9 de ago de 2012

uma duradoura árvore natalina


















I.
em 1947, a livraria martins editora lançou a antologia livro de natal - as mais lindas histórias de natal dos maiores escritores do mundo, com reedições até 1970. a coletânea ficou a cargo de araújo nabuco, também responsável pelas notas biográficas dos autores. alguns contos trazem o nome do tradutor; outros não. lá temos, entre muitos outros, "sonho de uma noite de natal" de máximo gorki, em tradução de luiz macedo, e "a árvore de cristo" de th. dostoiewski, sem crédito de tradução.



em 1957, a cultrix lança maravilhas do conto russo, que também traz o mesmo conto de dostoiewski (adoravam o w naquela época), agora fedor e não mais th. (de theodor[e]), com o título de "a árvore de natal de cristo". a seleção ficou a cargo de um implausível "serge ivanovitch", com introdução e notas de edgard cavalheiro e "traduções revistas por t. booker washington". já comentei inúmeras vezes aqui no blog a doideira que era essa coleção das maravilhas da cultrix, com suas constantes "traduções revistas" pelo quase ubíquo "t. booker washington": a prática da editora, na verdade, consistia essencialmente em caçar aqui e ali contos já publicados em outras editoras, brasileiras e portuguesas, e republicá-los sem dar fontes nem créditos. 


bem, seja como for, as traduções da martins e da cultrix são totalmente independentes. por exemplo, na descrição inicial tem-se:
  • um "velho colchão de capim, duro e seco como um pão de pobre, onde, com um saco por travesseiro, repousava sua mãe doente" na cultrix e um "leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino omo um crepe, onde está deitada a sua mãe" na martins;
  • para esta, o menino "está sentado a um canto, em cima de uma mala"; na cultrix, ele está "sentado no canto de uma sala" (o que parece meio absurdo, pois trata-se de um pequeno tugúrio num porão - que sala seria esta?);
  • para o anônimo da martins, o menino usa "uma espécie de roupão sujo"; para o anônimo da cultrix, são "farrapos que o cobriam".
ou, do meio para o fim:
  • na cultrix, os bonecos que ele vê na vitrine "eram tão engraçados, tão engraçados que transformaram em riso o seu pranto";* já na martins, o menino "ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos!";
  • para o anônimo da martins, entre os meninos do final, havia alguns "mortos nas isbás sem ar dos tchaukhnas"; segundo o anônimo da cultrix, "morreram nos asilos das províncias";
  • e no final, para a martins, "quanto à árvore de natal, meu deus! não sou eu romancista para inventar coisas como estas?"; para a cultrix, "quanto à árvore de natal de cristo, não poderei afirmar que exista. mas, já que sou romancista, posso bem imaginar que sim".
II.
em 1995, entre seus primeiros lançamentos, a boitempo editorial publica um pequeno volume chamado histórias de natal, com apenas dois contos: um de máximo gorki, "sonho de uma noite de natal", e o mesmo de fedor dostoiewski, "a árvore de natal de cristo", que atualmente consta no site da editora como esgotado.*


* atualização em 19/9/2012: agora sumariamente removido do site, mas ainda constante nos catálogos da editora.

a tradução, segundo o que consta no volume impresso, teria sido feita por isa tavares a partir do espanhol. no entanto, têm-se semelhanças ou, melhor, identidades difíceis de explicar, mesmo sendo uma tradução supostamente feita do espanhol (aliás, engana-se redondamente quem pensa que o espanhol não passa de una adaptación del portugués o viceversa). vejamos alguns exemplos:

anônimo (martins, 1947)
Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 315)

isa tavares (boitempo, 1995)
Veste uma espécie de roupão sujo, e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 9)

anônimo (martins, 1947)
Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino!
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo de mais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 317)

isa tavares (boitempo, 1995)
Percebe, por um outro vidro, uma outra sala; e ainda uma árvore e bolos de toda a espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e quando alguém chega uma delas dá-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, colocou uma moeda na sua mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino.
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, para segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? Não sabia. Gostaria de chorar, porém, tem medo e corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão abandonado, quando, de repente, meu Deus, que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, numa vitrina. Por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente
como se fossem vivas. E o velhinho, sentado, que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violinos pequeninos e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de verdade. Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 13-4)

anônimo (martins, 1947)
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca ele viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvessem assim. Ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos! (p. 317)

isa tavares (boitempo, 1995)
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos. Quando compreende que são bonecos, começa a rir. Nunca viu bonecos semelhantes e nem imaginara que existissem assim. Eram tão engraçados, tão engraçados, que transformam em riso o seu pranto. (p. 14-5; *ver acima)

anônimo (martins, 1947)
Ele cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro."
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, ele mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" - pensa ele e sorri à ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 318)

isa tavares (boitempo, 1995)
Ele cai. Ao mesmo tempo, todo [] mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém vai me encontrar; está bem escuro."
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, [] mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas, de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogo e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez", pensa ele e sorri com a ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 16)

III.
no conto de dostoiewski, às p. 9-19 do volume da boitempo, não me parece implausível supor que, em vista de tantos elementos coincidentes, trate-se de uma reprodução levemente adulterada da tradução publicada em 1947 pela livraria martins. notam-se três ou quatro diferenças expressivas em relação à tradução publicada pela martins, as quais, porém, correspondem exatamente às soluções adotadas na tradução anônima da cultrix de 1957.*

* a menos, claro, que a referida isa tavares tivesse publicado anonimamente sua dita tradução do espanhol pela martins em 1947 e apenas quase cinquenta anos depois, em 1995, decidisse assumir sua autoria, depois de substituir algumas soluções antigas suas por outras adotadas na tradução que saiu pela cultrix em 1957 - mas essa hipótese, embora não de todo impossível, parece-me um pouco menos plausível. 

considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de dostoiewski.
sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

5 comentários:

  1. Fofinha Loirinha Herdeirinha de Editorinha9.8.12

    Caríssima amiga Denise, agradeço-a os éxcelentex poxtx (desculpe-me pelo sotaque, sou carioca, herdeira de uma famosa casa editorial de origem carioca).

    Continue o ótimo trabalho de desvendar esses paulistanos de classe média metidos a intelectuais marquessistas.

    Ah, eles que façam a revolução em Higienópolis, Pinheiros, Perdizes, Vila Madalena, Pacaembu e adjacências.

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  2. Denise você é um verdadeiro Sherlock Holmes da tradução. E não é que é... novamente o nome de Isa Tavares. Vamos aguardar a editora fazer suas verificações e trazer a publico, acredito em sua "palavra", os reparos que pelo jeitos serão grandes. Parabéns Denise pela perspicácia.

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  3. Jesus D. Cerqueira César10.8.12

    Que decepção! Mais uma! Não acredito na idoneidade desta editora. Para mim pode fechar as portas.

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  4. Fátima Do Coutto10.8.12

    Mas é muito descaramento. Sherlock, será que Isa Tavares existe ou será o nome fantasia usado para traduções do tipo corta/cola?

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  5. Anônimo20.11.12

    Bem já que falam sobre plagio por coincidencia achei esse conto de dostoievski muito parecido com um de Hans cristiam andersen a menina dos fosforos.

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