22 de jul de 2012

thomas hardy no brasil


este é para alfredo monte, crítico literário de fino discernimento cujo blog nunca canso de recomendar: monte de leituras, aqui.

ao fazer este levantamento, cheguei à conclusão de que thomas hardy (1840-1928), a depender dos editores brasileiros, é um autor de trincas: três romances, três contos e três poemas.

I. os inícios
até onde consegui levantar, o primeiro hardy chega a nós em 1944, em duas frentes:
  • na ocidente, a pequena e efêmera editora que adonias filho criara naquele mesmo ano (publicando autores como lúcio cardoso, murilo mendes, jorge de lima). de hardy, a ocidente lançou o romance a bem-amada (the well-beloved: a sketch of a temperament, 1897), em tradução de xavier placer. essa tradução ficou bastante esquecida e só voltou a ser reeditada em 2006, pela itatiaia. 
imagem de capa por gentileza de raquel sallaberry brião

  • naquela maravilhosa coleção da editora leitura, que teve só três volumes, os russosos ingleses e os norte-americanos. hardy apareceu na coletânea dos ingleses, claro, com o conto "os três desconhecidos" ("the three strangers", 1883), em tradução de afonso arinos de melo franco. essa coletânea passou para a ediouro, recebendo inicialmente o título de o livro de ouro dos contos ingleses e, hoje em dia, contos ingleses: os clássicos, disponível para visualização aqui.

diga-se de passagem que, em 1957, a cultrix vem a publicar "os três desconhecidos" em sua antologia de maravilhas do conto inglês. já comentei inúmeras vezes que os contos publicados na coleção das maravilhas da cultrix eram, em grande parte, respigados aqui e ali, entre obras publicadas em outras editoras, sem licença de uso nem créditos de tradução. não cheguei a conferir este caso, mas não me surpreenderia muito se a tradução do conto de hardy usada pela cultrix fosse a de afonso arinos, de 1944.

II. prosseguindo com os romances

judas
a seguir, vem a obra de hardy mais divulgada entre nós. trata-se de judas, o obscuro (jude the obscure, 1895), que sai em 1948 na "coleção stendhal" da editora a noite - que, aliás, contava com adonias filho na direção editorial. a tradução foi feita por octavio de faria e, passados 64 anos, continua a ser a única até hoje entre nós. 

a tradução de octavio de faria teve um percurso movimentado, passando por várias editoras: d'a noite ela foi para a itatiaia em 1958, onde teve várias reedições até 2009; em 1971 fez uma escala na abril cultural, sendo licenciada para a coleção "os imortais da literatura universal" como seu vigésimo-sétimo volume; em 1972 serviu de base para uma adaptação infantojuvenil para a "coleção elefante" da ediouro, com reedição em 1987; em 1994 apareceu também na geração editorial, então associada à ediouro.

por incrível que pareça, não encontrei imagem de capa da edição de 1948. segue uma foto bastante amadora de meu exemplar pessoal: 



as demais imagens são: aqui a página de rosto

 

na itatiaia desde 1958, com várias reedições até 2009

 uma capinha menos desarrazoada (1969)

abril, 1971
a adaptação infantojuvenil na ediouro,
com o subtítulo de (um pobre ser humano)



sai também em 1994 na "coleção redescoberta", da geração editorial, que então fazia parte do grupo ediouro.




tess
depois de assumir em seu catálogo judas, o obscuro, a itatiaia prossegue com thomas hardy. em 1961 publica tess of the d'urbervilles (1891) em tradução de neil r. da silva, adotando o curioso título de a indigna. o lançamento não ganha grande destaque, e será preciso esperar vinte anos para uma reedição, em 1981. certamente impulsionada pelo filme tess (1979), de polanski, com natassja kinski no papel-título, a indigna de neil r. da silva passa a se chamar simplesmente tess, com uma capa que dispensa comentários. a terceira edição sai em 1984.



