13 de ago de 2012

nota da boitempo editorial

hoje a boitempo editorial emitiu uma terceira nota, dando por encerrado seu processo de auditoria interna sobre problemas referentes à tradução de algumas obras de seu catálogo, levantados aqui neste blog. segue o comunicado que a editora me enviou por e-mail.
Nota pública de esclarecimento 
A Boitempo iniciou no  último mês uma auditoria interna que visou eliminar qualquer vestígio de irregularidade em nosso catálogo e tranquilizar nossos leitores e profissionais eventualmente lesados. Essa investigação interna, que consistiu na comparação de algumas traduções por nós publicadas com os respectivos originais e edições brasileiras anteriores, foi também frutífera para repensarmos nossos procedimentos editoriais, de maneira a deixá-los mais seguros e rigorosos. Hoje, após darmos por encerrado esse processo, vimos esclarecer que: 
1.       Constatamos coincidências significativas entre as traduções dos livros Considerações sobre o marxismo ocidental/Nas trilhas do materialismo histórico, de Perry Anderson, A teoria da alienação em Marx, de István Mészáros, e de capítulos de Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno, de Slavoj Žižek, publicados pela Boitempo, e traduções de outras editoras. Vale ressaltar que encontramos também partes e estruturas gramaticais bastante diferentes nas referidas publicações. O resultado da nossa conferência será publicado em breve no Blog da Boitempo. 
2.      Em respeito aos profissionais envolvidos e às pessoas que se relacionam com a editora – autores, colaboradores, leitores, jornalistas, livreiros –, tomamos a decisão de regularizar a situação desses títulos, mesmo que a conferência não tenha sido concluída (o cotejo página a página de cada livro levaria semanas). Já estamos em contato com a editora portuguesa que publicou Lacrimae rerum, encomendamos nova tradução de A teoria da alienação em Marx e contatamos os tradutores das referidas edições anteriores de Considerações sobre o marxismo ocidental/Nas trilhas do materialismo histórico. Reiteramos que interrompemos a distribuição dos títulos em que foram constatados problemas e aceitaremos sua devolução, conforme instruções dadas em nota anterior.   
3.      Quanto aos dois outros livros cuja autoria da tradução foi a mesma das obras citadas acima, ressaltamos que não se identificou nenhuma irregularidade em A educação para além do capital, de István Mészáros, cujo primeiro esboço de tradução – feito para a revista Margem Esquerda e não publicado à época – foi enviado pelo autor para o site portuguêsresistir.info, com autorização da Boitempo (que detém o copyright mundial desse e de outros textos do filósofo húngaro). As diferenças entre ambas as versões poderão igualmente ser conferidas em breve no Blog da Boitempo. Uma quinta tradução, do livro Histórias de Natal, não foi conferida pelo fato de a obra em questão – que teve uma única tiragem de mil exemplares – estar esgotada há mais de dez anos. 
4.      A tradução de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Friedrich Engels, foi feita a partir do original em alemão Die Lage der arbeitenden Klasse in England (Leipzig, Otto Wigand, 1845) e cotejada com edições italiana, francesa, inglesa e mexicana. Em comum com o volume publicado em 1986 pela editora Global há apenas o autor do prefácio daquela edição, que em nossa obra foi responsável também pela supervisão editorial e notas; a independência entre ambas as traduções foi reconhecida pelos próprios tradutores da versão de 1986. 
5.       No livro Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917, de Slavoj Žižek, por engano da editora foi mencionado apenas o processo de tradução do espanhol dos textos de Lenin, quando deveria ter sido discriminado o que foi traduzido e o que foi revisado a partir da tradução portuguesa publicada pelas edições Avante!, de quem temos autorização expressa para uso dos textos. Os créditos serão corrigidos na próxima edição. 
 Ao assumir total responsabilidade pelas obras colocadas em dúvida e esclarecer nossa posição diante das acusações feitas, reafirmamos o compromisso da editora com seus leitores. Ao longo de sua trajetória de dezessete anos, a Boitempo construiu um catálogo forte e coerente composto de cerca de 350 títulos, os quais contemplam alguns dos intelectuais mais importantes do Brasil e do mundo. Constatamos problemas na tradução de três de nossos livros, mas seguimos confiantes de que esse incidente será superado com honestidade e clareza. 
Apesar dos esforços direcionados à auditoria interna, durante esse período não deixamos de fazer o que mais esperam de nós: lançamos livros, divulgamos textos exclusivos de nossos autores no blog, publicamos vídeos de eventos passados e organizamos novos, entre eles o III Curso Livre Marx-Engels – que atingiu o limite máximo de inscritos em poucos minutos, será gravado e posteriormente publicado em nosso canal no YouTube. Agradecemos as mensagens de apoio recebidas por parte de autores, leitores, colaboradores, colegas editores, além de vários intelectuais, do Brasil e do exterior, as quais reconhecem a seriedade de nosso trabalho e a confiança em nosso futuro.
fico contente que meus apontamentos tenham trazido consequências frutíferas para a editora e saúdo sua disposição em enfrentar os problemas com clareza e boa vontade.

23 comentários:

  1. Respostas
    1. sim, é importante poder confiar nas editoras.

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  2. Sergio Augusto13.8.12

    Um momento: a tradutora que fez os plágios existe mesmo? Ou a Boitempo fez o plágio e inventou uma tradutora inexistente? A nota se esquiva de fazer um esclarecimento tão essencial e tão simples. Cada um deve tirar suas conclusões. Lamentável.

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    1. é, de fato, sergio, acho que não ficou muito claro. mas, sinceramente, nem sei se vem muito ao caso - ou, pelo menos, a editora julgou que nem vinha ao caso e assumiu a responsabilidade, o que me parece correto.

