30 de jul de 2012

sobre remakes

sem especificar as razões de meu pedido, eu tinha solicitado a alguns colegas tradutores a gentileza de traduzir um trechinho que enviava em anexo. agradeço-lhes a disposição e a boa vontade. segue-se o resultado.


In any large American bookstore, it is possible to purchase some volumes of the unique series Shakespeare Made Easy, edited by John Durband and published by Barron's: a "bilingual" edition of Shakespeare's plays, with the original archaic English on the left page and the translation into common contemporary English on the right page. The obscene satisfaction provided by reading these volumes resides in how what purports to be a mere translation into contemporary English turns out to be much more: as a rule, Durband tries to formulate directly, in everyday locution, (what he considers to be) the thought expressed in Shakespeare's metaphoric idiom - say, "To be or not to be, that is the question" becomes something like: "What's bothering me now is: Shall I kill myself or not?" And my idea is, of course, that the standard remakes of Hitchcock's films are precisely something like Hitchcock Made Easy: although the narrative is the same, the "substance," the flair that accounts for Hitchcock's uniqueness evaporates. Here, however, one should avoid the jargon-laden talk on Hitchcock's unique touch, etc., and approach the difficult task of specifying what gives Hitchcock's films their unique flair. ("Is There a Proper Way to Remake a Hitchcock Film?")
Em qualquer grande livraria norte-americana, é possível comprar alguns volumes da incomparável série Shakespeare Made Easy [Shakespeare Simplificado], editada por John Durband, e publicada pela editora Barron's. Trata-se de uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o texto original em inglês arcaico, na página esquerda, e a tradução em inglês contemporâneo e comum, na página direita. A satisfação obscena oferecida pela leitura destes livros está no fato de que aquilo que aparenta ser uma simples tradução para o inglês contemporâneo resulta em muito mais: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em linguagem cotidiana, (o que supõe ser) o pensamento expresso nas metáforas de Shakespeare – por exemplo, "Ser ou não ser: eis a questão" se torna algo como: "O que está me incomodando agora é: me mato ou não?". Sem dúvida, a minha ideia é que os remakes habituais dos filmes de Hitchcock são justamente uma espécie de Hitchcock Simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pelo caráter único de Hitchcock, evapora. No entanto, devemos evitar aquelas palestras cheias de jargões sobre o toque único de Hitchcock, etc., e partir para a difícil tarefa de determinar o que dá a seus filmes seu estilo único. ("Existe um modo certo de refilmar Hitchcock?")

Em qualquer das grandes livrarias americanas pode-se comprar exemplares da série especial Shakespeare Facilitado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução em inglês corrente contemporâneo, na direita. A satisfação obscena que se tem ao ler esses livros advém de como o que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo acaba sendo muito mais do que isso: de modo geral, Durband procura formular diretamente, no modo de falar comum, (o que considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare ─ digamos, “Ser ou não ser, eis a questão” se torna algo como: “o que me aflige agora é: devo me matar ou não?” E a noção que tenho é, evidentemente, que os remakes comuns dos filmes de Hitchcock são exatamente algo como Hitchcock Facilitado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o jeito que confere a Hitckcock sua singularidade some. Aqui, no entanto, devemos evitar o discurso cheio de jargão sobre o toque indistinguível de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos filmes de Hitchcok a sua alma própria. ("Existe uma maneira certa de refazer um filme de Hitcocock?") 
Em qualquer grande livraria americana, é possível comprar alguns volumes da série original   Shakespeare Made Easy [Shakespeare Mastigado, numa versão livre, ainda sem tradução em português], editado por John Durband e publicado pela editora Barron: uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o original em inglês arcaico na página esquerda e a tradução em inglês contemporâneo laico na direita. A abjeta satisfação fornecida pela leitura desses volumes reside no fato de que uma pretensa e mera tradução para o inglês contemporâneo acaba por se tornar em algo muito maior : via de regra, Durband tenta exprimir, através de linguagem coloquial, (o que ele considera ser) o pensamento de Shakespeare expresso em linguagem metafórica - por exemplo : "Ser ou não ser, eis a questão" torna-se algo como:  "O que me perturba no momento é: devo me matar ou não?" E minha conclusão lógica é que os remakes dos filmes de Hitchcock são, precisamente, algo como Hitchcock Made Easy: embora a narrativa seja a mesma, a "substância", o estilo que representa a singularidade de Hitchcock se evapora. Não obstante, deve-se evitar, nesse momento, o clichê já gasto sobre o toque único de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos de filmes de Hitchcock a sua singularidade. ("Há uma forma correta de se fazer um remake dos filmes de Hitchcock?")
Em qualquer grande livraria norte-americana é possível comprar alguns volumes da peculiar série Shakespeare simplificado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original à esquerda e a tradução para o inglês contemporâneo comum na página à direita. A obscena satisfação proporcionada pela leitura desses volumes reside na maneira como aquilo que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo se revela como muito mais que isso: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em locuções corriqueiras, (aquilo que ele considera ser) o pensamento expresso na linguagem metafórica de Shakespeare – por exemplo, “Ser ou não ser, eis a questão” se transforma em algo como “O que me preocupa agora: devo matar-me ou não?” E minha opinião é a de que, evidentemente, as refilmagens de Hitchcock são justamente algo como um Hitchcock simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pela singularidade de Hitchcock se evapora. Aqui, no entanto, deve-se evitar o jargão do discurso sobre o toque singular de Hitchcock etc., e abordar a difícil tarefa de especificar aquilo que confere aos filmes de Hitchcock seu estilo único. ("Há uma maneira apropriada de refilmar uma obra de Hitchcock?")
trata-se do parágrafo inicial do artigo de slavoj zizek, "is there a proper way to remake a hitchcock film?", disponível aqui e incluído no volume lacrimae rerum, publicado tanto pela portuguesa orfeu negro (2008) quanto pela brasileira boitempo (2009). creio que este mostruário acima é mais do que suficiente para indicar como parece remota a probabilidade de que os dois textos abaixo sejam de dois tradutores diferentes:


