20 de ago de 2012

historinha edificante

- fulaninha, boa tarde, sou fulano de tal, da editora tal, e queremos lançar o livro tal, de fulano de tal. existe uma tradução no brasil dessa obra, feita por beltrano, e me disseram que você talvez pudesse nos ajudar a localizar o tradutor beltrano, para pedirmos autorização para publicar sua tradução.
- sr. fulano de tal, o tradutor beltrano morreu no ano tal, em circunstâncias tais e tais, e não conheço essa tradução que o senhor menciona. o que sei é que várias traduções assinadas pelo finado beltrano eram cópias de traduções anteriores, e até cheguei a comentar alguns casos, como o senhor pode ver em tal e tal lugar.
- fulaninha, que coisa!
- pois é, sr. fulano de tal, uma tristeza. o que eu posso sugerir ao senhor é que consulte a tradução portuguesa dessa mesma obra, que saiu no ano tal, pela editora tal, com tradução de sicrano.
- ah, sim, vou consultar, obrigado, até logo.
- às ordens, até logo.
passam-se alguns dias ou algumas semanas, volta o sr. fulano de tal.
- fulaninha, sou eu de novo. de fato, adquiri a edição portuguesa e comparei com a brasileira, e parecem bastante claras as semelhanças. não sei o que fazer, pois, em vista disso, a tradução em nome de beltrano realmente não nos interessa mais.
- que pena, sr. fulano, mas acho que o senhor faz bem em não enveredar por esse rumo. se o senhor quiser, posso ver se consigo localizar o legítimo tradutor, um militante português até bastante conhecido.
- ah sim, se puder fazer isso, agradeço muito. até logo.
- até logo. se eu tiver alguma notícia, aviso o senhor.
passam-se mais alguns dias.
- sr. fulano de tal, o sicrano autor da tradução portuguesa faleceu, mas consegui contato com o filho dele, que dá aulas na universidade tal. tomei a liberdade de adiantar a ele que uma editora brasileira poderia ter eventual interesse em publicar uma antiga tradução de seu pai, a tal e tal e tal, que saiu no ano tal pela editora tal. ele me autorizou a lhe passar seu e-mail, que aqui segue: xxxxxx@xxxxxx.xxx. aí os senhores tratam diretamente entre si.
- agradeço a gentileza, fulaninha.
- não tem de quê, sr. fulano, até logo.
- até logo.
não sei o que rolou; não sei se o consciencioso editor de uma pequena editora de posições marxistas muito claras e definidas entrou em acordo com o filho de um conhecido militante comunista português para publicar no brasil a tradução de um clássico do marxismo feita por seu pai; não sei sequer se a editora chegou a publicar a obra, em qualquer tradução que fosse.

mas o caso, ocorrido algum tempo atrás, é verídico e mostra como é possível o respeito pelo trabalho dos outros.

2 comentários:

  1. Alípio Yossef20.8.12

    Boa noite Denise. Você é fantástica. Parabéns. A tal da editora "marxista"-de-classe-média-endinheirada-moradora-de-bairro-nobre poderia aprender muito com esse episódio. Abraços cordiais.

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    1. olá, alipio, obrigada, mas parece-me normal. o "fantástico" são as bizarrices dos que acham muito difícil fazer, ou tentar fazer, as coisas certas.

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