19 de ago de 2012

matéria do jornal opção sobre a editora boitempo

reproduzo abaixo a matéria publicada hoje pelo jornal opção de goiânia, disponível aqui.

Euler de França Belém
Editora Boitempo plagia e culpa a direita
No Brasil é assim: mesmo quando não tem culpa, a direita leva a fama. É o periquito da circunstância. A denúncia de que a Boitempo E­ditorial “plagiou” obras de outras editoras foi apresentada cuidadosamente, sem nenhum comentário político-ideológico, por uma das mais qualificadas tradutoras brasileiras, Denise Bottmann. A editora do indispensável blog Não Gosto de Plágio em nenhum momento fez análises políticas sobre a (falta de) qualidade ou sobre a ideologia dos livros publicados no Brasil pela casa gerida por Ivana Jinkings. Direita e esquerda não foram citadas. Depois, a “Folha de S. Paulo” fez uma re­portagem sobre o assunto, evidenciando os “plágios”, ou “coincidências”. O jornal paulistano também não fez qualquer restrição ideológica às publicações da Boitempo — muitas de elevado padrão intelectual e com traduções competentes.

Portanto, a direita não deve ser responsabilizada pela descoberta e repercussão dos plágios na internet e em jornais impressos. Mesmo assim, a Boitempo, para “esconder” o “plágio” — o que não é mais possível e, se o caso for para a Justiça, vai ficar pior para a editora e para a suposta “tradutora” Isa Tavares —, convocou intelectuais brasileiros e estrangeiros para defendê-la de um suposto e insidioso ataque em bloco da direita patropi (tão invisível quanto o Curupira). Os intelectuais, sobretudo os de outros países, como Slavoj Žižek, certamente nem sabem direito o que está acontecendo e, mais tarde, certamente admitirão, como fez Roberto Romano, há vários anos, o equívoco. Eles não têm como avaliar o mérito da discussão. Primeiro, porque não leem em português. Segundo, porque a Boi­tempo não lhes deve ter passado in­formações adequadas para um julgamento justo. Por exemplo: a editora não deve ter enviado o seguinte esclarecimento divulgado para a imprensa brasileira: “Constatamos coincidências significativas entre as traduções dos livros ‘Considerações sobre o Marxismo Ocidental/Nas Trilhas do Materialismo Histórico’, de Perry Anderson, ‘A Teoria da Alienação em Marx’, de István Mészáros, e de capítulos de ‘La­crimae Rerum: Ensaios Sobre Ci­nema Moderno’, de Slavoj Žižek, publicados pela Boitempo, e traduções de outras editoras”. Alguns dos defensores da Boitempo, como Mészaros e Žižek, possivelmente não sabem que são “vítimas” da editora. Certamente não sabem que a Boitempo está recolhendo os exemplares cujas traduções são apontadas como “plágios”.

Faça-se justiça: a Boitempo, excelente casa editorial, tem publicado livros importantes, como os de Mészáros e “O Romance His­tórico”, do filósofo György Lu­kács, com tradução precisa de Rubens Enderle. O livro de Lukács é um clássico importante. Pu­blicado há mais de 70 anos, e, mes­mo contendo as idiossincrasias às vezes mais políticas do que literárias do autor, permanece uma obra viva. Uma boa editora não precisa ser necessariamente eclética, aberta a ideologias diferentes. O fato de uma casa ser de esquerda não diminui seu valor.

Na década de 1980, o crítico José Guilherme Merquior denunciou, num artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, que a filósofa Marilena Chauí havia copiado um trecho de um livro do filósofo francês Claude Lefort. O plágio era evidente, mas Chauí, no lugar de admitir a crítica, partiu para o ataque, sugerindo que Merquior era um homem da ditadura, por ser diplomata — quando deveria tratá-lo como homem de Estado, como ela própria, uma funcionária pública da Universidade de São Paulo. Hábil, a filósofa conseguiu que Lefort, o prejudicado, inventasse uma “filiação de pensamento”, que, no Brasil, se tornou sinônimo de plágio. Depois, arregimentou intelectuais de “esquerda”, entre eles o filósofo Roberto Romano. Maria Sylvia de Carvalho Franco e Romano bombardearam Merquior, acusando-o de ideólogo da ditadura. Romano arrependeu-se, tempos depois, mas não sei se pediu desculpas ao próprio Merquior, que morreu cedo, aos 49 anos, quando era o mais importante intelectual liberal do país, em diálogo constante com a esquerda me­nos ortodoxa, como o filósofo Le­andro Konder.

Como a discussão virou coisa de criança, resta dizer a Ivana Jinkings que está certa: a direita é mesmo o “Ruivo Herring” (espero que seja a grafia correta) do Brasil. Com o apoio do Scooby-Doo. 

sobre o caso boitempo, veja-se aqui

Nenhum comentário:

Postar um comentário

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.