9 de mai de 2012

gustave flaubert no brasil

há em nossos acervos nacionais dois volumes que indicam a data de entrada de flaubert no brasil, em tradução:


Autor:Flaubert, Gustave, 1821-1880.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Salambô (romance).
Imprenta:Rio, Ed. guanabara, 1932. 
Descrição física:249 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/F587s7/1932 



e, embora com data um pouco incerta:

Autor:Flaubert, Gustave, 1821-1880.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Madame Bovary.
Imprenta:S. Paulo, Impressora paulista, [1934?]. 
Descrição física:345 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/F587m7/1934 


consultei a dinf/fbn; de fato, não constam créditos de tradução em nenhuma dessas edições.

em 1937, tenho notícia, mas sem maior corroboração, de que a athena lançou uma tradução feita por "paulo m. oliveira", pseudônimo de aristides lobo para suas traduções feitas no cárcere. ver meu artigo "uma vinheta", in traduzires, unb, 2012, aqui.

por volta de 1942, sai pela livraria martins a tradução de galeão coutinho de trois contes, mas com o título de são julião, o hospitaleiro (contendo os outros dois contos, "herodíade" e "um coração simples").



também em 1942, aparece uma salambô com "tradução revista" por marques rebelo. no jargão editorial, isso costuma significar o uso de alguma tradução anterior, geralmente portuguesa e ainda mais geralmente não especificada. e aí a dificuldade, mas não a impossibilidade, é descobrir qual foi a tradução utilizada como base. deixo a tarefa aos flaubertianos de carteirinha. de qualquer forma, essa "tradução revista" ainda continua em viçosa circulação, pela ediouro.*



*um dos tradutores lesados por marques rebelo e pela pongetti, araújo ribeiro, denunciou o caso e apontou o lusitano joão barreira como o legítimo tradutor da salambô "revista por marques rebelo". veja aqui.







a pongetti deve ter gostado do sistema, pois logo em 1944 lança uma educação sentimental também em "tradução revista", agora por araújo alves. tal como salambô, continua até hoje em ativa circulação, pela ediouro:








ainda em 1944, a vecchi lança uma madame bovary, agora especificada: a tradução é de eloy pontes. acompanham a obra as atas do processo contra flaubert por causa dessa obra. a capinha fico devendo.



continuando em 1944, o clube do livro lança uma madame bovary sem especificação dos créditos de tradução e um rotundo "O" em gustavo flaubert (ao mais autêntico estilo luso já evidenciado nas edições da pongetti):



o clube do livro se sai em 1945 com uma salambô no mesmo estilo - sem créditos e com aportuguesamento do nome:







em c. 1945 sai a tradução de araújo nabuco para madame bovary, pela livraria martins. teve amplíssima circulação ao ser licenciada para a abril cultural (anos 70 e 80) e o círculo do livro (anos 70 a 90), e ainda hoje circula pela itatiaia e pela martin claret (neste último caso, não sei se com licenciamento). - essa tradução, aliás, foi protagonista de uma das fraudes mais cabeludas na história do plagiato tradutório nacional, nas mãos da editora nova cultural.*








em 1947, é a vez da jackson de "revisar" e "adaptar" uma tradução não identificada d' a educação sentimental:



A educacao sentimental / 
Gustave Flaubert ; [traducao revista e adaptada pelo Departamento Editorial de W. M. Jackson Inc.]. -




agora, a partir de 1948, vale a pena nos concentrarmos na editora que realmente se dedicou a divulgar as obras principais de flaubert no brasil: a melhoramentos. temos em sequência, sempre por ela:
  •  1948,  a educação sentimental, em tradução de mirinha de lacerda soares:  

  • 1949, salambô, tradução de aloysio ferraz pereira (aqui na capa da ed. de 1956):
  • 1950, madame bovary: costumes de província, tradução de genésio pereira filho:
  • 1956, três contos ("um coração simples", "a lenda de são julião, o hospitaleiro" e "herodias"), em tradução de carlos chaves, aqui em capa de 1960:
Livro - Três Contos - Gustave Flaubert
  • 1957, a tentação de santo antão, em tradução de carlos chaves:
  • 1960, bouvard e pécuchet, seguido de dicionário de ideias feitas, em tradução de galeão coutinho e augusto meyer:


nunca será demais reconhecer essa iniciativa da melhoramentos, e com traduções de boa qualidade.