lacrimae
luís leitão (orfeu negro, 2008)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamente, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchcock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)



isa tavares (boitempo, 2009)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra, Durband tenta formular diretamente, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchcock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)


sobre isa tavares na boitempo editorial, ver também you kiddin', rite?, aqui.

20 comentários:

  1. jesus, maria, josé e toda a sagrada família!

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  2. Será que invocar "Zaratustra" e seus martelos, ajudaria a quebrar o vidro que esconde Isa Tavares?

    A Boitempo deve se pronunciar sobre isso, será que cedeu as "facilidades" econômicas editoriais?

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  3. Desculpe, Denise, o que vou lhe perguntar não tem relação com o post. É que comprei recentemente vários livros da coleção Saraiva de Bolso, mas esqueci de fazer uma importante consulta ao seu blog (que já virou utilidade pública para mim!). Não que eu esteja suspeitando da coleção, mas gostaria de saber se as traduções da Saraiva de Bolso são legítimas...

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  4. olá, elaine, em princípio são, sim. houve um problema que divulguei aqui: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/07/de-revisor-tradutor.html ; a editora me escreveu dizendo que foi "um equívoco" da parte deles, ficou de apurar e entrar novamente em contato. não entrou; escrevi novamente, não tive resposta. no caso do homero, foram muito corretos e tiraram de circulação: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2011/09/nao-pode-e-ponto-saraiva-e-nova.html

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  5. Alguém da boitempo já se pronunciou? O que será que eles estão esperando?

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    1. olá, pronunciaram-se sim, agora à noite. divulguei aqui: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/07/nota-da-boitempo-editorial.html

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  6. Pelo visto, é mesmo prática corrente da editora. Um beijo pra você e força na luta, Denise.

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    1. espero que não, renata, espero que não. beijo, e obrigada.

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  7. Eduardo Sterzi30.7.12

    Olá, Denise,

    que absurdo tudo isso! A editora já tentou dar alguma explicação? É de se prever que, por trás de todas as traduções da tal "Isa Tavares" (existe? é pseudônimo?), há a mesma prática.

    Abraço,
    Eduardo

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    1. olá, eduardo: explicação ainda não deram (e nem creio que seja o caso - bastaria retirar as obras de circulação, publicar errata, oferecer substituição aos leitores lesados, algo assim, como fizeram algumas editoras, como a nova cultural). mas agora à noite lançaram uma nota dizendo que vão averiguar. divulguei aqui: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/07/nota-da-boitempo-editorial.html

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  8. Anônimo30.7.12

    Confronta da Isa Tavares, tb pela Boitempo, a obra do Mészáros "A teoria da alienação em Marx". Teve uma tradução anterior pela Zahar: "Marx: teoria da alienação".

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  9. Obrigada pela informação! Assim fico mais tranquila.

    Quanto ao caso em questão, é triste ver como o discurso da Boitempo fica tão longe do que a editora realmente é. Também aguardo um pronunciamento...

