13 de jun de 2012

a h. garnier e seu "k. d'avellar"

I.
a garnier, em suas várias encarnações, teve uma história e tanto no brasil.* mas aqui nos interessa basicamente o período em que se chamou h. garnier (1895-1911), sob o comando francês de hyppolite garnier, em especial a década inicial do século XX. a antiga garnier, sob o comando de baptiste-louis garnier, irmão deste outro que o sucedeu, o hyppolite, tinha fama de contratar traduções de vez em quando (e não apenas se limitar à importação das edições portuguesas) e até de remunerar bem seus tradutores. isso lá pelos meados do século XIX.

mas depois, e por inúmeras razões - a comoção social e a crise econômica nos primeiros anos da república, o novo decreto regendo os direitos autorais (1898), o perfil mais conservador da nova gestão na editora, o declínio mais acentuado da empresa que já se iniciara ainda no final do império -, parece se firmar uma prática na h. garnier: a falsificação de traduções.


II.
já apontei o caso de edgar allan poe: o primeiro livro de contos que aparece entre nós, justamente pela h. garnier, em 1903, traz estampado na página de rosto: "traducção brasileira", sem especificar nomes. em verdade, a tal "traducção brasileira" não passava de simples reprodução das traduções portuguesas de mécia mouzinho de albuquerque e christina amélia assis de carvalho (1889-1891).










o curioso é que, a partir de certo momento, um tal "k. d'avellar" parece se tornar o tradutor de plantão para as obras de tradução publicadas pela h. garnier. em algumas edições, dá-se como "traducção portugueza", donde se suporia que fora licenciada de alguma edição portuguesa anterior, traduzida por k. d'avellar.

é o que consta, por exemplo, na página de rosto de os desposados, de walter scott:



ou nas catalogações da gulbenkian em the art library:


AVENTURAS DO SR. PICKWICK / CHARLES DICKENS ; VERSÃO PORTUGUEZA DE K. D'AVELLAR
AUTHOR(S): 
Dickens, Charles, 1812-1870
Avelar, K. de
PUBLICATION: 
Rio de Janeiro ; Paris : H. Garnier, [s.d.]
PHYS.DESCRIP.: 
[4], 572 p. ; 20 cm
SERIES: 
(Autores celebres da literatura extrangeira)
NOTES: 
. - Obra incompleta. Trata-se do segundo volume
PROVENANCE: 
Colecção Bordalo Botto
UDC: 
821.111-31"18"
CALL NUMBER(S): 
BB 30022

e do boletim bibliográfico da biblioteca nacional:

Página 248

e na digitalização do google books:



e ainda segundo levantamento de sandra guardini vasconcelos, aquiA Prisão d'Edimburgo , por Walter Scott. Versão portuguesa de K. d'Avellar. Rio de Janeiro, H. Garnier [2 v., 1906].

no entanto, não há traços de k. d'avellar nas editoras de portugal, e mesmo nas bibliotecas lusitanas o único d'avellar que se encontra é o próprio das "traducções portuguezas" da garnier franco-brasileira. por isso tanto mais interessante é o levantamento de guardini vasconcelos, que citei acima, porque ele traz o registro das traduções portuguesas legítimas anteriores, com seus respectivos créditos, e que estavam disponíveis no catálogo da antiga livraria garnier! se alguém se interessar em rastrear essas  obras em nome de k. d'avellar, tenho certeza de que encontrará em seu artigo, se não o caminho das pedras, ao menos indicações realmente preciosas.

III.
outra forma de apresentação dos créditos de tradução era mais simples, mera "traducção de":





catalogada na biblioteca nacional de portugal como A musa do departamento / Honoré de Balzac ; trad. K. d'Avellar. Rio de Janeiro Paris : H. Garnier, 1910.

bem como, na mesma bnp:
Atala; Renato; Derradeiro Abencerrage / François Auguste de Chateaubriand ; trad. K. d'Avellar. Rio de Janeiro Paris : Garnier, 1906.
e
Historia de Manon Lescaut e do cavalleiro Des Grieux / Abbé Prévost ; trad. K. d'Avellar. Rio de Janeiro Paris : Garnier, 1906.

para concluir, mais algumas traduções do mesmo naipe d'avellariano:





e
Anna de Geierstein ou A donzela do nevoeiro / W. Scott ; trad. de K. d'Avellar 2 v.

IV.
cabe ainda registrar algumas outras edições posteriores, lançadas pela agora renomeada livraria garnier, com breves referências na rede, a saber:

1. com tradução de "R. Avellar", s/d:

História Dos Treze - Honoré De Balzac - Garnier

2. no acervo de nossa biblioteca nacional:

Autor:Balzac, Honoré de, 1799-1850.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Um conchêgo de solteirão;
Imprenta:Rio de Janeiro, Livr. Garnier. 
Descrição física:385 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Avellar, K.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/B198ra7



creio que valeria a pena dar uma conferida nessa tradução, comparando-a com a de beldemónio (pseudônimo do lusitano eduardo de barros lobo), de 1887.

3. BALZAC, Honoré de. Illusões perdidasTradK. D'Avellar. Rio de Janeiro/ Paris: Livr. Garnier.  



creio que valeria a pena dar uma conferida nessa tradução, comparando-a com a feita também por beldemónio, de 1888-9.

cabe notar que as illusões perdidas da livraria garnier já tinham saído pela h. garnier, com o mesmo fantasmático d'avellar, sem data (calculo por volta de 1908):


Autor:Balzac, Honoré de, 1799-1850.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Ilusões perdidas.
Imprenta:Rio de Janeiro, H. Garnier. 
Descrição física:2 v.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Avellar, K. d'.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 

V.
já fazia alguns dias que eu andava vendo essas coisas, e ontem, por mero acaso, luis henrique pellanda comentava no twitter (@lhpellanda) o engraçadíssimo poema da rã nas aventuras do sr. pickwick. era a edição da globo, traduzida por octavio mendes cajado, mas que, para os poemetos, utilizou a tradução em nome de k. d'avellar (dando os devidos créditos em nota de rodapé). foi muito fácil localizar a tradução legítima: era a de henrique lopes de mendonça, de 1897, disponível numa péssima digitalização aqui.

como são as coisas! a globo (ou octavio mendes cajado), na maior boa fé, em sua admirável tradução de 1951 - aliás, a única tradução integral brasileira que existe, com uma boa quantidade de reedições também pela abril cultural, e felizmente em circulação até hoje -, caiu como patinho no conto do vigário da h. garnier e seu k. d'avellar! são uns pérfidos mesmo, esses ishpertos!



* para quem se interessar por um perfil da garnier no brasil, desde 1844 até seu fechamento como editora em 1934 e a extinção final da livraria, passando pela briguiet, pela difel e pela itatiaia, em 1973, vale a pena dar uma olhada em o livro no brasil (sua história), o sempre excelente estudo de laurence hallewell.

4 comentários:

  1. Quem sabe uma CPI da tradução seria bem vinda. Ia ter muito magnata caindo do cavalo e tendo que mostrar que COPIOU sim, na cara dura para ganhar dinheiro. Editor perdendo emprego e editora fechando. Bom, seria interessante que algumas fechassem as portas pois cooperariam para a manutenção do patrimônio cultural do país.

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  2. haha, isso mesmo, everton: "cooperariam para a manutenção do patrimônio cultural do país", concordo!

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  3. Querida Denise - little help from my friend: Qual é o trabalho (ou link) da Sandra Guardini Vasconcelos que você cita aqui? beijos quase qualificados

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  4. http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/Sandra/sandralev.htm - está linkado no "aqui" ;-)

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