voltemos à linha cronológica interrompida em 1948. em 1950, o clube do livro relança a tradução de galeão coutinho que saíra pela martins em c. 1942, com os mesmos contos lá acima citados:






em 1959, sai a educação sentimental: história de um moço, com tradução de adolfo casais monteiro, em 2 volumes, pelos clássicos garnier da difel. essa tradução terá grande permanência entre nós, com inúmeras edições pela abril cultural, círculo do livro e, mais recentemente, pela nova alexandria.



também em 1959, sai uma curiosa adaptação de madame bovary feita por mário donato, com ilustrações de oswald de andrade filho na coleção "meu livro premiado", com direito a capa de veludo e tudo, na série "livros imortais", edições alarico. aliás, não diziam "adaptação - era "condensação literária"; não diziam "ilustrações" e sim "visualização artística", com desenhos de flávio de carvalho, marcelo grassman e outros.

em 1963, sai "um coração simples" in novelas francesas, pela cultrix. constam três tradutoras: leyla perrone-moisés, nelly donato e ruth guimarães. como leyla acabou meio se especializando em flaubert, imagino que este conto esteja em tradução sua:



em 1965, sai mais uma madame bovary, agora em tradução de nair lacerda, pela bup. não localizei imagem de capa.

em 1969, outra madame bovary, agora em tradução de vera neves pedroso, pela bruguera:

Madame Bovary - Gustave Flaubert

em 1974, sai mais uma tradução de três contos, pela editora três, em tradução de luís de lima (adotando "um coração singelo" para "un coeur simple"). a propósito, a rocco volta a editar um coração singelo de luís de lima em 1986.



em 1980, sai "uma alma simples" em tradução de aurélio buarque de hollanda e paulo rónai, no volume IV do mar de histórias pela nova fronteira (não sei se já fazia parte da antologia bem menos extensa, publicada entre 1945 e 1958 pela josé olympio).  



em 1981, outro três contos, em tradução de manuel freitas costa e flávio moreira da costa, pela francisco alves (aqui, para o título do conto "un coeur simple" foi adotado "uma alma simples"). volta a ser lançado pela l&pm em 2005, com créditos apenas em nome de flávio moreira da costa. "herodíade" é relançado em 2006 em os melhores contos bíblicos, pela ediouro.

Três Contos, Gustave Flauber

em 1985, temos salambô em tradução de mariajosé de carvalho, max limonad:



também em 1985, sai outra tradução de madame bovary, agora de sérgio duarte, pela ediouro:

 

em 1987, o clube do livro lança mais uma madame bovary, com tradução em nome de josé maria machado (sobre a encrenca que é qualquer tradução do clube do livro nesse nome, veja aqui). seria o caso de verificar se é a mesma tradução que saiu pelo CdL em 1944, porém anônima, citada mais acima, no ano de 1944. - agradeço a informação e as imagens abaixo a wladimir cazé.



em 1992, um pouco de novidade. um texto sobre a comuna de paris in crônicas da comuna, em tradução de claudio willer, pela ensaio:



em 1993, uma nova madame bovary, em tradução de fúlvia moretto, pela nova alexandria:



também pela nova alexandria, em 1995 sai outra tradução de dicionário das ideias feitas, agora de cristina murachco:



em 1996, pela paz e terra, um coração simples em tradução a seis mãos, por clotilde mariano vaz, daniel vaz e simia katarina rickmann:



depois de tantas incontáveis repetições, finalmente surgem coisas novas. em 2000, teremos novembro: seguido de treze cartas a louis bouilhet, com tradução de sérgio medeiros, pela iluminuras:



outra novidade vem em 2001 - bibliomania, em tradução de carlito de azevedo, pela casa da palavra:



em 2004, a mesma casa da palavra publica outra tradução da mesma "bibliomania", agora integrando a coletânea a paixão pelos livros, em tradução de júlio silveira:



também em 2004, aparecem (no plural) as tentações de santo antão, em tradução de luís de lima, pela iluminuras:



apenas de passagem: certamente deve haver alguma validíssima razão para se traduzir saint antoine por "santo antão", além do vezo lusitano. mas, entre nós, ainda não entendi por que não se usa "santo antônio".

