6 de mai de 2012

joseph conrad no brasil, I



a obra de joseph conrad é até razoavelmente conhecida entre nós: talvez cerca de 1/3 dela esteja traduzida no brasil.

é uma trajetória interessante - foi por iniciativa da livraria do globo que joseph conrad chegou, numa sucessão relativamente rápida (sempre pela globo):
  • 1934, o agente secreto, em tradução de pepita leão
  • 1936, tufão e outras histórias (com "tufão", "amy foster", "falk" e "amanhã"), em tradução de queiroz lima
  • 1939, lord jim, em tradução de mário quintana
  • 1940, a flecha de ouro, tradução de marques rebello
  • 1942, vitória, em tradução de leonel vallandro
Autor:
Título / Barra de autoria:
O agente secreto.
Imprenta:
Pôrto-Alegre, Liv. Globo, 1934. 
Descrição física:
307 p.
Notas:
Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:
Indicação do Catálogo:
I-107,1,31 


estas duas últimas imagens devo à gentileza de sérgio karam


ainda em 1942, sai "uma guarda avançada do progresso" na coletânea contos ingleses, organizada por jacob penteado, pela edigraf. embora não conste crédito, é a tradução portuguesa de cabral do nascimento.




em 1944, sai "juventude" em tradução de edison carneiro na coletânea os ingleses: antigos e modernos, organizada por rubem braga e publicada pela editora leitura.

Devo a imagem de capa à enorme gentileza de Saulo von Randow Jr.






aí vem uma calmaria de vinte anos, até que, em 1964, a editora boa leitura lança perdição e contos de inquietude, em tradução de virgínia lefèvre. perdição corresponde a almayer's folly e os cinco contos (tales of unrest) são "karain, uma lembrança", "os idiotas", "um posto avançado de progresso", "a volta" e "a laguna". [diga-se de passagem que a boa leitura havia publicado um lord jim em 1960, mas não consegui descobrir se era uma retradução ou um licenciamento da tradução de 1939.]


passa-se mais um tempinho, até que:
  • em c. 1978 sai a linha de sombra: uma confissão, em tradução de maria antonia van acker, pela hemus;
  • em 1978 temos "por causa dos dólares" (da coletânea within the tides), na edição revista e ampliada da antologia mar de histórias, em tradução de aurélio buarque de hollanda e paulo rónai, pela nova fronteira;
  • em 1982 vem vitória, em tradução de marcos santarrita, pela francisco alves; 
  • no mesmo ano, uma nova tradução de lorde jim, também por marcos santarrita, também pela francisco alves; 
  • no ano seguinte, 1983, sai nostromo, em tradução de donaldson garschagen, pela record.


note-se que, nesses cinquenta anos de publicação de conrad no brasil, entre 1934 e 1983, nem sinal daquela obra que, hoje em dia, é a mais espantosamente traduzida e retraduzida entre nós, heart of darkness (com nada menos que treze traduções/ adaptações diferentes em 27 anos, de 1984 a 2011 - veja aqui).

é em 1984 que se inicia o surto, provavelmente na esteira do sucesso do filme apocalypse now, com três traduções lançadas no mesmo ano:
  • coração das trevas, em tradução de regina régis junqueira, pela itatiaia;
  • o coração da treva, em tradução de hamilton trevisan, pela global;
  • o coração das trevas, em tradução de marcos santarrita, pela brasiliense.


a partir daí, a onda conradiana ganha impulso e avança com uma razoável variedade de novos títulos e mais algumas retraduções:
  • 1984, sob os olhos do ocidente, tradução de marcos santarrita, brasiliense;
  • 1985, a força do acaso ou chance, tradução de francisco da rocha filho, marco zero;
  • 1985, o cúmplice secreto, tradução de marilene felinto e heloísa prieto, max limonad;
  • 1985, tufão & outras histórias (com "tufão", "amy foster" e "amanhã"), tradução de albino poli jr.,  l±
  • 1986, juventude, tradução de flávio moreira da costa, marco zero;
  • 1987, lord jim, adaptação de cordélia dias d'aguiar, coleção elefante, ediouro;
  • 1991, nostromo, tradução de josé paulo paes, companhia das letras;
  • 1994, mocidade e o parceiro secreto, tradução de maria ercília galvão bueno, imago;
  • 1995, o agente secreto: uma história singela,  tradução de laetitia vasconcellos,  imago;
  • 1997, o coração das trevas, tradução de albino poli jr.,  l±
  • 1999, o espelho do mar, seguido de um registro pessoal, tradução de celso mauro paciornik, iluminuras;
  • 1999, a loucura do almayer, tradução de julieta cupertino, revan










aqui vale a pena dar uma paradinha para comentar uma história simpática: julieta cupertino, nascida em outubro de 1907 e atualmente com 104 anos de idade, com amorosa dedicação começou a traduzir as obras de conrad já nonagenária. ao longo dos anos, a revan vem publicando este seu paciente trabalho, e assim é que, na sequência de a loucura do almayer, que saiu em 1999, temos as seguintes traduções de cupertino, sempre pela revan:
  • 2000, o fim das forças
  • 2001, juventude: uma narrativa (edição bilíngue)
  • 2001, lord jim
  • 2003, freya das sete ilhas
  • 2004, dentro das marés
  • 2004, duas histórias (karain: uma memória, e um posto avançado do progresso)
  • 2005, a linha de sombra
  • 2007, amy foster
  • 2008, o duelo
  • 2009, vitória
  • 2011, coração das trevas
em 2002, entre essa sequência, a mesma editora publicou também o agente secreto, em tradução de paulo cezar castanheira.











