22 de ago de 2012

uma ideologia poderosa




A Boitempo traz o clássico da teoria social contemporânea O poder da ideologia, de István Mészáros, um dos principais pensadores marxistas da atualidade. Com edição cuidadosa, o livro possui nova tradução para o português feita por Paulo Cezar Castanheira e uma introdução inédita[...].







este é um trecho da apresentação da obra de mészáros no site da boitempo editorial, aqui.

por outro lado, the power of ideology fora publicado pela extinta editora ensaio em 1996, com tradução de magda lopes.






















parece-me um caso bastante semelhante ao que ocorreu com outro livro de mészáros, em duas edições no brasil: marx: a teoria da alienação, em tradução de waltensir dutra e supervisão editorial de leandro konder, pela zahar, e a teoria da alienação de marx, em pretensa tradução em nome de isa tavares, pela boitempo, que apresentei aqui.*
* vale dizer que, no caso da teoria da alienação, a editora reconheceu a pertinência de meus apontamentos e declarou ter interrompido a distribuição da obra irregular e ter encomendado nova tradução (aqui).

digo que o caso me parece semelhante, pois a impressão que se tem durante a leitura de o poder da ideologia nas duas edições é que a da boitempo teria tomado como base de seu texto a tradução publicada pela ensaio, seguindo o padrão daquilo que já se sugeriu chamar de "tradução parafraseada":

  1. frases inteiras praticamente idênticas;
  2. diferença de termos no nível lexical mais simples;
  3. estruturação formal e sintática com alto grau de identidade;
  4. alguns vezos em comum;
  5. diferenças difíceis de explicar a não ser como "falha de revisão"
seguem-se alguns exemplos: 

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
A grande dificuldade é que os obstáculos a superar se erguem sobre as bases objetivas de determinações materiais contraditórias que se opõem a qualquer um que tente interferir com os ditames materiais de sua lógica. Dizer que, "no fim, os homens terão o que merecem" implica a intervenção de uma justiça divina muito peculiar e autodestrutiva, pois a esmagadora maioria dos homens é de um modo ou de outro privada do poder de tomar decisões, e por isso realmente não "merecem" o que lhes acontece em consequência das decisões de uma pequena minoria: uma circunstância que transforma em seu absoluto oposto a própria noção de "justiça divina". (p. 287) 

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
A grande dificuldade é que os obstáculos a superar se erguem sobre as bases objetivas de determinações materiais contraditórias que se opõem a qualquer um que tente interferir com os ditames materiais de sua lógica. Dizer que, "no fim, os homens terão o que merecem" implica a intervenção de uma justiça divina muito peculiar e autodestrutiva, pois a esmagadora maioria dos homens é de um modo ou de outro privada do poder de tomar decisões, e por isso realmente não "merecem" o que lhes acontece por causa das decisões de uma pequena minoria: uma circunstância que transforma em seu absoluto oposto a [] noção de "justiça divina". (p. 282)

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Entretanto, o problema é que as implicações óbvias e altamente perturbadoras de tais observações minam as expectativas esperançosas de Marx quanto à "última forma possível" de um poder de estado separado e independente da sociedade. Enquanto existir a base social da divisão sistemática e hierárquica do trabalho - e enquanto ela puder se renovar e fortalecer em conjunto com a transformação dos corpos sociais da "sociedade civil", em escala sempre crescente e rumo a uma integração global - uma reestruturação correspondente das formas de estado, em prol da continuação do domínio de classe (tanto internamente quanto no plano das relações interestatais), não pode ser negada ao sistema estabelecido. Por isso, ainda hoje estamos muito distantes da "última forma" do estado capitalista e de seu domínio de classe; quanto mais na época em que Marx escreveu as linhas citadas de sua defesa da Comuna. (p. 362)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
O problema, entretanto, é que as implicações óbvias e altamente perturbadoras de tais observações abalam as expectativas esperançosas de Marx quanto à "última forma possível" de um poder de Estado separado e independente da sociedade. Enquanto existir a base social da divisão sistemática e hierárquica do trabalho - e enquanto ela puder se renovar e fortalecer em conjunto com a transformação em curso dos corpos sociais da "sociedade civil", em escala sempre crescente e rumo a uma integração global -, uma reestruturação correspondente das formas de  Estado, em prol da continuação do domínio de classe (tanto internamente quanto no plano das relações interestatais), não pode ser negada ao sistema estabelecido.Assim, ainda hoje estamos muito distantes da "última forma" do Estado capitalista e de seu domínio de classe; quanto mais na época em que Marx escreveu as linhas citadas em defesa da Comuna. (p. 342)

