II.
por outro lado, e mais na linha do pulp fiction, o clube do livro publicou alguns livretos (fletcher, oppenheim, futrelle e wallace) que já tinham saído na "coleção vampiro" da coluna sociedade editora, na tradução do próprio josé maria machado: 


Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1955 CdL

Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1956 CdL (a tôrre em 1963)

1952 CSE, 1956 CdL


1953 CSE, 1955 CdL


1953 CSE, 1957 CdL

outra tradução de josé maria machado na coleção vampiro, pela coluna, é atrás da máscara, de summer lincoln, de 1951, mas não encontrei imagem de capa e não tenho notícias de reedição pelo clube do livro.

não sei como é a história da coluna sociedade editora (que, aliás, introduziu a fotonovela no brasil, com a revista encanto, desde 1949). o que sei é que, a certa altura do ano de 1953, o clube do livro incorporou a coleção vampiro, o que explicaria tais reedições. mas tampouco sei como foi a sobrevida dessa coleção no CdL.

III.
um adendo final: mário graciotti, fundador e proprietário do clube do livro, foi um dos mais destacados membros da frente integralista brasileira, tendo sido seu primeiro secretário. segundo ele afirma em os deuses governam o mundo, josé maria machado era "português de nascimento, mas brasileiro de coração", seu companheiro de fundação da sep (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, e correligionário da ação integralista brasileira. ver aqui. note-se também que josé maria machado foi autor de um livro chamado a marca de caim, publicado em 1948 pela coluna.

essa sugestão de pesquisa me parece mais ambiciosa do que as anteriores (veja aqui) e demandaria maior fôlego ou um trabalho cooperado. mas acho que valeria a pena, e muito.

12 comentários:

  1. oi denise. lá no meiapalavra.com.br começou a leitura em grupo d'o velho e o mar, do hemingway. e olha só oq descobri sobre as traduções dele no brasil, feitas pelo português fernando d castro ferro, q replico aqui tal qual postei lá no fórum:

    "tem +: o fernando d castro ferro é lusitano e a revisão do texto dele p o brasil foi feita por josé baptista da luz. (fonte1) outras versões pincelaram aqui e ali, como a da bertrand, p o texto soar + moderno, mas ainda assim é 1 trabalho d maquiagem (fonte2)

    fico espantado q 1 livro tão mundialmente famoso ñ tenha nenhuma tradução feita por brasileiros. alô tradutores d plantão! além d ficar parecendo q as editoras continuam usando esta e a frankstainzando p ñ pagar os direitos autorais pro ferro né? se esta hipótese estiver certa, em tese estaria super ultra liberado postar links p ela aqui, ñ é chefia? este é +1 caso p a detetive virtual denise bottmann!

    momento cultura inútil: achei tb q os 49 contos d tennesse williams, da cia, tb é traduzido por ele. será q fizeram a mesma maquiagem?"

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    1. olá, jlm,
      se mal lhe pergunte, vc tem certeza de que fernando castro ferro era português? castro ferro era o dono da editora expressão e cultura, traduzia bastante para a civilização e para a antiga zahar (sua trad. d'o jogo da amarelinha, do cortázar, ficou famosa, pela civilização, bem como essa do hemingway). sobre sua atuação como editor no brasil, vale a pena ler seu artigo sobre "o mundo selvagem dos livros", em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=123307&pagfis=2067&pesq=&esrc=s

      a editora portuguesa livros do brasil de fato publicou a tradução dele, mas a livros do brasil justamente licenciava e publicava várias traduções brasileiras adaptadas para o português lusitano (herbert caro, p.ex.), às vezes porque não tinham alguma tradução portuguesa daquela obra.

      a tradução portuguesa d'o velho e o mar que eu conheço é a de jorge de sena, que saiu tb pela livros do brasil desde 1956.

      então acho que tem de ver melhor.

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    2. olha, jlm, pela livros do brasil saiu em 1954 http://books.google.com.br/books/about/O_velho_e_o_mar.html?id=xCOstwAACAAJ&redir_esc=y
      e foi substituída pela de jorge de sena em 1956.

      então não sei; teria de ver melhor. mas na minha cabeça não faz sentido que uma editora contrate uma tradução e dois anos depois outra. só faria sentido se fosse um licenciamento de outra editora, e depois a contratação de uma nova tradução para seu próprio catálogo. mas repito: teria de ver melhor. de qualquer forma, sua hipótese de uma eventual contrafação aí nesse caso parece-me que não procede.

