4 de jul de 2012

refazendo traduções II

com autorização de bibiana leme, editora-adjunta da boitempo editorial, reproduzo abaixo seu email sobre a nova tradução de insurgent mexico, de john reed:
Cara Denise,

Em primeiro lugar, muito prazer. Sou leitora do seu blog e admiro sua batalha pela qualidade das traduções no Brasil e pelo respeito aos tradutores. Aqui na Boitempo a gente prima pelas boas traduções, tomamos o maior cuidado para trabalhar com profissionais gabaritados e temos o maior respeito pelo trabalho de cada um dos nossos colaboradores.

Hoje, porém, levamos todos um susto aqui ao ler o post sobre traduções “requentadas”. Explico como funcionou a tradução do México insurgente: quando pensamos em fazer nossa edição (por sugestão do Luiz Bernardo Pericás, que é especialista no assunto), fomos atrás em primeiro lugar da tradução da Mary Amazonas. Mas descobrimos que a tradução dela tinha por base a edição em espanhol, e em nossas traduções sempre tomamos por base o idioma original (que nesse caso era o inglês). Sendo assim, consultamos o Pericás sobre a possibilidade de ele fazer uma nova tradução, o que ele aceitou, mas não sem enfatizar que, apesar de ter por base no espanhol, a tradução da Mary era benfeita e merecia continuar “na ativa”. Concordamos e fomos atrás da Mary para perguntar se ela toparia que fosse feito um trabalho de retradução, mas mantendo como base a tradução dela. E ela topou, ficou inclusive emocionada, porque disse que essa tinha sido sua primeira tradução: “Foi bom rever esse livro, que foi o meu primeiro trabalho e que eu tinha perdido de vista. A primeira tradução a gente não esquece, como o soutien. Fica um laço afetivo. Na época, eu tinha vinte e três anos, veja só!  Estava entrando no curso de Letras na USP da Maria Antônia, pois, depois de cursar 2 anos de Filosofia, achei que meu interesse era por Literatura e Línguas. Então fiz vestibular e troquei de curso. Agradeço terem me procurado para essa tarefa, que foi um prazer.”.

Então, primeiro o Pericás retraduziu com base em dois textos, o dela e a edição original, em inglês. Pode parecer estranho dizer que ele retraduziu com base na tradução já existente, e você tem razão ao questionar se isso não seria uma “revisão da tradução”. Mas não achamos que seja o caso, pois de fato o Pericás mergulhou a fundo numa tradução, porém mantendo o respeito por determinadas escolhas da Mary. Quando você for ler a nossa edição, tenho certeza de que vai entender o que estou falando. Espero. Pode ser também que a gente não concorde e você continue achando que foi uma revisão da tradução, mas pra gente vai continuar sendo uma tradução a quatro mãos. Questões de interpretação... Voltando à dinâmica do trabalho, depois de terminada a parte do Pericás, a Mary recebeu todos os arquivos e fez as alterações e sugestões dela. Foi algo bem coparticipativo, portanto, e ao final o Pericás fez uma introdução, que a Mary também leu e aprovou. A relação com os dois tradutores foi ótima e guardo recordações excelentes desse trabalho.

Porém, você tem toda a razão ao dizer que no nosso site e na Biblioteca Nacional a informação está confusa. No nosso site já arrumamos, tinha sido erro/esquecimento mesmo. E para a Biblioteca Nacional já solicitamos hoje mesmo a alteração do cadastro. Enfim, erros acontecem e agradecemos muito a você pelo toque. Mas reforço mais uma vez que em todo o processo de edição desse livro ficou claro para todos os envolvidos que a tradução era a quatro mãos.
[...]

Obrigada mais uma vez pelas suas observações, que sempre são construtivas, e parabéns pelo trabalho.

Estou à disposição para continuarmos essa troca de ideias.

Um abraço.
http://img856.imageshack.us/img856/9830/logo16a.jpgBibiana Leme
Editora-adjunta




agradeço à boitempo pela presteza e boa vontade em comentar minhas observações, expostas aqui.

em tempo, quanto a "Pode ser também que a gente não concorde e você continue achando que foi uma revisão da tradução, mas pra gente vai continuar sendo uma tradução a quatro mãos. Questões de interpretação... ", não creio que haja aí qualquer ambiguidade. 


de um lado, gostaria de lembrar que a legislação referente à tradução como obra autoral é bastante clara e nega explicitamente o caráter autoral de revisões e atualizações efetuadas numa tradução pré-existente. 


de outro lado, o decisivo aqui, a meu ver, é a manifestação da autora inicial da tradução, mary amazonas leite de barros, que me declarou ter autorizado, mediante solicitação da editora, a utilização de seu texto como base para a retradução de luiz bernardo pericás e ter procedido a mais algumas alterações para o texto final. este é o elemento central: o direito do autor de dispor de sua própria obra. [atualizado em 10/07/2012]

Um comentário:

  1. Elvira Serapicos4.7.12

    Muito bacana todo esse processo. Relançamento de um clássico com respeito e profissionalismo.

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