1 de jun de 2012

até tu, brutus?

este é um dos casos mais lamentáveis e surpreendentes que parece se incluir* na seara das traduções espúrias. fiquei perplexa e decepcionada por envolver um tradutor que eu costumava respeitar bastante, josé paulo paes.

o problema veio à tona por ocasião de um extenso estudo do pesquisador e tradutor guilherme braga sobre as várias traduções brasileiras de the gold-bug, de edgar allan poe. no decorrer da análise, as evidências materiais disponíveis levaram guilherme braga a acreditar que o escaravelho de ouro supostamente traduzido por josé paulo paes e publicado na coletânea histórias extraordinárias pela editora cultrix em 1958 seria simples cópia da tradução de almiro rolmes barbosa e edgard cavalheiro, publicada em 1942 na coletânea as obras-primas do conto universal, sexto volume da coleção "a marcha do espírito", pela livraria martins editora.



almiro rolmes barbosa e edgard cavalheiro aparecem como os responsáveis pela compilação, introdução, tradução e notas da coletânea de 1942 (martins). segundo o que os organizadores expõem em sua introdução, alguns dos contos foram traduzidos por terceiros, sendo especificados com os devidos créditos na introdução e no final de cada conto, além de agradecimentos pela licença de uso. são eles: "a lição de canto", de katherine mansfield, trad. érico veríssimo; "a luz da outra casa", de pirandello, trad. francisco pati; "duas mil palavras", de o. henry, trad. brito broca; "as três palavras divinas", de tolstói, trad. lígia autran rodrigues; e "o espectro", de dickens, trad. élsie lessa. assim, infere-se dos créditos e das explicações dadas na introdução que a tradução dos demais contos coube a rolmes barbosa e cavalheiro.


josé paulo paes aparece como o responsável pela seleção, apresentação e tradução dos contos que compõem a coletânea de 1958 (cultrix), com sucessivas reedições e licenciamentos até a data de hoje. não consta nas páginas desta coletânea nenhuma indicação de que tenham sido utilizadas traduções de terceiros, de onde se depreende, naturalmente, que josé paulo paes estaria chamando a si a autoria da tradução do volume completo.

seguem abaixo algumas imagens para fins de comparação entre a tradução em nome de rolmes/ cavalheiro (1942), em cima, e a tradução em nome de paes (1958), embaixo.

















































* especificação acrescentada em 02/06.

24 comentários:

  1. Como estamos lidando com suposições, estando todos falecidos sem poder se defender, por que não seria o contrário, tendo JPP retomado o direito ao que pode ter traduzido aos 16 anos?

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  2. boa questão, maria lucia - já que o pesquisador se baseou em provas materiais objetivamente dadas, sem poder contar com o recurso de consultar essas figuras de nosso passado histórico, creio que as perguntas que se seguiriam a esta outra hipótese seriam: neste caso, qual teria sido a fonte de onde almiro rolmes e edgard cavalheiro teriam extraído essa tradução de josé paulo paes hipoteticamente anterior e por que, ao contrário das outras traduções de terceiros por eles utilizadas, não lhe teriam dado os devidos créditos?

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  3. Poderia ser por se tratar de um jovem de 16 anos e não parecesse conveniente, quem sabe, para a editora. Não sei onde viviam todos. Também não imagino JPP plagiando ninguém. E, sem provas conclusivas, qualquer pessoa tehm direito a um voto de confiança. Ainda mais falecido, sem poder se defender. Por que o plágio é de quem vem depois? Não é comumm pessoas mais experientes tirarem proveito de novatos? Não é bonito, tanto quanto um plágio, mas acontece. Por isso, penso que não fosse conveniente uma tradução assinada por um jovem. Que redimiu a história lançando o texto com o seu próprio nome.

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  4. Anônimo1.6.12

    Até tu, quem?

    Denise,
    Infere-se rigorosamente dos créditos e das explicações da primeira das coletâneas a autoria das traduções nela constantes, mas depreende-se mesmo da ausência deles na segunda que JPP tenha chamando a si a autoria da tradução do Escaravelho? Não mereceria exame a hipótese de uma eventual omissão da editora quanto à autoria da tradução deste conto (ou de outros) em particular? Nós sabemos, poucos se importavam então e se importam hoje com autoria de tradução, menos até do que antes de intervenções resgatadoras como a sua e a do Guilherme, sessenta anos depois.