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    3. jlm, prosseguindo. encontrei um fernando de castro ferro, este sim português, mas que parece apenas um homônimo, sem nada a ver com o tradutor de john fowles, hemingway e cortázar, nem com o editor da expressão e cultura e da liceu: http://bibliowiki.com.pt/index.php/Fernando_de_Castro_Ferro

      talvez a origem de uma possível confusão entre os nomes seja esta...

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    4. tirei a informação dos 2 links abaixo:

      http://150.165.241.35/scripts/odwp032k.dll?t=bs&pr=ufpb_wpor&db=ufpb_db&use=pn&disp=list&sort=on&ss=NEW&arg=luz,|jose|baptista|da

      http://armonte.wordpress.com/tag/fernando-de-castro-ferro/

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    5. e ñ sei se conta como diferença, mas o nome do tradutor q aparece nos livros tem um 'de' eqto pelo q vi no nome do editor ñ tem.

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    6. achei uma pequena biografia do irmão dele q parece esclarecer alguns pontos: ele era português mas radicou-se no brasil por um bom tempo. segue o trecho q destaco:

      "Tem um único irmão, quatro anos mais novo, Fernando de Castro Ferro, que se distinguirá como tradutor e editor no
      Brasil e também, professor em Paris."

      http://www.fundacaoantonioquadros.pt/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=23

      resta saber agora se por ele ser português as traduções feitas eqto morador do brasil precisaram d revisões posteriores. seria isso possível?

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    7. que ótimo, quanto material!
      bom, então acho que aos poucos vai se compondo um quadro mais coerente :-)

      olha, paulo rónai sempre foi tido como grande tradutor, mas ele dizia que jamais publicou uma tradução sua sem ser revista por aurélio buarque de hollanda.

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  2. Quanto às traduções de alguns dos mais importantes autores de mistério pela coluna, edigraf, coleção vampiro e clube do livro, feitas em grande parte por José Maria Machado, me veio a memória e está aqui ao meu lado enquanto escrevo o livro "O Mundo Emocionante do Romance Policial" de Paulo de Medeiros e Albuquerque. Ele faleceu em 1982 e foi, talvez, o maior entusiasta da literatura de mistério clássica no Brasil e seu maior pesquisador. Não vou entrar na discussão da importância dos romances policiais como literatura séria, o que já gerou muito debate e cada vez mais ela tem defensores de seus autores não apenas como produtores de textos de mero entretenimento, mas pessoas que escreviam muito bem, consideráveis talentos em diversos elementos que o espaço e o assunto abordado aqui não me permitem alongar-me sobre esse tema. Apenas reproduzo o pensamento de Machado de Assis que dizia que os livros não deveriam ser divididos entre frívolos e sérios, mas entre bem escritos e mal escritos. Dito isso, Paulo de Medeiros e Albuquerque fez um exemplar trabalho de pesquisa levantando tudo o que foi publicado no Brasil em termos de romances policias após 1930. Ele considera que após esse período, o trabalho de tradução e edição de romances policiais ficou mais sério, com traduções mais bem cuidadas, sempre destacando como exemplo a coleção amarela. Até a sua morte, o seu livro, publicado em 1970, foi sendo atualizado em um apêndice chamado "Coleções policiais no Brasil" em que ele nos mostra todas as traduções existentes de romances de mistério em nosso país em um trabalho gigantesco de pesquisa em um período muito anterior às facilidades da internet. Em um trecho, ele dizia desconsiderar as traduções da edigraf, coleção vampiro, coluna e clube do livro por serem para ele traduções mal feitas e, provavelmente, condensadas. Tanto que ele não coloca na sua relação de coleções policiais no Brasil nenhum desses livros. Apenas cita quando relaciona a lista de autores de mistério mundiais que tal autor teve um livro seu publicado por essas coleções e editoras. Vale a pena dar uma olhada no livro de Paulo de Medeiros de Albuquerque pelo seu exemplo de trabalho de pesquisa. Ele fez uma coleção muito séria chamada "Horas em Suspense" pela Francisco Alves editando com ótimos tradutores a nata dos autores de mistério, clássicos e novos, como P.D.James que foi lançada por essa coleção no Brasil. Infelizmente, apesar de dispormos de boas coleções policiais hoje, ninguém mais teve a iniciativa dele de editar com seriedade e sem preconceito os grandes clássicos de mistério de nomes tão talentosos, sérios e inteligentes como John Dickson Carr, Margery Allingham, Ngaio Marsh, Ellery Queen, entre outros.

    Abraços!

