12 de set de 2012

daquelas coisas que me deixam doente

por ocasião da aula inaugural na pós-graduação em estudos de tradução (pget) na ufsc, tentei expor as razões - de fundo conceitual - que me levam a duvidar de um trânsito fecundo ou sequer possível entre teoria e prática de tradução - disponível aqui.

num nível mais simples, volta e meia encontro barbaridades em textos cheios de palavras difíceis, de nomes compridos, de frases altissonantes e propostas grandiloquentes. faz lembrar um pouco a história da montanha que pariu um rato. mas, ainda mais aquém disso, fico assombrada com a facilidade, a leviandade mesmo, com que se trata "a vítima" da ocasião.

pois como é que alguém há de pretender analisar a sério a tradução que augusto meyer fez de don segundo sombra, de ricardo güiraldes, tomando-a e dando-a como se tivesse sido feita em 1997?! mas nem para saber que augusto meyer, a essas alturas, já estava morto fazia quase trinta anos? e nem para se interessar em saber quando fora efetivamente feita ou publicada pela primeira vez? tivesse esse mínimo de curiosidade ou cumprisse essa preliminar tão básica e evidente, viria a saber que o dom segundo sombra de meyer fora publicado mais de cinquenta anos antes da data indicada em sua dita análise: a saber, em 1944.

e talvez assim soubesse avaliar melhor que, naquela primeira metade do século XX, usar um "dê-le pra cá, dê-le pra lá" ou um "só vendo o barulho que fazia aquele cristão" ou um "animalada" exigia desenvoltura e até uma pitada de ousadia. e talvez assim soubesse avaliar a que ponto augusto meyer (aliás usando prodigamente seu mais castiço gauchês) se afastava da chamada norma culta, e talvez assim não se saísse com tal despropósito: "A tradução de Meyer pode ser caracterizada como próxima da linguagem padrão, visto que o tradutor não buscou nenhum tipo de equivalência ou compensação".

às vezes penso que os mais insensíveis, os mais empedernidos ao ofício tradutório são muitos dos que pretendem pontificar sobre ele. às vezes penso que o mais despretensioso dos leitores perceberia com clareza muito maior o frescor regionalista dessa mesma tradução tão sumariamente (e erroneamente) caracterizada pelo autor de Avaliando Traduções [sic!] - disponível aqui.

quanto às várias edições de dom segundo sombra na tradução de augusto meyer, tenho notícias das seguintes:
  • 1944, com reedição em 1952, pelo ministério das relações exteriores;
  • 1981, pela francisco alves;
  • 1997, com reedições em 1999, 2001, 2005 e 2011, pela l&pm
atualização: há, por outro lado, uma avaliação sensível e fundamentada dessa mesma tradução de augusto meyer, feita por um praticante do ofício, pablo cardellino soto: disponível aqui.

2 comentários:

  1. ... e o texto ainda é rematado com um agradecimento ao final!

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  2. Para quem lida com português a primeira frase do resumo poderia ser um pouco mais bem construída. De qualquer forma, vou arriscar uma transcriação: "Artigos científicos são frequentemente feitos por pessoas pouco familiarizadas com o Método Científico e, mesmo no caso de um mestrando bolsista da Capes, são feitos sem método nenhum."

    E assim anda a academia no Brasil ...

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