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    1. elaine, imagine, não tem de quê. quanto à editora, ela soltou uma nota dizendo que vai ver o que pode ter acontecido: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/07/nota-da-boitempo-editorial.html

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  10. Isa Schuman Tavares30.7.12

    A Boitempo divulga em seu blog uma nota, dizendo que "está averiguando" sua denúncia, Denise. De acordo com a nota, a venda dos livros sob suspeita foi interrompida. O texto pode ser lido em: http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/07/30/nota-de-esclarecimento/

    Pergunto-me: o que será que a editora "está averiguando"? A partir do momento em que assina a tradução a mãe da dona da Boitempo (a dona se chama, no completo, Ivana Maria Tavares Jinkings; a mãe, Maria Isa Tavares Jinkings), o que é confirmado por alguém dentro da editora, como você "averiguou", Denise, para onde aponta o faro acusatório da Boitempo? Será que algum funcionário, num momento engraçadinho, decidiu colocar, sistematicamente, o nome da mãe da empregadora nos créditos de tradução; será que sra. Maria Isa Tavares Jinkings, ao que consta na internet, senhora a ser respeitada, tem como ofício a trapaça; ou será que a dona da editora sabia do que estava acontecendo e, pior, ordenou e executou o crime?

    Na nota de esclarecimento, fala-se ainda em compensação dos "profissionais envolvidos". Não cabe à Boitempo decidir a compensação. Faça-se desse caso um exemplo: plágio, de editora de esquerda ou de direita, é crime; faça-se um exemplo na lei e na mídia.

    E tudo isso na mais linda retórica da esquerda... Como já foi dito em algum lugar, por um sábio, nos comentários, faça-me o favor, Boitempo Editorial

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    1. isa, sim, em "Não cabe à Boitempo decidir a compensação" você tem toda a razão. será assunto a ser tratado na devida esfera.

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  11. Thiago Dias30.7.12

    Caraca, você é fera mesmo!! Sou fã da Boitempo e, embora seja seu fã também, relutei um pouco em aceitar o que você disse. Mas, antecipando o movimento passional dos fãs da Boitempo, você preparou este post e matou a pau as dúvidas. O deslocamento do adjunto adverbial - opção mais "personalizada", tanto que é única na amostra - do primeiríssimo período entrega já de saída que se trata de apenas uma pessoa. Uma pena que a Boitempo tenha se prestado a isso! Parabéns, Denise!!!

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    1. thiago, obrigada, mas, sendo sincera, espero que não se crie nenhuma torcida nem nada do gênero - afinal, estamos todos no mesmo barco e queremos todos (imagino eu) a mesma coisa: boas obras de bons autores em boas e legítimas traduções para bons leitores :-)

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  12. Anônimo31.7.12

    O plágio praticado pela progenitora da dondoca marxista não me causou nenhuma espécie. Essa gente mantém seu alto padrão de vida de classe média paulistana, branca, católica e hipócrita, vendendo livros "de esquerda" a preços para lá de exorbitantes a estudantes pobres como eu. Eu economizo o dinheiro do pão para comprar livros dessa editora, eu ajudo a manter o alto padrão de vida da dondoca marxista e seus filhotes bem nutridos (o filhote dela fez cinema na FAAP! na FAAP! quanto custa a mensalidade deste curso na FAAP?) Eu exijo excelentes traduções! Imagina as traduções da coleção marx e engels então. Devem ser averiguadas também. Obrigado.

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  13. Anônimo31.7.12

    Nunca vi tanta informação errada na minha vida... Isa Tavares sendo confundida com a Maria Tavares Jinkinks, funcionário da Boitempo sendo confundido com filho da Editora...

    As informações precipatadas (e completamente DETURPADAS) só mostram a falta de seriedade deste Blog, bem como dos comentários acima...

    Isso se chama sensacionalismo.

    Curiosamente, a autora do Blog, símbolo da denúncia de plágio no Brasil, nunca denunciou nem criticou as Editoras para as quais trabalha: Cosac, Companhia das Letras..

    Isso é o pior tipo de gente: que vende o seu trabalho (sujo e inverdadeiro) para grandes editoras que lideram o mercado para tentar eliminar formigas como a Boitempo que deve ter uma dúzia de funcionários, e que tenho certeza que pela seriedade do trabalho apresentado ao longo dos anos, jamais agiu de má-fé.

    Denise, você é uma vergonha.

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  14. Acabo de lembrar de meus tempos de movimento estudantil. Se o sujeito acima te xinga, é porque alguma coia de bom você está fazendo, Denise. Moral é uma coisa sutil, você sabe.

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