16 de jul de 2012

o "orfanato das letras"

uma vez eu conversava com um rapaz muito simpático, advogado do departamento jurídico da ediouro, sobre umas dúvidas que eu tinha sobre a titularidade dos direitos de algumas obras publicadas pela editora. foram devidamente esclarecidas, e aí a conversa passou para o drama das obras ditas órfãs, abandonadas ou negligenciadas.

meu ponto é, e sempre foi, que se utilizasse amplamente o que faculta a lei, a saber: que essas obras recebam efetivamente o estatuto de "órfãs" e ingressem em nosso patrimônio de domínio público, para acesso social livre. isso significaria não só o resgate de uma gigantesca produção bibliográfica que vem se perdendo irremediavelmente e em ritmo acelerado, como também a possibilidade de criação de bibliotecas digitais riquíssimas, de livre circulação.

já o advogado da ediouro argumentava que, pelo contrário, a guarda dos direitos patrimoniais dessas obras é que permitia a efetiva proteção delas. achei o argumento um tanto self-serving, como dizem, trocamos mais alguns pontos de vista, apresentamos mais algumas mútuas divergências e nos despedimos afavelmente.

essa conversa se deu alguns meses atrás, não recordo a data exata. ela me tem voltado à lembrança nas últimas semanas, diante de alguns casos que ando analisando, e sou obrigada a reconhecer que, em certo sentido, o rapaz tinha razão. se de um lado obra órfã vive em meio ao completo descaso social, por outro lado ela parece exalar algum tipo de feromônio editorial irresistível, que atrai iniciativas bucaneiras desenfreadas. estivessem ativas em algum catálogo, sem dúvida muitos saqueadores dessas obras abandonadas se sentiriam coibidos.

hoje até pensei em criar um "orfanato das letras", na melhor forma da lei, blindado contra os surtos persecutórios das abdrs da vida, um vasto repositório de acesso público composto exclusivamente de milhares dessas obras que, quando não estão largadas às traças, estão virando papa requentada em caldeirões editoriais embruxados de oportunismo.

imagem: aqui

Um comentário:

  1. "Orfanato das letras" é ótimo... Quando fez a malograda tentativa de digitalizar o mundo, o Google propôs que as obras órfãs fossem digitalizadas e os direitos recolhidos a um fundo que os pagaria aos autores, quando aparecessem, ou, no final de "x" anos, se destinariam a programas de acervo para bibliotecas e de incentivo à leitura.
    A ideia foi pro espaço, mas não deixa de ser interessante. O pior é sempre o que fazem os verdadeiros bucaneiros do mundo editorial, que se apossam desavergonhadamente das obras alheias. E só não fazem mais disso por conta da sua vigilância.

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.