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  3. Anônimo13.8.12

    curioso... a boitempo diz que "histórias de natal" está esgotado há dez anos... então faz, pelo menos, uns 11 anos que eles passaram a roubar traduções alheias? mais de 2/3 de existência aceitando esse tipo de prática? que coisa...
    podem divulgar a nota que for, continuo achando uma palhaçada...

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    1. prezado anônimo, "histórias de natal" foi publicado em 1995, entre os primeiros livros da editora. de qualquer forma, encontra-se disponível em bibliotecas públicas e privadas.

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  4. Creio que o importante, agora, é que a editora reconhece erros e se dispõe a corrigi-los. É uma atitude rara, temos de reconhecer. Espero que tudo termine bem.

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    1. sem dúvida, janaína, concordo. e de fato, acho que, nesses anos em que venho apontando possíveis irregularidades em traduções, foram apenas quatro ou cinco editoras com esse mesmo tipo de problema em catálogo que tiveram presteza e boa vontade em tomar providências.

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    2. Reconhece mas não reconhece, né? A editora diz que o erro aconteceu, mas ficou com sujeito indefinido. Não assumiu: é, desculpe, acabamos copiando a tradução. Ou ainda: pois é, contratamos uma tradutora que nos passou a perna. E olha, pelo bizarro copyright da Brasiliense no "Considerações sobre o marxismo ocidental", me inclino a acreditar na primeira alternativa.

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  5. É, uma nota com contornos, mas devemos levar em consideração que vieram a público, reconheceram o erro. Atitude correta. Meus agradecimentos a Denise Bottmann pelo faro. Um Sherlock Holmes da tradução no Brasil.

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    1. "Um Sherlock Holmes da tradução no Brasil."

      =] .

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  6. É, uma nota com contornos, mas vieram a público e reconheceram o erro. Atitude correta. Meus agradecimentos a Denise Bottmann pelo faro. Um verdadeiro Sherlock Holmes da tradução no Brasil.

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  7. Anônimo14.8.12

    Não vai divulgar as mensagens de apoio que a editora recebeu? Deveria, né?

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    1. Bruce Torres14.8.12

      Por que deveria? Curioso agora.

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  8. Anônimo14.8.12

    Interessante a persona off-Denise que você mesma assume vez ou outra, não é? Sei bem que tem por hábito se passar por "anônima" só para salientar um ponto de vista politicamente incorreto, que logo será rebatido, ou afagado, pelo modo on-Denise, nos ajustes da cordialidade. Mas o importante é lançar a merda no ventilador e, se possível, resguardar o nome, não é? Estamos de olho, mascarada.

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  9. A Boitempo vem realizando um trabalho essencial nos últimos anos e a reparação desses erros é fundamental para não macular essa história, entretanto, ressalte-se, sabemos que problemas de direitos autorais sempre ocorreram e vêm se intensificando, principalmente nos tempos atuais, com a cultura do mix/remix.

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  10. Devemos reconhecer o importante trabalho da Boitempo nas suas edições, na pluralidade e na coragem, e a correção desses erros se torna essencial para não macular a sua história.

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  11. Bruce Torres14.8.12

    Meu Deus, a turma transforma tudo em uma Guerra Fria! Até eu que tenho muito a agradecer a Marx e à cambada atrás do Muro nos estudos de Arte fico espantado em como eles fazem tudo girar em torno de uma disputa política. Que me perdoem os mais afoitos mas plágio não assume posição dialética, seja hegeliana ou marxista. A questão é saber apenas se foi erro ou má fé - e, infelizmente, foi notado má fé, embora não se saiba de quem é a culpa exatamente. O que a Boitempo deveria ter feito desde o início era um cotejo, caso fosse trabalho terceirizado, ou dado o devido crédito aos verdadeiros tradutores. No caso da primeira, ok, "'passou', como dizem os franceses". Que isso não se repita para não dar maiores dores de cabeça no futuro. No segundo caso, reconhecer a besteira que fez. Infelizmente não se sabe sobre quem a responsabilidade sobre isso cairá, o que, me desculpem os fãs da editora, me deixa com o pé atrás quando leio essa nota. Também devo muito às suas publicações mas agora sinto que precisarei ter o olhar mais apurado antes de comprar uma publicação da Boitempo - como no caso da Martin Claret, que, apesar de relançar seu catálogo com novas traduções ou com os nomes verdadeiros dos tradutores, ainda lança uma nova edição de "O Príncipe" com tradução de Pietro Nassetti.

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  12. Uma coisa não anula a outra, não é? A Editora Boitempo pode ser muito boa, mas fez um plágio. Ela errar não anula os seus acertos, mas o erro existe e não deve ser negligenciado.

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  13. Anônimo15.8.12

    relaxem, a vida é um plágio

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  14. Anônimo17.8.12

    daqui a alguns anos serão escritas as páginas da história que revelará detalhes sobre um dos maiores gênios do crime tradutório: isa tavares. durante 10, 12, quiça mais anos, ela enganou toda uma equipe de editores e revisores com audácia incomparável, imiscuindo-se no meio acadêmico e tradutório, chegando, inclusive, a insinuar ligações de parentesco com a própria editora vitimada. quem entre nós gritara o "eu acuso!" revelando o verdadeiro nome do traidor?

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  15. Anônimo17.8.12

    não me resta dúvida: isa tavares e otávio frias são a mesma pessoa... era tudo um plano do jornal de ultradireita para dominar e destruir desde o seio da própria editora o último bastião da vida acadêmica...

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