5 de mai de 2012

tradução ≠ edição

pettit moby dick editions shelf closeup

acho que seria importante que, não digo os leitores em geral, mas pelo menos estudiosos e pesquisadores, quando se debruçassem sobre alguma tradução, levassem em conta seu histórico. explico-me: uma tradução feita e publicada em, por exemplo, 1935, pode continuar bela e formosa em inúmeras reedições por muitas e muitas décadas (ou mesmo sumir e reaparecer depois de muitas décadas). se a edição consultada, estudada ou pesquisada é de, digamos, 1980, não significa que a tradução deixou de ser de 1935 e passou a ser de 1980.  ou melhor, talvez seja o caso de falar não em tradução ≠ edição, e sim em primeira edição ≠ edição atualmente em circulação ou quejandos.

comento isso a propósito de uma esforçada e bem simpática dissertação de mestrado sobre o conto the chimes, de charles dickens, disponível aqui. a proposta do estudo é analisar três traduções do conto, sob o ângulo da sonoridade do texto, o qual de certa forma mimetiza em algumas passagens o som dos carrilhões, e das soluções adotadas para transpor esses elementos para a tradução. eis a explicação dos critérios adotados para a escolha das traduções:
Para este trabalho, foram escolhidos dois textos brasileiros, um de José Paulo Paes, Os Carrilhões (1993) pela Ediouro, e o outro de Elsie Lessa, A Voz dos Sinos (2004), pela editora Itatiaia. Os Sinos de Ano Novo aparece como a terceira tradução, porém de origem portuguesa, feita por Lucília Filipe, pela editora Europa-américa (2001). Embora com títulos distintos, trata-se da tradução da mesma obra literária.   
Num primeiro momento, havia o desejo de utilizar nesta pesquisa a tradução de Elsie Lessa e de John Green por ambos terem sido publicados em 2004 e serem as traduções mais recentes. Porém,  em decorrência dos escândalos envolvendo a editora Martin Claret por plágio tradutório e o fato de não se achar qualquer registro de John Green, optou-se por descartar esta tradução. 
destes parágrafos depreende-se que foram usados dois critérios principais para a escolha dos textos: a fidedignidade e a data, dando-se preferência a traduções recentes.

e aqui surge a questão: a pesquisadora pretende utilizar a tradução de élsie lessa porque foi publicada em 2004 e (há aí um elíptico "portanto") é a mais recente. ora, este é o x da questão (ou, como dizia oscar mendes ao traduzir the heart of the matter de graham greene, este é "o coração da matéria"): de fato, há uma edição da itatiaia em 2004, aliás reedição do volume que a mesma editora já havia publicado em 1976, e é apenas uma entre muitas. já a tradução, élsie lessa a fez muito antes disso ou, em outros termos, a primeira edição da tradução de élsie lessa saiu em 1941, pela livraria martins (e talvez até, na verdade, em 1935, pela cultura brasileira).

analogamente, cabe lembrar que a tradução de josé paulo paes d'os carrilhões saiu pela primeira vez em 1959, pela cultrix, e que a edição de 1993 pela ediouro é, da mesma forma que a voz dos sinos pela itatiaia, apenas uma entre muitas.


aliás, a ideia da pesquisadora de montar uma tabela cronológica com as várias edições do conto é excelente; quanto à pesquisa em si, alguns dados sobre a fortuna histórica de the chimes no brasil mereceriam algumas pequenas retificações, tanto mais porque, neste caso, o critério temporal parece ter sido decisivo para a escolha de seu objeto de estudo.*

* o curioso é que, na tabela da pesquisadora, consta a data de 1941 para a tradução de élsie lessa (p. 54), dado comentado também à p. 56, logo antes dos parágrafos acima reproduzidos.

este exemplo reforça minha convicção de que é absolutamente necessário, urgente e fundamental, para todas as áreas de letras, literatura, estudos de tradução e estudos culturais em geral, que se aprofundem sólidas pesquisas historiográficas sobre tradução no brasil, única maneira de se obterem dados confiáveis para os mais variados temas de estudo e pesquisa.

imagem: several editions

3 comentários:

  1. Se os editores estampasse, p.ex.: '305ª edição de The Chimes, na tradução de fulano ou fulana, de 19.." talvez já fosse uma ajuda e tanto.

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  2. hahaha! e o mais engraçado, henrique, é que por alguma razão que não entendo bem (mas provavelmente deve ter algum interesse de fundo monetário) muitas e muitas editoras adoram camuflar o número de suas próprias edições e reedições da mesma obra. não digo só uma notória ishperta como a martin claret - que, a julgar por sua imprenta - seus livros parecem ser eternamente primeiras edições (salvo raríssimas exceções), mas editoras normais também. lembro quando, pelo contrário, alardeava-se "vigésima edição" ou "trocentésima edição" até como propaganda. bom, mas deixando as editoras lá com suas práticas, é interessante também notar a longevidade de nossas traduções. acho muito bom e saudável isso de ter uma espécie de bosque tradutório com vegetação da mais variada idade - não é uma lavoura de soja que todo ano é colhida e replantada para a safra seguinte.

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    1. Creio que o nó da questão é mesmo monetário.
      A variedade das traduções é de fato desejável; sempre se poderá chegar a nova abordagem de uma obra, especialmente quando é transposta de outro idioma.

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