15 de mar de 2012

o lobo do mar

e também vejo hoje que, aparentemente, a editora martin claret teve por bem substituir outra fraude descabelada por uma tradução que suponho legítima. pelo menos deu entrada à solicitação de novo registro na agência do isbn:


O lobo do mar
ISBN: 978-85-7232-848-7
TÍTULO: O lobo do mar
COLEÇÃO: A obra-prima de cada autor
VOLUME DA COLEÇÃO: 4
AUTOR: Jack London
TRADUTOR: Janaína Castilho Macoantonio
EDIÇÃO: 1
ANO DE EDIÇÃO: 2012
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 220
EDITORA: MARTIN CLARET


a edição espúria, aliás, se encontra sob investigação no ministério público federal de são paulo, tendo sido determinada a instauração de um inquérito, conforme despacho que publiquei aqui e transcrevo abaixo:
PORTARIA No- 694, DE 15 DE DEZEMBRO DE 2010
Representação nº 1.34.001.002410/2009-98. Assunto: PATRIMÔNIO PÚBLICO.
Notícia de publicação de traduções de obras feitas por Monteiro Lobato atribuídas a outros autores, pela Editora Martin Claret.
O Ministério Público Federal, pela Procuradora da República subscritora da presente,
CONSIDERANDO os elementos constantes do Procedimento Preparatório nº 1.34.001.002410/2009-98, em que se apura se traduções de obras feitas por Monteiro Lobato foram atribuídas a outros autores, em publicações da Editora Martin Claret;
Resolve, com fundamento no artigo 129, III da Constituição Federal, bem como artigos 6º, inciso VII, alínea "b" e 7º, inciso I, ambos da Lei Complementar nº 75/93, instaurar INQUÉRITO CIVIL PÚBLICO, determinando:
a) o registro e a autuação da presente Portaria, procedendo-se às anotações de praxe;b) a comunicação à 4ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal - 4ª CCR, nos termos do artigo 6º, da Resolução nº 87, de 03 de agosto de 2006, do Conselho Superior do Ministério Público Federal;c) determino que os autos sejam encaminhados para o núcleo pericial para elaboração de Parecer Técnico pelo perito em Antropologia..
ADRIANA ZAWADA MELOProcuradora da República 

reproduzo abaixo o post apontando tais irregularidades, que eu tinha publicado em 18 de março de 2009 (aqui).


mais um lobato clareteado

foi monteiro lobato quem introduziu jack london no brasil. fez as traduções de caninos brancos(1933), o lobo do mar (1934), o grito da selva (1935) e a filha da neve (1947).


o lobo do mar foi publicado pela companhia editora nacional em 1934, e nela se mantém até hoje, na enésima edição. em 1998 a martin claret abocanhou a obra, e desde então vem trapaceando o público em sucessivas edições com a tradução roubada a monteiro lobato e atribuída a "pietro nassetti".