retomando a ordem cronológica das traduções e retraduções de conrad no brasil, e já apresentados os treze títulos que saíram pela revan desde 1999, prossegue a onda conradiana, agora com predomínio maciço de retraduções, sobretudo de heart of darkness, e apenas uma ou outra coisa que ainda estava inédita entre nós:
  • 2001, coração das trevas, tradução de juliana l. freitas, nova alexandria;
  • 2002, o coração das trevas, seguido de o cúmplice secreto, tradução de celso mauro paciornik, iluminuras;
  • 2003, juventude: uma narrativa, e o parceiro secreto, tradução de valéria medeiros, paz e terra;
  • 2005, "a fera" (de a set of six), in contos de horror do século XIX, tradução de laetitia vasconcellos, companhia das letras;
  • 2005, coração das trevas, adaptação de josé vicente bernardo, nova alexandria;
  • 2007, o coração das trevas, adaptação de rodrigo espinosa cabral, rideel;
  • 2007, o coração das trevas, tradução de luciano alves meira, martin claret;
  • 2007, "o duelo" em mestres-de-armas - seis histórias sobre duelos, tradução de cláudio figueiredo, companhia das letras;
  • 2007, os duelistas, tradução de andré de godoy vieira, l±
  • 2007, "um posto avançado do progresso", in os melhores contos que a história escreveu, tradução de maria luiza x. de a. borges, nova fronteira;
  • 2008, coração das trevas, seguido de um posto avançado do progresso, tradução de sergio flaksman, companhia das letras;
  • 2008, no coração das trevas, tradução de josé roberto o'shea, hedra;
  • 2009, um anarquista e outros contos (são: "um anarquista", "o informante", "il conde" e "a bruta", de a set of six), tradução de dirceu villa, hedra;
  • 2010, "a laguna" in contos de amor e desamor, com tradução de maria luiza x. de a. borges, pela agir, 2010;*
  • 2010, a linha de sombra: uma confissão, tradução de guilherme braga, l±
  • 2010, o agente secreto, tradução de eduardo furtado, landmark;
  • 2011, o coração das trevas, tradução de fábio cyrino, landmark
* agradeço a celina portocarrero pela informação.



   

  

  
  


obs.: neste levantamento, as traduções estão mencionadas apenas em sua primeira edição. tirando uma ou outra, praticamente todas elas foram reeditadas, com maior ou menor frequência, e algumas - sobretudo lord jim na tradução de mario quintana - foram licenciadas para outras editoras. veja a tabela de obras por frequência de traduções em joseph conrad no brasil, II.





entre as ausências incompreensíveis, destacam-se the nigger of the "narcissus" e "gaspar ruiz", este integrante de a set of six, coletânea do autor inexplicavelmente desmembrada entre nós.

cabe ainda lembrar o lamentável descaminho da editora nova cultural em sua coleção "obras-primas", lançando em 2003 um lord jim com pretensa tradução atribuída a uma "carmen lia lomônaco" que, em verdade, constituía mera cópia da decana tradução de mário quintana, conforme expus aqui.

imagem de jc: aqui; imagens de capa: google images

atualização em 01/10/2013:
em 1958, sai "amy foster", em tradução de a. barbosa rocha, em titãs da literatura,, vol VII da coleção "os titãs" da el ateneo; como a coleção foi originalmente publicada em espanhol, com organização da lázaro liacho, suponho que a tradução tenha sido feita a partir do espanhol.

atualização em 13/6/2015:


freya das sete ilhas,
trad. eduardo marks de marques,
grua livros, 2014

8 comentários:

  1. Silvio R. Santos6.5.12

    Belíssimo trabalho! Poderia me dizer se a tradução de O Leopardo de Lampedusa, atribuída a Leonardo Codignoto, edição da Nova Cultural, 2003, coleção obras-primas é mais um plágio?

    Grato

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  2. olá, silvio: obrigada!

    sim, sim, esse leonardo codignoto é um espectro inventado pela nova cultural para mascarar a apropriação da tradução lusitana de rui cabeçadas. veja aqui: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2008/11/assassinado-tradutores-12.html

    aqui a lista dos cotejos disponíveis neste blog: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2009/05/cotejos-disponiveis.html

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  3. Daniel Dago8.5.12

    Cara Denise,
    olha que curioso: eu tenho o “Niels Lyhne”, de Jens Peter Jacobsen (Cosac Naify, 1ª edição, 2000). Pois bem, a orelha do livro possui os próximos lançamentos da editora e “O negro do Narciso”, do Conrad, está incluído!

    Será que a tradução foi feita e apenas nunca foi publicada ou ia ser encomendada e a tradução acabou não sendo feita? Estranho, não?

    Atenciosamente,
    Daniel Dago

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  4. Gustavo Soares29.8.16

    Olá Denise! Você por acaso teria alguma informação sobre a edição portuguesa de "O Negro do Narciso", publicado pela editora Relógio D'Água em 1987?

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    1. olá, gustavo. não, não tenho.

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    2. Gustavo Soares29.8.16

      Obrigado, Denise. É uma pena que uma obra tão relevante como esta não tenha nenhuma tradução feita aqui no Brasil.

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  5. Sandro Costa5.9.16

    Denise, já vi muitas pessoas reclamando das traduções de Julieta Cupertino, afirmando que a mesma deixa a desejar quanto ao nível exigido para as obras de Conrad. Você já teve acesso a algumas traduções dela?

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  6. olá, sandro: li alguns contos de katherine mansfield traduzidos por ela, e gostei bastante.

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