21 de mai de 2012

"paulo m. oliveira"

paulo m. oliveira (ou também paulo m. de oliveira) traduziu algumas obras fundamentais nos anos 1930 - mais especificamente entre 1935 e 1939 -, em geral para a coleção "bibliotheca classica" da athena editora.

a cidade do sol, de campanella, 1935


a confissão de um filho do século, de musset, 1936 (com adelaide pinheiro guimarães)



gargântua, de rabelais, 1936, aqui em edição posterior:




pensamentos de pascal, 1936;
madame bovary, de flaubert, 1937;
não encontrei imagens das capas dessas duas obras

sumário de história da filosofia, de guido de ruggiero, 1937
Clique para ampliar a capa

dos delitos e das penas, de beccaria, 1937 (aqui na edição de 1956)


vida nova, de dante, 1937 (com "blásio demétrio")


elogio da loucura, de erasmo, 1939


discurso sobre o método, de descartes, 1939


máximas e reflexões, la rochefoucauld, 1939 (este pela companhia brasil editora)

o que há de muito interessante é a identidade de "paulo m. oliveira". conheço esse nome faz décadas, mas nunca localizei nenhuma referência sobre a pessoa. até que um dia, comentando a garfada da martin claret sobre a vida nova de dante, em tradução de blásio demétrio e paulo m. oliveira, paula abramo me informou que, na verdade, "blásio demétrio" foi o pseudônimo que seu avô fúlvio abramo tinha usado para essa tradução que fizera quando estava na prisão. publiquei essa informação impressionante aqui, com a imagem da carta que fúlvio enviara à família comentando o fato, imagem esta gentilmente enviada por paula. na carta, fúlvio dizia que estava traduzindo vida nova "com outro preso". na época, até especulei se não poderia ser seu camarada de militância lívio xavier, que também traduziu várias coisas importantes.

hoje, por mero acaso, vejo dois gargântuas, um pela athena com "h" e outro pela atena após a reforma ortográfica, sem o "h", em 1957. o primeiro trazia créditos de tradução para paulo m. oliveira; o segundo... até me arrepia! vou guardar o suspense mais um pouco.

fico surpresa, começo a fuçar um pouco e vejo aquela cidade do sol de paulo m. oliveira, de 1935, ressurgir pela mesma editora (já na grafia sem "h") em 1956. caramba, não me aguentei: era ARISTIDES LOBO!!!

aí claro que tudo faz mais sentido: a concentração das traduções durante o período de suas prisões, o trabalho em conjunto com seu colega trotskista fúlvio abramo, o reaparecimento de duas delas pela mesma atena duas décadas mais tarde etc.

achei a descoberta realmente sensacional - se não ainda efetivamente uma descoberta comprovada, pelo menos uma fecundíssima hipótese altamente provável, que mereceria um estudo para valer pelos interessados na história da tradução brasileira e, sobretudo, no enorme papel desempenhado pela esquerda na seara tradutória (tema sobre o qual nunca canso de insistir). neste contexto, seria interessante conhecer melhor também a história da athena (cujo catálogo, após sua extinção, migrou em larga medida para a ediouro, que até hoje publica as traduções de aristides lobo e de "paulo m. oliveira"), abrigando o trabalho de lívio xavier, fúlvio abramo, aristides lobo - e lembrar também que a athena publicava coisas de evaristo de moraes, que recorrera da sentença contra aristides e conseguiu seu indulto em 1938. aliás, isso me faz lembrar o apoio que ênio silveira dava a militantes na clandestinidade, encomendando-lhes traduções para a civilização brasileira.

quanta história!

veja também athena editora

atualização: de fato, paula abramo confirma a identidade de "paulo m. oliveira"; tratava-se mesmo de aristides lobo (1905-1968).

22 comentários:

  1. Que linda essa história, Denise! Ah, seria tão bacana se alguém puxasse o fio dessa meada e fosse investigar mais... tanta história, como diz você.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. já comecei a campanha entre alguns professores de letras e estudos de tradução ;-)

      Excluir
  2. Muito interessantes essas informações, Denise. Vou divulgar entre amigos e tradutores. O assunto mereceria mesmo ser estudado a fundo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. que legal, cláudia, divulgue sim! é um tema e tanto, não?