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Mais uma vez, a analogia com a vislumbrada superação e definhamento das várias instituições repressivas do estado estava diretamente associada à avaliação do futuro da ideologia. Assim como seria inconcebível sair "fora" da superestrutura jurídica e política estabelecida e "abolir" o estado a partir do ponto de vista imaginário do absoluto voluntarismo (tal como os anarquistas concebiam a tarefa), do mesmo modo a superação última da ideologia - a consequência prática inevitável das sociedades de classe - só poderia ser concebida sob a forma da eliminação progressiva das causas dos conflitos antagônicos que os indivíduos, membros das classes, tinham de "resolver pela luta" nas circunstâncias históricas prevalecentes. (p. 519)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
De novo, a analogia com a vislumbrada superação e definhamento das várias instituições repressivas do estado estava diretamente associada à avaliação do futuro da ideologia. Assim como seria inconcebível sair "fora" da superestrutura jurídica e política estabelecida e "abolir" o estado a partir do ponto de vista imaginário do absoluto voluntarismo (tal como os anarquistas encaravam a tarefa), também a superação última da ideologia - a consequência prática inevitável das sociedades de classe - só poderia ser concebida sob a forma da eliminação progressiva das causas dos conflitos antagônicos que os indivíduos, membros das classes, tinham de "resolver pela luta" nas circunstâncias históricas prevalecentes. (p. 469)

logo na sequência, um detalhe interessante:

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Em outras palavras, a compreensão marxista - oposta ao voluntarismo - de que o "definhamento" do estado teria de ocorrer através da reestruturação radical de suas instituições e da transferência progressiva de suas múltiplas funções para os indivíduos sociais: os "produtores associados", fez com que a mesma consideração das restrições objetivas se impusesse também na atitude assumida em relação à ideologia em geral. (p. 519-20)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
Em outras palavras, a compreensão marxista - oposta ao voluntarismo - de que o "definhamento" do estado teria de ocorrer pela reestruturação radical de suas instituições e da transferência progressiva de suas múltiplas funções para os indivíduos sociais: os "produtores associados", fez com que a mesma consideração das restrições objetivas se impusesse também na atitude assumida em relação à ideologia em geral. (p. 469)

ninguém há de imaginar que mészáros estivesse se referindo a uma reestruturação da transferência progressiva de funções, como consta na edição da boitempo. parece mais plausível supor que, ao se substituir "através da" por "pela", tenha-se esquecido de aplicar a mesma substituição na sequência da frase, com  "e pela transferência progressiva etc.".   

um pequenino erro de tradução, mas que não deixa de ser curioso ao se repetir nas duas edições: "Para tornar as coisas ainda mais desconcertantes [...] Feyerabend reivindica em nome do mesmo espírito 'leigo' [sic] a separação da ciência e do estado" (ensaio, p. 62, nota; boitempo, p. 97, nota): trata-se, evidentemente, de espírito "laico".




em o poder da ideologia na edição da boitempo, repete-se um detalhe que já surgira em considerações sobre o marxismo ocidental/ nas trilhas do materialismo histórico, de perry anderson, que comentei aqui (cujas irregularidades de tradução, cabe dizer, também foram admitidas pela editora).

trata-se da menção "Copyright © 1996 da 1a. edição brasileira: Editora Ensaio" na página de créditos. 


não sabemos o que a editora ensaio haveria de pensar da referência (sabemos, por exemplo, que a brasiliense, posta diante de situação semelhante, manifestou sua estranheza), visto que a ensaio encerrou suas atividades faz um bom tempo. de qualquer forma, volta-me, mesmo um tanto absurda, uma hipótese: teria a boitempo julgado que, mencionando um antigo copirraite de uma editora extinta, estaria conferindo legitimidade à sua "nova tradução"? 

seja como for, a referida editora comunicou em nota recente que havia dado por encerrado o processo de apuração interna para eliminar qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (ver aqui). no entanto, o poder da ideologia parece lhe ter escapado à atenção, pois, tal como o supracitado ensaio "as antinomias de gramsci", de perry anderson, essa obra de mészaros não é mencionada em lugar algum da referida nota. em vista do empenho que a editora tem dedicado a apurar alguns problemas em suas publicações, quero crer que se disporá também a avaliar o caso acima exposto. e por tão mais forte razão porque, no caso de paulo cez[s]ar castanheira, tradutor de muitas obras e não só para a boitempo, a editora poderia eventualmente correr o risco de vir a manchar o nome de um profissional atuante e conhecido no meio.

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