em 2004, sai uma salambô pela itatiaia sem qualquer menção ao tradutor. infelizmente, a itatiaia acabou desandando nos últimos dez, doze anos (veja aqui), e não me espantaria muito se fosse uma contrafação:



em 2005, saem cartas exemplares, em tradução de carlos eduardo lima machado, pela imago:



em 2006, mais outra retradução de trois contes, agora por milton hatoum e samuel titan jr., pela cosac naify. (variando o usual "lenda", temos aqui o título "a legenda de são julião hospitaleiro"):

Título do Livro

outra novidade nestes anos é gothica: contos juvenis de gustave flaubert, em tradução de raquel de almeida prado, que sai em 2006 pela berlendis & vertecchia:



por outro lado, ainda em 2006, sai pela martin claret uma vetustíssima tradução portuguesa de a educação sentimental, a de joão barreira, de 1904...



em 2007, temos uma nova tradução de bouvard e pécuchet, agora de marina apenzeller, pela estação liberdade:



em 2008, sai a tradução de ilana heineberg para madame bovary, pela l&pm (que, tão logo se deu da conta da fraude que maliciosamente lhe impingira a editora nova cultural, procedeu à recolha dos exemplares e contratou essa nova tradução):*



em 2011, a nona tradução de madame bovary no brasil, esta de mário laranjeira, pela penguin/companhia:



em 2011, outra "bibliomania", em tradução de sandra m. stroparo, pela arte e letra: estórias 
série M:

Arte e Letra: Estórias M

ainda para 2012, está anunciada a publicação de "um coração singelo" pela arte e letra: estórias, em tradução de beatriz sidou.

sintetizando - pelo levantamento aqui feito sobre a obra de flaubert traduzida no brasil, sem incluir adaptações infanto-juvenis, temos:
  • nove madame bovary, além de duas anônimas, uma "condensação literária" e uma fraude grotesca;*
  • cinco três contos, e mais três un coeur simple avulsos com títulos variados;
  • três "bibliomania";
  • duas salambô, além de três anônimas e uma "revista";
  • duas educação sentimental, além de duas "revistas" e uma portuguesa;
  • dois bouvard e pécuchet;
  • dois dicionários de ideias feitas;
  • duas a(s) tentação(ões) de santo antão;
  • duas seletas de cartas;
  • uma "comuna";
  • um "novembro";
  • uma juvenília.

* quanto aos três asteriscos ao longo do post, trata-se da edição de madame bovary publicada pela nova cultural,em sua coleção "obras-primas" em 2002, e ainda por cima com tiragens altíssimas (120 mil exemplares para cada edição, conforme, na época, alardeou publicamente a coordenadora editorial da casa). a tradução vinha atribuída a um fantasmagórico "enrico corvisieri", mas na verdade não passava de uma cópia adulterada da clássica tradução de araújo nabuco. veja um resumo da história aqui.

15 comentários:

  1. Denise, a Claudia Lage escreve os melhores textos do Rascunho. Esse, sobre o Flaubert, é um deles:

    http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-escuta-de-flaubert/

    (eu não consigo gostar dos franceses...tava lembrando agora que o Gabriel García Márquez, no Cheiro de Goiaba, diz que a tradução preferida dele do Cem Anos de Solidão é em inglês. Perguntaram de qual tradução ele menos gosta. "Não sinto o livro em francês", respondeu. kkkk)

    bjones

    Enzo

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  2. que legal, enzo, obrigada pelo toque!

    é, coitados, os franceses têm muito problema com a língua, por causa da cristalização e rigidez dela...

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  3. e pensar que depois da segunda guerra mundial a vergonha dos japoneses era tanta que existe documento provando que o povo queria mudar a língua do Japão pro francês!

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  4. Anônimo10.5.12

    denise, q tal vc comentar a nova coleção da folha de são paulo? a coleção de literatura ibero-americana. seus julgamentos sobre as traduções, as escolhas dos livros...