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    1. que contribuição excelente, fabrizio, agradeço muito! tomara que algum doutorando ou mesmo em nível de pós-doutorado alguém se anime a essa pesquisa. suas referências são indispensáveis.
      aliás, a edigraf e o jacob penteado tinham umas relações que não entendo muito bem com o CdL e josé maria machado; seria mais um ponto a pesquisar.
      obrigada de novo,
      abraço
      d.

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  3. Denise, para os que possam se interessar encontrei essa tese de mestrado em letras sobre o romance policial na obra de Marcos Rey em que antes se faz um apanhado da história da literatura policial no mundo e no Brasil. E, claro, o livro de Paulo de Medeiros e Albuquerque é muito citado. Eis o endereço:

    http://www.cesjf.br/cesjf/Noticias/pdfs/Editais_Dissetra%C3%A7%C3%A3o/disserta-347-343o%20Gilda%20mist-351rio%20e%20suspense%20na%20narrativa%20policia-205.pdf

    Como já disse, não quero me alongar e nem fazer defesa da literatura clássica de mistério aqui pois creio que não é o espaço. Todos os trabalhos acadêmicos que a analisam são bons mas, para mim, estão longe de analisar múltiplos elementos muito mais profundos em termos de forma e conteúdo encontrados em seus melhores autores e que podem ser encontrados na melhor literatura que não é de mistério. E me refiro aos autores da época clássica de mistério, os considerados apenas produtores de enigma como se fosse possível escrever 100, 200 páginas de um livro baseado apenas em charadas, pistas e nos quadros esquemáticos puros atribuídos ao romance de mistério. Até me lembra o que Paulo Coelho falou sobre Ulisse de James Joyce: que era só estilo puro e tinha um tuíte de conteúdo. Independente de sabermos que Ulisses é uma obra-prima da literatura, mesmo que isso fosse desconhecido, caberia perguntar se seria possível escrever mais de 600 páginas com estilo puro sem conteúdo algum. Nem dá pra imaginar como seria isso.

    E, lembrando que Paulo de Medeiros e Albuquerque era também escrito e tradutor. Em um programa que vi há muitos anos sobre ele na TVE, mostrando a sua imensa biblioteca policial, com entrevista com sua filha e amigos, um deles dizia que Paulo de Medeiros lia romances policiais em várias linguas: inglês, francês, italiano, etc. Ou seja, sabia o que dizia quando falava de traduções. Lembrando também que ele era neto do também escritor e político Medeiros e Albuquerque, autor, entre trabalhos de vários gêneros, da letra do hino da Presidência da República e precursor da literatura policial no Brasil.

    Ofereço todas essas informações pela importância mesmo da temática desse blog e alertar, como leitor apenas, aos profissionais e acadêmicos de se reverem as traduções antigas dos livros policiais, onde vemos muitos dos erros já comentados aqui em relação a livros de outros gêneros literários, para reforçar meu apelo de se publicarem traduções novas e inéditas dos grandes mestres do passado que serão apreciadas por muitos como sempre foram, especialmente por pessoas muito eruditas, como bem sabemos, apesar de publicamente não darem sua opinião sobre esse gênero literário. Fora o caso que já comentamos do clube do livro.

    Forte abraço!

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  4. ÃLiás, continuando meu post anterior, quem quiser uma análise séria e profunda dos romances da época aúrea de mistério como literatura, muito além de reduzi-los a pista e adivinhações recomendo o site do phd em matemática da Universidade de Michigan Michael E.Grost. Ali também se encontrará uma história completa da ficção policial no mundo, muito mais até do que em Paulo de Medeiros e Albuquerque, fora as muitas análises de conteúdo que Paulo de Medeiros não faz, mas preocupado em alertar para a importância desse gênero através do registro e pesquisa da ramificação desses livros no Brasil e no mundo. O endereço é:

    http://mikegrost.com/classics.htm

    Lembrando também que o próprio processo de detecção e dedução nos livros de mistério é alvo de análises sérias relacionadas a outros importantes campos de conhecimento como mostra o livro "O Signo de Três", uma compilação de textos organizada por Umberto Eco e Thomas A. Sebeok, publicada pela editora perspectiva em sua área de Semiótica mas que é centrada em grande parte na análise das obras de Poe e Conan Doyle com seus personagens Holmes e Dupin e seus processos de dedução relacionando-os com estudos de Charles Sanders Pierce (o tema principal: os três do título são Dupin, Holmes e Pierce) mas também Freud, Karl Popper, entre vários outros.

    Abraços!

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