12 de mar de 2012

seis por três ou quatro

a leya, que em 2010 já andou dando umas sapecadas numa tradução portuguesa da guerra dos tronos e não agradou nem a gregos nem a troianos, parece que está tentando se esmerar.
a novidade agora é o circo do dr. lao, na tradução de donaldson garschagen que tinha saído pela francisco alves em 1979 e que a leya relançou no segundo semestre de 2011:


francisco alves, 1979                                                                       leya, 2011                                                                                              

não li, não vi, não conheço, mas sou fã do alfredo monte, que considero o melhor crítico literário brasileiro em atividade, o mais lido, o mais arguto, o mais antenado, o menos ingênuo, menos deslumbrado e menos embeiçado por falatórios teóricos tão vicejantes na contemporaneidade, um autêntico, leal, fiel, verdadeiro amante e conhecedor de literatura, alta, média e popular, capaz de juízos maravilhosamente independentes e bem fundamentados. se ele diz, tem meu maior crédito de confiança. e, neste caso, eis o que ele diz:
O romance que o originou, O circo do doutor Lao (The Circus of Dr. Lao, 1935; a tradução que utilizo, de Donaldson M. Garschagen, havia sido publicada em 1979 pela Francisco Alves com o título semelhante ao filme, e agora reaparece, bastante revisada, pela Leya, com o título original e adequado [3]), escrito por Charles G. Finney, é de uma atordoante originalidade.
aqui o artigo de alfredo monte na íntegra. bom, a notinha [3] é que interessa. tem lá:
          [3] Sou muito devedor à coleção a que pertencia essa tradução da Francisco Alves, “Mundo Fantástico”, que me deu acesso a vários títulos imperdíveis. E pelo meu ponto de vista a maioria das modificações na versão atual da tradução de Garschagen foi para pior.
         Alguns exemplos (os da edição de 1979 estão à esquerda; os da atual estão à direita da barra de separação):
“em tom bombástico” / “com floreio”
“aeroplano”/ “avião”
“nenhum homem mediano”/ “nenhum homem comum”
“para propiciar essa deidade, ainda mais antiga que Bel-Marduk”/ “para satisfazer essa deidade, ainda mais antiga que Bel-Marduk”
“o circo estaria franqueado ao público”/ “o circo estaria aberto ao público”
“a função noturna”/ “a apresentação noturna”
“quem foi o corretor” [do anúncio no jornal]/ “quem foi que vendeu o espaço para o anúncio”
“Disse que poderíamos escolher o tipo que quiséssemos”/ “Disse que poderíamos escolher a tipologia que quiséssemos”
“apanhei o dinheiro e a matéria”/ “apanhei o dinheiro e o anúncio”
“As definições deixaram-na mais esclarecida, porém mais triste”/ “As definições foram esclarecedoras, porém deixaram-na triste”
“uma visão fugaz através de um orifício”/ “uma visão fugaz através de um olho mágico”
“essa dureza”/ “essa penúria”
“sua carnadura”/ “sua carne”
“uma rainha da tela”/ “uma rainha do cinema”
“o emprego parcimonioso do grifo”/ “o emprego parcimonioso do itálico”
“atirada fora”/ “atirada ao chão”
“olhadela na parada”/ “olhadela no desfile”
“então deve ser um aleijão”/ “então deve ser um aleijão ou algo desse tipo”
“estou dizendo que tenho olhos”/ “estou dizendo que tenho bons olhos”
“saiu do restaurante para a rua”/ “saiu do restaurante em direção à rua principal”
“o que há com seus olhos?”/ “o que há de errado com seus olhos?”
“as pessoas estão começando a olhar para você, rindo”/ "as pessoas estão começando a olhar para você, com todo esse riso”
“subiram para o velho automóvel”/ “entraram no velho automóvel”
“nada, deixa”/ “nada, vamos”
“Pensa que não conheço um russo, merda?”/ “Pensa que eu não conheço um russo quando vejo um?”
“você me põe maluca”/ “você me deixa maluca”
“Você sabe que não é um jumento. Você sabe que os jumentos são peludos”/ “Você sabe que não é um jumento por que [sic] os jumentos são peludos.”
“Mas, que diabo, era um urso!”/ “Por Deus, era um urso!”
“Há, há! Índio nada, seu! Era um ursão.”/ “Há, há! Índio nada, era um ursão.”
 “Como será que ele arranjou aquele chifre, vocês imaginam? Nunca ouvi falar em cavalo com chifre.”/ “”Como será que ele arranjou aquele chifre: Nunca vi um cavalo assim.”
“Bem, então era um urso muito parecido com gente”/ “Bem, então era um urso muito parecido com um homem”
“um cavalo com um chifre na testa, mas ele tinha um rabo gozado, disse Edna”/ “um cavalo com chifre na testa e um rabo gozado—respondeu Edna”
“O dia estava quente. Etaoin pensou como era bom que estivesse quente” / “O dia estava quente e o Sr. Etaoin caminhou pelas ruas de Abalone. Pensou como era bom que estivesse quente.”
“atravessou para a sombra”/ “atravessou rumo à sombra”
“por causa do calor abrasante”/ “por causa da temperatura abrasante”
“bandeirolas”/ “bandoleiros”[ sic]
“suas orelhas eram afiladas”/ “suas orelhas eram afiadas”[ sic]
“apenas sabia que estava suando”/ “apenas sabia que estava transpirando”
“cilindros de rezar”/ “cilindros de oração”
“duros sapatos de pau”/ “duros sapatos de madeira”
“os homens sonham com o amor, a senhora sabe”/ “os homens sonhavam com o amor, a senhora sabe”
         Os “disse” dos diálogos viraram “replicou”, “respondeu”, “falou”.
naturalmente ganham a parada os bandoleiros em substituição às bandeirolas e as orelhas afiadas em substituição às orelhas afiladas, e sempre vai ter alguém desconversando e dizendo que foi uma mera, pequena, insignificante distração. mas além dos absurdos, distraídos ou não, existem coisas ridículas, e o que não é ridículo é simplesmente pífio. o revisor que fez o serviço deve ter alguma ótima explicação que nos esclareça por que, afinal, "temperatura abrasante" há de ser melhor do que "calor abrasante", e por que um urso que "parece um homem" há de ser melhor do que um urso que "parece gente". que a leya sapateie em cima da tradução de garschagen me parece um típico exemplo do descerebramento que anda acometendo muitas editoras por aí.