    Eu aceito perder mais esta, pois afinal é amiúde do que se tata, e reconhecer, caso seja, a maldição da conspurcação na figura até aqui insigne do José Paulo, mas haja vista o valor em causa, mais que indício, eu quereria preservar a esperança e buscar provas, meter o dedo na chaga...

    Grato, forte abraço,
    Renato

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  5. Concordo com a Maria Lucia. O ideal seria examinar traços estilísticos encontrados nas traduções, como se faz com um quadro antigo que se queira identificar o autor, etc. Tradutores, como pintores, deixam suas marcas.

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    1. Anônimo1.6.12

      Será que JPP já traduzia aos 16 anos?

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    2. É raro, mas possível. Conheço mais de um que começou cedo assim e tornou-se muito reconhecido depois.

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  6. traços estilísticos? sejamos mais objetivos numa pretensa análise. a feita parece sensata. se ali tá escrito monet, vou lá ficar à cata de traços de picasso? se o menino de 16 não pôde assinar a tradução (vai, nem a mãe do JPP seria tão esperançosa na hipótese), ainda persiste o problema de autoria, não? brutus, no caso, passa à editora. brutalidade persevera. beijos.

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    1. Eu quis dizer que o ideal seria comparar os traços estilísticos encontrados nas traduções comprovadamente feitas e assinadas pelo JPP e estas sobre as quais hoje pairam dúvidas de que sejam dele. Linguística forense.

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  7. Impressionada fiquei com todos os comentários em cima, como exemplo de que nada é fato (adoro este), e nada pode se dizer que é verdade absoluta em "preto e branco". Me fascinou este caso tanto como o da Editora Record e Nelson Rodrigues.

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  8. Só mais uma observação: no ano em que saiu o Escaravelho como tradução de JPP, em 1958, pela Cultrix, tanto Edgard Cavalheiro quanto Almiro Rolmes estavam vivos. Então, mesmo que a tradução seja deles, e não do JPP, deve ter havido um tipo de acordo entre eles, não acham? Uma permissão para uso, ainda que apenas verbal.

    Claro que essa minha suposição não invalida a da Maria Lucia, de que a tradução poderia ser do JPP, que então a recuperou para si, em boa hora. Como ainda estamos no campo das suposições, acho cedo para acusar quem quer que seja.

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  9. telma, edgard cavalheiro era o diretor editorial da cultrix desde o início da editora (em 1956) até sua morte em 1958, ou seja, pouco antes ou logo depois do lançamento desta coletânea. que a cultrix foi por um bom tempo useira e vezeira em acochambros editoriais é algo que venho apontando em inúmeros posts aqui no blog.

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  10. Cara Denise,
    *
    de mais a mais, não há neste post nenhuma acusação a quem quer seja. se alguém é capaz de sequer remotamente entender uma apresentação objetiva de dados de fato como uma peça de acusação, o que posso dizer? só lamentar...
    *
    como não tem acusação? Vamos começar pelo título do post.
    Com relação às críticas que você enumerou, considero o seu trabalho interessante e valioso, ou não estaria aqui, e, se você o expõe, está em busca de críticas favoráveis ou não.
    Também considero que é preciso um pouco mais de tato ao tratar de assunto tão delicado. Você expôs um achado do Guilherme, não acham que deveriam ir mais fundo ou, como disse o Renato, "pôr o dedo na chaga"? JPP, pelo trabalho da sua vida, merece isso e muito mais respeito.

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  11. Existe aqui um problema,
    Todos queremos acreditar que não houve omissão ou erro de José Paulo Paes, mas daí a puxar novelos de histórias fantasiosas (JPP traduziu aos 16 e foi sacaneado etc). e querer colocar essas hipóteses acima do que já há de concreto, é uma argumentação um tanto esquisita. Suposições podemos supor muitas, mas porque não fundá-las em algo presente nas evidências? Por exemplo, eu imagino que possa ter havido um acordo entre o então Publisher Edgard Cavalheiro, no sentido de apressar a feitura da coletânea.

    A vontade de inocentar JPP não pode ser maior do que a de encontrar a verdade.

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    1. Por que "sacaneado"? Não li isso nem escrevi. Particularmente, escrevi que, por ter 16 anos haveria vários motivos para a editora ou algo assim não querer que JPP assinasse.
      Repito, é para ser justo, pesquisar e não acusar simplesmente.

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    2. Desculpe maria lucia, quis resumir a sua teoria em uma frase curta e realmente não foi essa a palavra que usou, na verdade o que você disse foi "Não é comumm pessoas mais experientes tirarem proveito de novatos?", o que é um tanto diferente, mas ainda sim, mera suposição.

