1 de ago de 2012

a imprensa e os plágios de tradução: o caso da fsp

aqui gostaria de fazer um pequeno reparo à afirmação abaixo, que consta na nota divulgada pela boitempo editorial e reproduzida aqui, na medida em que envolve minha pessoa.
Hoje, dia 1º de agosto, o jornal Folha de S.Paulo publicou matéria dando destaque apenas a esse caso, que é um entre centenas envolvendo várias outras editoras – inclusive o próprio Grupo Folha –, divulgados ao longo de anos no blog da tradutora [i. é, eu, db]. Isso deixa ver a parcialidade e as motivações da matéria com relação à Boitempo, que – como o jornal aponta – "tem como eixo o pensamento de esquerda". 
da maneira como está formulado, fiquei com uma certa impressão de que a boitempo estaria sugerindo que o jornal folha de s.paulo teria pinçado ou escolhido a dedo neste blog apenas os casos relacionados com a editora que apontei recentemente (aqui), dando-me a sensação de que, de certa maneira, eu estaria desempenhando o papel um tanto desconfortável de, digamos, "inocente útil".


não tenho procuração para falar em nome da folha de s.paulo, não tenho o menor interesse em tomar partido em assuntos político-ideológicos postos nestes termos, e de mais a mais duvido muito que um órgão da grande imprensa precise de quem fale por ele. o que apresento aqui não é uma defesa do referido jornal, mas apenas algumas informações fatuais que talvez não tenham sido levadas suficientemente em conta pela editora. tenho certeza de que ela saberá apreciar meu gesto, até para poder contar com subsídios mais concretos na formulação de suas posições.


já comentei inúmeras vezes, em entrevistas, posts, matérias, artigos, que meu interesse pelo problema de fraudes em tradução teve dupla origem:
  • primeiro, no e-group litterati, isso em setembro de 2007, quando o tradutor danilo nogueira informou que outro tradutor, saulo von randow jr., havia constatado que a tradução do romance ivanhoé, de walter scott, feita por brenno silveira no final dos anos 50 para a livraria martins, fora despudoradamente copiada e publicada sob o nome de um fantasmagórico "roberto nunes whitaker" pela editora nova cultural, em 2002, em sua coleção "obras-primas".
  • segundo, numa matéria publicada pelo jornal folha de s.paulo em novembro de 2007, disponível aqui, apontando a fraude na tradução d'a república de platão, cometida pela editora martin claret e detectada pelo professor gonzalo armijos, da ufg, fraude esta que fora inicialmente denunciada pelo jornalista euler da frança belém, no jornal opção de goiânia. pouco depois, em dezembro de 2007, o jornal folha de s.paulo apontou outras fraudes, agora pela editora nova cultural, em matéria disponível aqui
foi a partir dessas duas matérias veiculadas pelo jornal folha de s.paulo que, no foro de discussão do e-group litterati inúmeros tradutores revoltados resolveram se manifestar num abaixo-assinado, redigido pelo tradutor adail sobral e hospedado num blog criado pelo tradutor fábio said, que se chamava assinado-tradutores.


mantenho neste blog uma seção de arquivos com uma relação de artigos e matérias na mídia impressa e digital referentes a problemas de plágios de tradução, atualizada até março de 2012. por ser extensa demais, a seção está dividida em três partes: arquivo I, arquivo II e arquivo III, com seus respectivos links disponíveis para consulta - embora alguns, infelizmente, tenham se desativado, continuam ali relacionados.


consultando tais arquivos, encontro matérias sobre fraudes de tradução publicadas pela folha de s.paulo desde 2004, ganhando mais ímpeto a partir de 2007/2008, precisamente porque desde o final de 2007 centenas e centenas de tradutores passaram a se mobilizar contra tais procedimentos, manifestando-se no assinado-tradutores e, depois, no não gosto de plágio.


talvez eu peque por ingenuidade, mas, sinceramente, jamais tive a impressão de que o jornal selecionasse os temas de suas matérias sobre fraudes de tradução por critérios ideológicos de direita ou esquerda, nem por critérios do grande ou do pequeno capital. pois, entre as muitas matérias publicadas pelo referido jornal, temos lá denúncias sobre tais práticas na potência econômica que é a nova cultural ou na pequena landmark; na martin claret, que uma época se filiava à linha política adotada por celso pitta, ou na germinal, de inspiração política que me parecia ser mais progressista. na verdade, a impressão que eu tenho - e repito, posso estar sendo ingênua, mas acredito de fato nisso - é que o jornal folha de s.paulo tem demonstrado constante atenção ao longo dos anos ao problema de fraudes de tradução - o que, devo dizer, parece-me muito bom, tanto para os tradutores em geral quanto, e principalmente, para todo o público leitor.

13 comentários:

  1. Pega mal essa mania de perseguição que acomete algumas das editoras denunciadas. A Martin Claret chegou a comentar uma sei lá qual intenção sua de destruí-la, não foi?! Desde mais novo leio na Folha a reverberação dessas denúncias e acho de mau gosto ressuscitar a velha querela direita-esquerda para justificar a pauta do jornal. Afinal, a novidade agora é que a própria denunciante foi a plagiada. Cômico, não fosse trágico. Natural virar matéria. Mas, claro, também posso estar sendo ingênuo...

    Denise, sua linda, um abração.

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    1. é, sugerir que a folha de s.paulo pegou apenas um caso entre centenas apresentados no blog achei realmente uma certa falta de informação.