escrevi ao donaldson comentando essas ridicularias. começava que ele nem sabia que a leya tinha publicado sua tradução. aí, se foi a francisco alves que cedeu, qual era o contrato do tradutor com a editora, são outros quinhentos, e é um assunto entre as partes - mas, para a obra e o leitor, uma coisa dessas dá dó, ah, se dá.


4 comentários:

  1. O link no banner ao lado, na sidebar está errado. Direciona para http://naogostoplagio.blogspot.com/ faltando o "de".

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  2. olá, luma, muito obrigada! já corrigi :-))

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  3. Anônimo13.3.12

    Faço os seguintes questionamentos:

    1)Isso é ético? A meu ver, não, já que se está atribuindo ao tradutor algo que ele sequer viu.

    2)Isso é legal? Aí eu não tenho conhecimento para dizer, mas não vejo como possa ser.

    Aprovar o texto final deveria ser prerrogativa do tradutor em 100% dos casos e ponto final.

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  4. Denise, da minha parte só resta agradecer pelos comentários generosos, os quais temo que induziram seus leitores a me achar mais informado e lido do que sou (de qualquer forma, há aqueles leitores em que a gente sempre pensa quando está escrevendo, e você é um deles); creio que o importante mesmo é você chamar a atenção para o descaso com um trabalho criativo, no caso o de Garschagen, que algum editor ou revisor acha tão desimportante que pode ir mexendo sem a menor consideração (e sem o menor talento, também).
    Obrigado.

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