em 1968, a civilização brasileira relançou a tradução de mary amazonas (que, aliás, foi uma das minhas primeiras chefes editoriais, lá na perspectiva, em 1971 ou 1972):
essa tradução teve algumas reedições e foi licenciada também para o círculo do livro (1981, 1982 e 1984):
quando eu li que a boitempo lançou, "com nova tradução, o depoimento mais importante sobre este momento decisivo da história latino-americana", achei interessante e aí vi que luiz bernardo pericás é "um dos tradutores desta versão, juntamente com mary amazonas barros" (aqui).

confesso que, de início, o informativo me deixou confusa: afinal, o que significava? que a mary refez sua tradução cinquenta anos depois, agora a quatro mãos? que pericás fez uma tradução nova e juntou com a antiga da mary? mas como? e aí nem seria nova: seria, sei lá, mezzo a mezzo? ou que pericás tomou como base o texto da mary, cotejou, copidescou, corrigiu alguma coisa? mas aí muito menos seria uma "nova tradução": seria um licenciamento de uma tradução antiga, e pericás nem poderia aparecer como seu autor; seria no máximo algo como "tradução de fulano, revista [ou atualizada] por beltrano".
o que também me confundiu um pouco foi que, na chamada principal do site da boitempo, os créditos de tradução vinham apenas em nome de luiz bernardo pericás. o nome de mary amazonas de barros aparecia no texto de apresentação e na ficha técnica ao final.*
uma pesquisa nos cadastros do isbn não me esclareceu muito:**
| PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN |
| RESULTADO |
| Palavra Pesquisada: | México insurgente |
| ISBN: | 978-85-7559-154-3 |
| TÍTULO: | México insurgente |
| AUTOR: | John Reed |
| AUTOR: | Luíz Bernardo Pericás |
| EDIÇÃO: | 1 |
| ANO DE EDIÇÃO: | 2010 |
| LOCAL DE EDIÇÃO: | SÃO PAULO |
| TIPO DE SUPORTE: | PAPEL |
| PÁGINAS: | 380 |
| EDITORA: | BOITEMPO EDITORIAL |
de qualquer forma, o blog da editora reiterava: "Desta vez, ganha nova edição e tradução o primeiro livro do jornalista John Reed: México Insurgente. Publicado pela primeira vez em português em 1959, sob título de México Rebelde [...]" (aqui); e sérgio augusto saudou no estadão: "A editora Boitempo [lançou] há dias uma nova e caprichada tradução de México Insurgente" (aqui).
bom, ao fim e ao cabo, concluí com meus botões que não seria uma "tradução requentada" (como se usa dizer), e que uma editora como a boitempo não teria por que "dar um trato" numa tradução antiga e apresentá-la como se nova fosse, com duplos créditos numa espécie de anacrônica parceria.
conto tudo isso porque acho extremamente instrutivo quando um tradutor refaz um trabalho anterior seu: boris schnaiderman, por exemplo, ou josé roberto o'shea, que refundiu e refez seu dublinenses de vinte anos atrás - a gente tem ocasião de acompanhar o amadurecimento trazido pela experiência e vale por uma bela aula. assim, no caso desta nova tradução, vai ser muito legal comparar os dois textos da mary com meio século de distância entre eles - e com o detalhe adicional de ser agora a quatro mãos!
atualização em 04/07: de fato, é muito legal a história. mary amazonas explica que tinha feito a tradução nos anos 1950 a partir do espanhol. a boitempo entrou em contato com ela em 2010, explicando que queriam fazer a tradução a partir do inglês, mas utilizando como guia o texto e soluções da mary. ela concordou, acompanhou o trabalho, o tradutor lhe apresentou o texto final, mary fez mais algumas correções e assim foi publicada a tradução de ambos. é justamente o resgate de uma tradução antiga, quase esquecida, cuja autora contribuiu ativamente para sua renovação. até onde sei, é um caso inédito e um belo exemplo de preservação de nossa memória tradutória.
* os créditos na chamada principal já foram corrigidos pela boitempo.
** informa a editora que já foi solicitada a devida correção dos dados junto à agência nacional do isbn.
veja também a posição da editora aqui.
um caso semelhante é o que vai acontecer com a nova tradução de Paradiso, né, pela Josely Vianna Baptista?
ResponderExcluirestou aguardando curioso.
isso, que otimíssima lembrança, nilton!
ResponderExcluirSe a Mary ( como o texto dá a entender) está viva, e atuante, não seria o caso de ela mesma esclarecer a questão?
ResponderExcluirolá, henrique, é que, pelos dados, acabei achando que a mary refez mesmo sua tradução. tentei mostrar como nossos registros, tanto em sites quanto nas instituições, são meio confusos. mas achei interessante também que, entre o leque de tradutores que refazem traduções, acho que é o primeiro caso de reelaboração a quatro mãos. mas alguma hora vou procurá-la, sim, pelo menos para falar dos velhos tempos (se é que ela vai lembrar da jovenzinha revisora de quarenta anos atrás :-) )
ResponderExcluirA Boitempo é uma editora bastante séria, até onde sei. Se as devidas explicações foram dadas penso que se deva confiar. Abraços uspianos, Marcos Silva
ResponderExcluirfico feliz, marcos! também tenho a mesma impressão.
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