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  2. Concordo com você, Denise. Um caso de prejuízo intelectual descambar para cabo-de-guerra, posições de direita e de esquerda, é prova de que as pessoas não querem ver os fatos objetivos e são guiadas por interesses ideológicos e posturas preconcebidas, como demonstraram também vários "anônimos" comentando seu post sobre a nota de esclarecimento da Boitempo. E esta se valer de um argumento do tipo direita vs. esquerda quando o que está em questão é a idoneidade de uma tradução, é o fim da picada. Também não tenho procuração da Folha, mas achei essa parte do "esclarecimento" descabida.
    Abração, Alfredo Monte.

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    1. pois é, alfredo, eu me senti colocada nessa nota como, sei lá, "massa de manobra manipulada pela fsp". meio degradante, não?

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  3. Concordo com você, Denise. Um caso de prejuízo intelectual descambar para cabo-de-guerra, posições de direita e de esquerda, é prova de que as pessoas não querem ver os fatos objetivos e são guiadas por interesses ideológicos e posturas preconcebidas, como demonstraram também vários "anônimos" comentando seu post sobre a nota de esclarecimento da Boitempo. E esta se valer de um argumento do tipo direita vs. esquerda quando o que está em questão é a idoneidade de uma tradução, é o fim da picada. Também não tenho procuração da Folha, mas achei essa parte do "esclarecimento" descabida.
    Abração, Alfredo Monte.

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  4. Anônimo2.8.12

    Aos que dizem ser descabida a acusação da Boitempo, um lembrete: as rusgas entre FSP e Boitempo são antigas e começaram com o caso abaixo:

    Justiça manda arquivar processo criminal contra César Benjamin - 17/11/2006

    E esse não foi o único, depois foram acusados de receber verba a maior para a Enciclpédia Latinoamericana e teve, ainda, o imbroglio Emir Sader (espécie de super-editor e conselheiro editorial da Boitempo) versus Minc etc. Enfim, briga antiga e recorrente.

    Antes de comentar, informem-se, por gentileza.

    Não sou da editora, sou até "concorrente" deles, achei lamentável o fato ocorrido, achei correta a postura da editora nas notas e entendo a cutucada na FSP, que, aliás, é uma bela de uma porcaria de jornal.

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    1. prezada anônima, agradeço sua manifestação, mas creio não ser este o tema do meu post.
      nele eu tento expor a sensação um tanto desconfortável em que me senti colocada, nos termos em que foi formulada a nota, e tento também fornecer mais subsídios fatuais sobre a divulgação dos plágios de tradução na imprensa, aqui, neste caso concreto, na folha de s.paulo.

      são estas as questões em pauta neste post, não as rusgas entre fsp e boitempo, citadas em seu comentário. espero que eu tenha conseguido me exprimir com clareza maior do que, aparentemente, consegui no post.

      atenciosamente
      denise bottmann

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  5. Anônimo2.8.12

    Denise,

    Dos 7 parágrafos da Nota II, 1 refere-se à Folha e coloca as coisas em termos que considero perfeitamente razoáveis: você mantém o blog há anos e bastou sair um post sobre a Boitempo pra Folha repercutir no mesmo dia.

    Por que será? Ora, o histórico que apresentei mostra, claramente, que a
    Boitempo e a Folha se estranham há anos...

    O que a editora diz nos 6 parágrafos restantes não me permite inferir que, por conta da cutucada na Folha, a Boitempo estaria tentando "desviar o foco", "ideologizar a questão" e outras bobagens que li nos comentários acima.

    Você se apegou a 1 parágrafo entre os 7 pra se sentir ofendida. Respeito a sua interpretação, but I beg to differ...

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    1. prezado anônimo, desculpe-me, mas entendo que sentir-se numa posição um tanto desconfortável é muito diferente de se sentir ofendida :-))
      e o segundo e principal intuito foi informar sobre a divulgação do trabalho, não só meu, mas de muita gente na defesa de nosso ofício.
      se não consegui passar isso no post, ma faute. espero ter me feito clara nesta terceira tentativa :-)

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  6. Bruce Torres2.8.12

    Complicado quando um problema acadêmico básico - plágio - acaba se tornando arma política. Nunca entendi que essa fosse sua postura, Denise - a saber, a de cutucar os setores de esquerda ou de direita. Infelizmente sou obrigado a concordar que a FSP viu nisso uma boa forma de atacar a Boitempo pelo seu posicionamento de esquerda. (Virtual ou real, esse não é o ponto). Contudo, não é por conta de dois grupos formados por um bando de saudosistas-da-guerra-fria que você deve parar, Denise. Seu trabalho neste blog - e como tradutora - é um serviço de utilidade pública (e intelectual). Boa sorte na resolução dessa trama hitchcockiana. :D

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  7. Alessandra8.8.12

    Prezados (falo a todos aqui, não somente a Denise),
    Acho de extrema ingenuidade não perceber a virulência que o jornal Folha de São Paulo tem usado historicamente em suas matérias em relação à esquerda brasileira. Isto ocorre desde em casos anteriores envolvendo a própria Boitempo - que foram desacreditados, aliás, como já colocado acima-, até em questões bastante sérias, como nomear o período ditatorial brasileiro de "ditabranda" em editorial.
    Quanto ao tema específico do post, se há problemas de tradução em alguns títulos, que sejam apurados. E a editora Boitempo os está apurando, segundo a nota divulgada.
    Contudo, torna-se fundamental refletir sobre o uso destas acusações para desqualificar o trabalho sério e o catálogo excepcional da Boitempo - que é, sim, voltado ao pensamento crítico e de esquerda - e de como o crescimento pleno de premiações de uma editora com este perfil deve incomodar parcela relevante da elite conservadora paulistana.

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  8. Anônimo12.8.12

    certamente, ingenuidade.

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