2 de jun de 2012

tradução e "perspectiva histórica"

em entrevista ao jornal o estado de são paulo, publicada na semana passada e que comentei aqui, sérgio machado tinha alardeado como demonstração de grande tino comercial e capacidade de se reinventar empresarialmente o fato de seu pai ter usado falsamente o nome de nelson rodrigues como tradutor de harold robbins (e outros) como isca para atrair compradores, e que este teria sido "o momento talvez fundamental" da história do grupo record.

ontem a coluna babel do mesmo jornal retomou o tema. transcrevo abaixo o texto, que se encontra aqui.
TRADUÇÃO
Polêmica declarada
Em sua última edição, o Sabático publicou uma longa entrevista com o publisher Sergio Machado, do Grupo Editorial Record. Nela, ele se referiu a um histórico episódio: a publicação de Os Insaciáveis, de Harold Robbins, em agosto de 1964. Na capa, o nome de Nelson Rodrigues constava como tradutor da obra. Mas Nelson não sabia inglês. Dois fatores levaram editora e “tradutor” a tomarem essa decisão: a Record queria chamar a atenção para o livro e Nelson precisava de dinheiro. A declaração causou polêmica entre os tradutores. Sonia Rodrigues, filha do escritor, e Sergio Machado comentam o caso:
“No livro Nelson Rodrigues por Ele Mesmo, meu pai se confessa um narcisista muito relapso na administração da própria fama. Em outra passagem, informa que suas crônicas são as mais saqueadas do País, que vários jornais publicam e poucos pagam. Ele conta também quanto se matava de trabalhar para bancar as várias manutenções dele. Talvez essas traduções estivessem nesse contexto. Aparentemente, a Record pagou ao meu pai para usar a imagem dele para referendar o texto de um autor norte-americano. Ninguém sabe se pagou apenas o direito de imagem ou se meu pai leu o texto traduzido e mexeu no texto, não é mesmo? Não tenho informações se os livros continuam sendo publicados e se os direitos de tradução estão sendo remunerados.”
“Estamos falando de uma outra época, do mercado editorial de 50 anos atrás, quando as regras e os procedimentos eram diferentes. É importante manter a perspectiva histórica. Evidentemente, este tipo de prática seria impensável nos dias de hoje.”
que sonia rodrigues simplesmente tenta desconversar alegando a mais ampla e vaga ignorância dos fatos, é evidente e suas declarações nem merecem maiores comentários.

agora, a segunda declaração, que suponho ser a de sergio machado, me parece um pouco falaciosa. concordo que "é importante manter a perspectiva histórica" e, exatamente por isso, cabe ressalvar que:
  • as regras autorais nos anos 1960 e 1970 não eram, em sua essência, diferentes das de hoje; os principais termos da convenção de berna, da qual o brasil era signatário desde o século XIX, continuam basicamente inalterados nos últimos cento e vinte anos. 
  • os procedimentos editoriais honestos, lídimos e transparentes já existem no brasil pelo menos há uns cento e setenta anos, estando firmemente implantados desde as primeiras décadas do século XX. até creio que, em boa medida, eram eles os predominantes no "mercado editorial de 50 atrás" a que se refere o publisher
  • e, por fim, a prática de falseamento das autorias de tradução, infelizmente, não só continua a ser louvada em termos retrospectivos (como demonstrou a cristalina entrevista do dono do maior grupo editorial do país), mas também a ser exercida sob diversas formas em algumas editoras, como o não gosto de plágio tem demonstrado constantemente nos últimos cinco anos.

acompanhe o caso em:

2 comentários:

  1. Silvio Roberto2.6.12

    Nem precisa publicar esse coment, é só pra dizer que adoro teu trabalho. Continue.

    Abraço.

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  2. de acordo como o jornalista Gonçalo Junior em A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-1964 (2004), Nelson Rodrigues dirigiu as revistas em quadrinhos O Globo Juvenil (do jornal O Globo) e O Guri (dos Diários Associados, junto com a revista de contos Detective), como não sabia inglês, ele "traduzia" os quadrinhos, ou seja, inventava diálogos.

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