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  5. olá, prezado anônimo: não estou acompanhando muito essa coleção, mas, pelo que vi, o pessoal da folha desta vez resolveu realmente caprichar, com gente de primeira linha (josely vianna baptista, sérgio molina, davi arriguci jr., bernardo ajzenberg, josé rubens siqueira, joana angélica - imagino que todos, aliás). não tenho um conhecimento suficiente da literatura latino-americana a ponto de conhecer as várias traduções de cada autor, mas, vendo esses nomes, eu não hesitaria um minuto. gente boa, gente séria, gente competente, cujo trabalho de qualidade conheço de muitas outras traduções. a folha está de parabéns! e obrigada pela sugestão.

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  6. Cara Denise, se não me engano é na apresentação à tradução de Sérgio Duarte para MADAME BOVARY que o superestimado Otto Maria Carpeaux faz um resumo bizarro do livro, com incidentes que o leitor jamais encontrará no romance. Vou ver se acho meu exemplar para citar essa pérola.
    Ótimo trabalho, como sempre.

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  7. caríssimo alfredo, percuciente, destemido e desmistificador como sempre: sua qualificação, "o superestimado otto maria carpeaux", é irretocável! sempre tributei a um certo deslumbramento caipira perante os ares europeus, certamente abastecido em alguma medida pelo objeto de deslumbre.

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  8. Por falar em qualificação, adorei (e ri muito com) sua qualificação da tradução utilizada pela Martin Claret, "vetustíssima".´
    Abração.

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  9. Oi, Denise, só para ficar mais clara a mais "queixa" contra Carpeaux. Comentando o baile de La Vaubysessard, que tanta importância terá para Emma, ele fala do "donjuanesco Rodolphe quando Emma o encontra no baile do castelo" (!?). Sobre o mesmo episódio, afirma "no caminho para o castelo, o cãozinho de estimação pula do carro, corre para longe e mão é mais visto nunca". Será que eu li o mesmo romance?

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  10. ha! nem sei o que dizer... (será tipos a memória engana? li uns vinte anos atrás e guardei essa vaga lembrança?) aliás, devo confessar que tenho uma tendência insopitável a esquecer enredos, personagens e tramas, fica só a sensação ou uma miríade de sensações; mas pelo menos não escrevo introduções ;-)

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  11. Olá, Denise Bottmann! Parabéns pelo grandioso trabalho!
    Gostaria que, se possível, me indicasse a tradução de "Madame Bovary" que julga melhor - e que seja encontrada com facilidade. Além disso, gostaria igualmente que indicasse boa trdução de "A mulher de 30 anos" e "As ilusões perdidas", de Balzac. Estou dando um mergulho na literatura francesa, mas sofro de indecisão quanto às edições brasileiras.
    Desde já, fico muitíssimo agradecido.

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  12. olá, ian, obrigada! puxa, imagine, não li as nove traduções diferentes de madame bovary :-)))

    e também a praxe do blog não é recomendar esta ou aquela tradução; é apontar obras espúrias e recomendar que se fuja delas :-)

    para escolher entre várias traduções, sugiro que você consulte o nome do tradutor no google, veja as outras obras que ele traduziu, avalie a editora, se é séria, se tem um histórico de boa qualidade, e assim por diante.

    um abraço
    denise

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  13. Vi hoje. A tradução de Sérgio Duarte com a introdução "inspirada" de Otto Maria Carpeaux para "Madame Bovary" também está sendo comercializada pela Saraiva de Bolso...

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  14. Olá Denise Bottman! Vi que estão vendendo na Amazon livros de um série chamada clube do livro da Editora Nova Fronteira (ou será Ediouro?). Um dos livros é justamente Madame Bovary que tenho muita vontade de ler. No entanto, não consigo achar o tradutor (não tem na capa e não acho informações do livro). Você teria alguma informação sobre esta tradução?
    Para finalizar: acho o seu trabalho muito bacana!
    Grato
    Renilton

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  15. Anônimo3.8.16

    Se a reprodução dos trechos de Educação Sentimental no site http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,compare-as-traducoes-da-obra-de-gustave-flaubert,444899
    é fiel, os erros tipográficos destroem o sentido do texto em "ocupando toda a largura da vida" ou "formavam dias massas enormes", mesmo que a tradução de Adolfo Casais Monteiro seja correta e tenha grande permanência entre nós. Saudações, Denise, sua pesquisa é muito importante para a formação de leitores críticos.

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