12 de ago de 2012

pesadelo de uma noite de natal






na sequência do post uma duradoura árvore natalina, aqui, passo agora ao conto de máximo gorki, sonho de uma noite de natal, publicado em 1947 pela livraria martins editora, em tradução de luiz macedo, e em 1995 pela boitempo editorial, com tradução atribuída a isa tavares.



apresento sucintamente o trecho inicial e o trecho final do texto, com as duas edições em paralelo. todo o miolo do conto guarda o mesmo padrão de identidade.

luiz macedo (martins, 1947)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, eu via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui deitar-me.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, impunha-se a meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não podendo dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino. Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pela casaria da vizinhança, para ver se obtinham com que comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar, à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 253-4)

isa tavares (boitempo, 1995)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui dormir.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, entrava em meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não conseguia dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino.
Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pelas casas da vizinhança, para ver se obtinham alguma coisa para comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 21-2)

luiz macedo (martins, 1947)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretendes, com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensas enternecer com tuas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram no ar claro como mariposas. (p. 256)

isa tavares (boitempo, 1995)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretende[], com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensa[] enternecer com suas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram, no ar claro, como mariposas. (p. 29-30)

considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de máximo gorki.
    sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

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