      Excluir
  3. Intrigante e estimulante descoberta!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. ha, sabia que vc ia gostar! :-))

      Excluir
  4. Beatriz Viégas-Faria22.5.12

    Mais uma vez, Denise, os acadêmicos da Tradução ficamos gratos por teu trabalho incansável, detetivesco. Maravilha!
    Abraço da Beatriz (UFPel)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. obrigada, beatriz - quem sabe algum orientando seu não se anima com o tema?

      Excluir
  5. É uma área fascinante! Na Espanha pós guerra civil, muitos ex-republicanos não conseguiram empregos "oficiais" e começaram a trabalhar como tradutores freelance, muitas vezes usando pseudônimos. E na cadeia o preso político tem tempo para traduzir! Um exemplo é Nazim Hikmet, o famoso poeta turco, que traduziu Guerra e Paz quando estava na cadeia!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. haha, pois é, tem tempo, uiui. desde o cervantes (embora não fosse tradução)... ou o lobato, algo mais próximo no tempo e no espaço.

      Excluir
  6. Da Wikipédia:
    "Conseqüência de um acidente na infância, Aristides Lobo havia perdido a visão de um olho. Por parte de pai, era sobrinho do famoso propagandista da República Aristides Lobo e, por parte de mãe, do poeta Alberto ***de Oliveira***. Não usava o nome inteiro. Assinava artigos e traduções como Aristides Lobo e assim era conhecido."
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristides_Lobo_(1905-1968)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. aaaaah, rui, fantástico! daí o "de oliveira"!! uau, obgíssima!

      Excluir
  7. Anônimo23.5.12

    Denise, tenho uma dúvida que não está relacionada ao tradutor citado nesse post, mas ao famigerado Pietro Nassetti. Recentemente adquiri um exemplar de "A República", de Platão, produzido pela Martin Claret e supostamente traduzido pelo enigmático Nassetti. Porém, só descobri o lado obscuro dessa editora e de seus tradutores após adquirir o livro, pois tive a curiosidade de fazer uma pesquisa sobre a qualidade da tradução. Acabei por descobrir, através do seu blog e de outras fontes, que há certo tempo foi comprovado o plágio da tradução, e que a própria Martin Claret reconheceu a fraude. Procurei algum trecho da tradução referida como a original, de um tradutora portuguesa, e percebi que o meu exemplar da Martin Claret, apesar de ser uma reimpressão de 2012, possui trechos absurdamente idênticos aos da versão portuguesa, com singelas alterações de palavras. A pergunta que fica é: a Martin continua reimprimindo um plágio que ela mesma reconhece como plágio?

    ResponderExcluir
  8. ah, sim, prezado anônimo, ela não tem muito pejo a respeito, não. continua a reimprimir edições sucessivas de dezenas e dezenas de fraudes, mesmo as que admite publicamente serem fraudes. é a impunidade que permite tamanho descaramento.

    ResponderExcluir
  9. Ana Cláudia R. Ribeiro20.11.12

    Que história fantástica!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. e abre todo um campo de pesquisa que me parece muito fecundo, não acha, ana?

      Excluir
  10. Prezada Denise,

    Vim futucar estes utilíssimos posts seus sobre a Athena Editora após ver que a tradução de Da república de Cícero que aparece na Pensadores Azul é uma tradução licenciada dela, infelizmente sem data. O tradutor é certo Amador Cisneiros. Olhando o catálogo da Cultura, vejo que as edições novas ainda usam essa mesma tradução da Athena. Se procuro o nome do sujeito no Google, ele aparece como (1) o tradutor de Da República e (2), numa única ocasião, como sendo autor de um periódico obscuro. Estou aqui na torcida para que, em suas investigações tradutórias, descubra quem é ele também.

    ResponderExcluir
  11. olá, bruna: numa rápida consulta no google, é possível encontrar até bastantinha coisa sobre amador cisneiros em notícias, livros de memórias, artigos etc.: jornalista, capitão, sofreu processo sob o estado novo (em 1938), acusado de comunista, esteve na feb, participou de algumas revistas de teatro e cinema, e certamente na hemeroteca digital você encontrará mais coisas sobre ele. provavelmente sua contribuição na athena se deu por suas posições antifascistas e de esquerda.

    ResponderExcluir
  12. Olá Denise, de fato Aristides Lobo aparece nos arquivos do DEOPS/SP como revisor da "Editora Unitas"....

    ResponderExcluir
  13. que legal, 2008, dessa eu não sabia!

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.