30 de jul de 2012

lágrimas, lágrimas


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lacrimaeLacrimae Rerum – ensaios sobre Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski e Lynch
Slavoj Žižek

Título original Lacrimae Rerum
Tradução Luís Leitão
Ano de edição 2008
N.º pp. 276
Formato 12,3 x 18 cm
EAN 9789899556522


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Lacrimae Rerum
ensaios sobre cinema moderno
Slavoj Žižek
Trad.: Isa Tavares e Ricardo Gozzi
182 páginas
ISBN: 978-85-7559-134-5
[2009]


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a diferença de quantidade de páginas entre as duas edições provavelmente se explica pelas respectivas dimensões dos dois volumes: 12,3 x 18 na orfeu negro, com 32 linhas/página, para 16 x 23 na boitempo, com 40 linhas/página. há também algumas diferenças de conteúdo: o ensaio sobre kieslowski publicado pela orfeu negro apresenta três extensas seções a mais do que o publicado pela boitempo, ao passo que esta última traz o texto "hollywood hoje: notícias de um front ideológico" à guisa de prefácio e o ensaio "matrix ou os dois lados da perversão", ausentes da edição da orfeu negro.


não sei o que dizer sobre o cotradutor ricardo gozzi. já sobre isa tavares sei dizer que consta como pretensa autora de uma tradução minha (veja aqui). como a editora boitempo não especifica na página de créditos quais textos couberam a cada um deles, tomarei como hipótese que ricardo gozzi tenha sido o legítimo responsável pela tradução dos dois textos ausentes da edição da orfeu negro, e que isa tavares - a julgar pelo precedente dado - seja o nome usado em edições com procedimentos semelhantes aos adotados contra minha tradução, no caso supracitado.

seguem-se alguns trechos dos vários ensaios, a título comparativo. aqui utilizo a edição da boitempo de 2011.*
* não destacarei em vermelho abrasileiramentos simples como "direto" para "directo", "objeto" para "objecto", "gênero" para "género" e similares.

luís leitão (orfeu negro)
De que modo, exactamente, o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade desta relação: não devíamos correlacionar cada episódio com um único Mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de Mandamentos... Contra esta escapatória fácil, devemos sublinhar a correlação estreita entre os episódios e os Mandamentos: cada história refere-se apenas a um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo Mandamento, e assim por diante, até, finalmente, ao Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro Mandamento. Este desfasamento é indicativo do deslocamento a que os Mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza na sua Fenomenologia do Espírito: selecciona um Mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando assim visível a sua "verdade" e as suas consequências inesperadas que lhe minam as premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p.  50-1)

isa tavares (boitempo)
De que modo exatamente o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade dessa relação: não deveríamos relacionar cada episódio com um único mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de  mandamentos... Contra essa escapatória fácil, devemos sublinhar a relação estreita entre os episódios e os  mandamentos: cada história diz respeito a apenas um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo  mandamento e assim por diante, até finalmente o Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro  mandamento. Essa defasagem é indicativdo deslocamento a que os mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza em sua Fenomenologia do Espírito: seleciona um  mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando visível assim sua "verdade" e suas consequências inesperadas, que minam suas premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p. 17-8)

luís leitão (orfeu negro)
Em primeiro lugar, ao nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
     - a explicação natural simples: três raparigas e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
     - a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas raparigas e que depois salvam uma delas;
     - a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das raparigas conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
     - a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou estes intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com os seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta rapariga, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
     - a explicação do sequestro por alienígenas: as raparigas penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 195)

isa tavares (boitempo)
Em primeiro lugar, no nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
  • a explicação natural simples: três moças e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
  • a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violentadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas moças e que depois salvam uma delas;
  • a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das moças conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
  • a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou os intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com [] seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta moça, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
  • a explicação do sequestro por alienígenas: as moças penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 102-3)

luís leitão (orfeu negro)
Para além destas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e em ordem, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do Rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semi-reprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com esta severidade "vitoriana" proverbial, com os seus desejos recalcados, o Rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis e cobras, associados ao pecado original, a rastejar em volta das raparigas adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do Rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo... expulsa num estado altamente viscoso", mais uma descrição do despertar lento das hormonas nas recalcadas raparigas púberes do que de um fenómeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, o Rochedo representa obviamente a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 196)

isa tavares (boitempo)
Para além dessas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e organizada, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semirreprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com essa severidade "vitoriana" proverbial, com seus desejos recalcados, o rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis[], associados ao pecado original, rastejando em volta das moças adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo [...] expulsa num estado altamente viscoso": mais uma descrição do despertar lento dos hormônios nas recalcadas garotas púberes do que de um fenômeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, é óbvio que rochedo representa [] a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 103-4)


em sobre remakes, aqui, fiz uma apresentação bastante didática sobre as inelimináveis e irredutíveis singularidades individuais de um trabalho de tradução, utilizando o excerto abaixo.

luís leitão (orfeu negro)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamete, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchocock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)


isa tavares (boitempo)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra [], Durband tenta formular diretamete, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchocock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)

4 comentários:

  1. Armando Assis30.7.12

    Fiquei agora com a pulga atrás da orelha. O foco está em Isa Tavares, aparentemente a mãe da dona da Boitempo, mas, revelada a desfaçatez, fico agora curioso em saber quem é Daniela Jinkings, que carrega o sobrenome da dona da Boitempo, Ivana Jinkings, e se há plágio nas traduções que ela assinou, seguindo o negócio familiar. Descobri seu nome fazendo uma busca no blog por Boitempo, onde aprendi que Daniela Jinkings assinou a tradução de "Os deuses têm sede", de Anatole France, que era considerada pela Boitempo uma tradução inédita, mas, como você revelou, era consagrada. Só uma pulga, aqui na minha orelha... Será que a Boitempo sistematizou o plágio? Será que a Boitempo fez do plágio um caso de família ou, diriam os mafioso, famiglia?

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  2. pois é, armando, a tristeza de casos assim é a insegurança que gera na gente em relação a outros títulos. no caso de "os deuses têm sede", comparei as duas traduções: são totalmente independentes.

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    1. Armando Assis30.7.12

      Obrigado por responder! Foi-se a pulga; agora, coragem contra as hienas...

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  3. Anônimo31.7.12

    Nesse caso, quem fez a tradução para a Boitempo foi o Ctrl C + Ctrl V!

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