resumindo, foi na itatiaia que acabou se concentrando a publicação dos três romances de thomas hardy que temos traduzidos no brasil. a cronologia dessas traduções é 1944, 1948 e 1961.

outra bem-amada
apenas a bem-amada, depois de quase sessenta anos, ganha nova tradução, a qual sai em 2003 pela códex (posterior cónex). com o subtítulo de esboço de um temperamento, foi feita por luís bueno e patrícia cardoso, também responsáveis pela introdução e notas:

 

III. retomando os contos

o hussardo
depois de "os três desconhecidos" de 1944, teremos "o hussardo melancólico da legião alemã" ("the melancholy hussar of the german legion", originalmente publicado em life's little ironies, 1894, e transferido em 1912 para wessex tales). a tradução foi feita por aurélio buarque de hollanda e paulo rónai, e publicada no volume VI de mar de histórias - antologia do conto mundial, em sua edição revista e ampliada que sai pela nova fronteira em 1982.




essa tradução é reeditada na coletânea contos ingleses, pela ediouro.





bárbara
em 2005, temos "bárbara, da casa de grebe" ("barbara of the house of grebe", 1890), em tradução de alexandre hubner, na antologia contos de horror do século XIX, pela companhia das letras:

 

carolina geaquinto paganine, em sua tese de doutorado chamada "três contos de thomas hardy: tradução comentada de cadeias de significantes, hipotipose e dialeto" (ufsc, 2011), apresenta sua proposta de tradução de "the withered arm", "barbara of the house of grebe" e "an imaginative woman", com os respectivos títulos de "o braço mirrado", "bárbara da casa de grebe" e "uma mulher imaginativa". disponível aqui.

IV. os poemas



temos "a voz" ("the voice", 1912), em tradução de josé lino grünewald,em grandes poetas da língua inglesa do século XIX, que saiu em 1988 pela nova fronteira.



luís bueno e patrícia cardoso incluíram a tradução do poema "the well-beloved" em sua tradução do romance de mesmo nome, citado acima, publicado em 2003.



em 2005, leonardo fróes publicou sua tradução "um homem privado sobre homens públicos" ("a private man on public men") em chinês com sono - seguido de clones do inglês, pela rocco.




aliás, quebrando o feitiço dos trios, informa carolina paganine, no estudo acima citado, que ângela melim traduziu "depois" ("afterwards") como epígrafe de possibilidades, livro de sua autoria que saiu pela ibis libris em 2006.


6 comentários:

  1. Obrigadíssimo Denise, pela referência e pelo mapeamento supimpa. Pena que o território a mapear seja tão exíguo. Sou apaixonado por Hardy desde que li "Judas, o Obscuro" e assisti a um belo e selvagem filme de John Schlesinger, LONGE DESTE INSENSATO MUNDO.
    Quando você vai nos dar um Hardy seu?
    Abração.

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  2. Oi Denise. Há ainda um 5º poema de Thomas Hardy, Acaso, publicado no Brasil, em tradução de Décio Pignatari.

    Consta no volume Poesia pois é Poesia (Ateliê editorial e editora da UNICAMP, 2004), e aparece como uma tradução da década de 80 e não inédita, mas não há a referência de onde foi anteriormente publicada.

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    1. opa, muito obrigada! então rompe-se o fetiche ternário - menos mau :-)

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  3. Abgar Renault traduziu também At the Piano de Hardy em seu livro: Tradução e Versão.

    Os poemas então formam duas trincas, 3 em antologias e 3 como epígrafes... kkk ;)

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  4. Anônimo7.7.14

    Olá, Denise.
    Estou à procura de uma tradução de "Tess of the D'Urbervilles" e encontrei duas edições usadas: aquela com a Natassja Kinski na capa, e a outra com o título "A Indigna". Ambas são do mesmo tradutor? Se não, sabes me dizer qual delas possui a melhor tradução?
    Obrigada!
    Carolina.

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  5. olá, carolina, sim, são da mesma tradutora, neil r. da silva, vide acima.

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