      Não estou aqui - e aí acredite que nem Denise com seu texto esteja - condenando a memória de José Paulo Paes, mas o fato é que existe um indício de uma fraude em uma edição supostamente traduzida por ele, e ele teve quase 40 anos entre a publicação do livro e sua morte, para reparar qualquer mal-entendido.

      Por mais que tenhamos (e eu com certeza tenho) enorme carinho pela sua obra como tradutor, poeta e homem das letras, o fato é que ainda não encontramos nada que o exima de responsabilidades nesse caso.

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    3. Antes de hoje, ninguém havia tido essa suspeita, ele explicaria exatamente o quê?

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  12. O porque existe uma tradução atribuída a ele, e que já havia sido anteriormente atribuída a outra pessoa. Não haver a suspeita não quer dizer que não existia o fato, o fato existe desde 1958. Ou você acredita que se ninguém estiver lá para ouvir o barulho da queda da árvore, significa que não houve barulho nenhum?

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  13. josé paulo paes (que desde 1952 vinha fazendo trabalhos avulsos para a pensamento, segundo adilson silva ramachandra em sua história dos cem anos da pensamento) e diaulas riedel desenvolveram a concepção de um novo projeto editorial como selo da editora-mãe, "edições cultrix". em 1956 é que nasce a editora cultrix, tendo na direção editorial edgard cavalheiro, sendo "josé paulo paes um dos que mais contribuem para o sucesso editorial do novo empreendimento de diaulas", idem. esse episódio do escaravelho de ouro foi, provavelmente, apenas circunstancial, dentro de um projeto inovador e deve ter passado até meio despercebido ou negligenciado. o fato é que a mesmíssima tradução desse conto é apresentada com diferentes autorias; em vista dos dados estampados nas edições, uma de 1942, outra de 1958, sendo a de 1958 posterior à de 1942 (evidente) e idêntica (igualmente evidente), o que se infere é que uma é cópia da outra. os fatos são estes; as interpretações podem variar. a minha eu já dei, e julgo-a suficientemente lastreada nos fatos. de outras interpretações, espera-se naturalmente que não ignorem os fatos: se tiverem novos fatos a apresentar, ótimo, que se os apresentem; se não tiverem, que se fundamentem racionalmente sobre os fatos dados.

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  14. Anônimo4.8.12

    Uns anos depois do JPP publicar a tradução dos poemas de Hoelderlin, eu o entrevistei e fiquei chocada quando, entre gargalhadas, ele "confessou" que não falava alemão nem "para pedir um cafezinho no aeroporto de Berlim"... Fiquei chocada quando ouvi isso e insisti na questão. Ele disse que traduzia com dicionários, que o que importava era o ritmo e tal. Bom, as traduções estão aí e basta fazer um cotejo para perceber que não têm nada a ver com o original. Mas na folha lá de copyright vinha o nome da obra em alemão, etc.
    Depois disso, passei a desacreditar um pouco do trabalho dele como tradutor...
    Ah, sim, tenho cópias das anotações e da gravação - a gente era obrigado a gravar as entrevistas...
    Não acho que seja tão grave quanto um plágio, mas continuo achando, depois de tantos anos, que é um certo mau caratismo...

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    1. prezada anônima: a frase de josé paulo paes de que era surdo e mudo nas línguas de que traduzia é famosa - e acho bastante boa, sincera e honesta. não vejo nenhum mau caratismo nela. é fato que inúmeros tradutores não falam nem entendem com fluência a língua da qual traduzem, assim como falantes da língua estrangeira não têm necessariamente qualquer fluência na leitura e na escrita (como dizia um amigo falante de alemão, ele era analfabeto na língua). essa distinção performance / competence, como dizem, não interfere obrigatoriamente na qualidade das traduções (outro exemplo famoso são os irmãos campos).

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  15. Só hoje me dei conta de que tem uma tradução de Poe do Paes publicada em 2008 pela Cia. das Letras. Ele usou a mesma tradução do escaravelho ou foi feita uma tradução nova?

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    1. ana, até onde sei, a obra está em licenciamento até hoje (faz parte do espólio de j.p.paes, sob a guarda da viúva).

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  16. Sérgio17.4.15

    Olá,

    Sou pesquisador da obra de JPP e posso dizer que ele e Cavalheiro eram amigos pessoais muito próximos, a ponto de, em sua autobiografia, o poeta afirmar que a morte de Edgar foi como a morte de um familiar. Não acredito em outra coisa que não um acordo entre os dois.

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