- monteiro lobato:
CAPÍTULO 1
Não sei por onde começar, embora por brincadeira eu costume atribuir a causa de tudo a Charley Furuseth. Este amigo possuía uma casa de campo em Mill Valley, onde repousava durante os meses de inverno lendo Nietzsche e Schopenhauer; já os verões passava imerso no trabalho, a suar no tumulto da cidade. Não fosse meu costume de aparecer por lá aos sábados, ficando até a semana seguinte, e aquela manhã de janeiro não me teria pilhado a vogar na baía São Francisco. Meu barco, o "Martinez", oferecia toda a segurança; tratava-se dum barco recém-construído e ainda na sua quarta ou quinta viagem de carreira entre Sausalito e São Francisco. O que não oferecia segurança era o nevoeiro reinante, apesar de que, na minha ignorância das coisas do mar, não me passasse pela cabeça a menor idéia de perigo. Soprava uma brisa fresca e eu me sentia sozinho dentro da névoa úmida, embora com a consciência de que, lá em cima, na casa de vidro, estavam o piloto e o homem que devia ser o capitão.
Lembro-me que me pus a refletir sobre a divisão do trabalho. Graças a ela me via dispensado do estudo e conhecimento dos nevoeiros, marés e o mais relativo à navegação sempre que ia de visita a Charley Furuseth, lá do outro lado de baía. Ótimo que os homens se especializem no trabalho, ponderava eu. Os conhecimentos marítimos do capitão e do piloto, por exemplo, permitem que milhares de pessoas não pensem nisso, e uma, como eu, se dedique a estudos como aquele sobre o lugar de Poe na literatura norte-americana, que eu publiquei na Atlantic. Ao subir para bordo tinha visto, numa cabina entreaberta, um homem alentado a ler com atenção essa revista — a ler o meu ensaio. Era outra demonstração do valor da divisão do trabalho. O "conhecimento especial" do piloto e do capitão permitiam que aquele passageiro se inteirasse do meu "conhecimento especial" sobre Poe, enquanto era "navegado" com toda a segurança de São Francisco a Sausalito.
Minhas reflexões foram interrompidas pelo aparecimento no convés dum homem de cara vermelha, que ao deixar a sua cabina bateu a porta com violência e aproximou-se de mim manquitolando e martelando o chão com uma perna de pau. Isso, aliás, não impediu que eu tomasse rápida nota mental daqueles pensamentos, para pô-los num artigo que tinha em vista escrever sobre a necessidade da liberdade estética. O sujeito lançou uma olhadela para a casa do piloto e em seguida pôs-se a contemplar o nevoeiro, de pernas abertas, com visível ar de satisfação. Percebi ser homem afeito às coisas do mar. 
— Tempo destes é que os põem de cabelos brancos tão cedo, murmurou, indicando com um movimento de cabeça a casa de vidro onde estavam o piloto e o capitão.
— Qual o quê! respondi na minha santa ignorância. Há a bússola para orientá-los. E há o leme que dirige o navio. E há os mapas. O negócio é simples como o abc. Tudo matemático.
— Qual o que, heim? rosnou o homem. Simples abc, heim? Certeza matemática, heim?
E cresceu para mim ao dizer isto.
— Que acha desta maré que incha todo o Golden Gate, senhor? perguntou-me quase num rugido. Com que rapidez vaza ela? Em que rumo? Vamos lá, senhor! Está ouvindo aquele som? Bóia de campainha — e mal a ouvimos já estamos sobre ela. Veja como mudam de lugar... Realmente, de dentro do nevoeiro brotava um som de campainha — o que fez o piloto dar à roda do leme com violência, até que o som, que vinha pela nossa frente, passasse a vir de lado. Enquanto isso a sereia de bordo pusera-se a apitar com a sua voz rouca, em resposta a outros apitos brotados de dentro da cerração.
— É algum "ferry-boat", explicou o homem da perna de pau, referindo-se a um apito que vinha da direita. E aquele lá, está ouvindo? Buzina! Buzina de assoprar com a boca. É o que usam nas escunas. Cuidado, mestre escuneiro! O inferno está hoje com vontade de comer gente...
O invisível "ferry-boat" apitava com furor e a buzina da escuna respondia com desespero.
— Estão agora a trocar cumprimentos e explicações, disse o homem logo que a fúria dos avisos cessou.
Seus olhos enchiam-se do brilho da excitação à medida que me ia traduzindo em língua de gente a fala daqueles instrumentos de fazer barulho no mar.
— Ouça! Aquilo é sinal para evolução à esquerda... E esse acolá, com voz de sapo, é grito de escuna a vapor que forceja contra a maré.
Um silvo fino e esganiçado rompeu à frente. Os gongos do "Martinez" soaram fazendo as rodas propulsoras afrouxarem o andamento, que só foi retomado quando aquele trilhar de grilo entre feras rugidoras se sumiu ao longe. Olhei para o meu homem, à espera de interpretação.
— Lancha, disse ele. Dessas endemoninhadas lanchas que só mesmo a gente metendo a pique. Umas pestes que vivem a causar trapalhadas. Qualquer imbecil julga-se no direito de meter-se nelas e sulcar as águas apitando com impertinência para que o mundo inteiro saiba que tais pulgas existem. E é preciso levá-las em conta. Estão no uso dum direito — direito de caminho pela superfície das águas. Direito, ah, ah!
Diverti-me com a cólera do homem, e enquanto ele andava de cá para lá, manquitolando na sua perna de pau, pus-me a refletir no romantismo da bruma.
Romantismo, sim. É romântico o nevoeiro que tudo envolve com o seu manto cinzento, de passo que os homens — meros átomos — blasfemam nos corcéis de aço flutuantes através do Mistério, às cegas dentro do Invisível, com palavras de confiança na boca e a incerteza e o medo nos corações.
A voz do meu companheiro fez-me voltar à realidade e sorrir. Eu também havia devaneado às tontas e às cegas dentro do mistério, julgando seguir caminho seguro.
— Olá! dizia ele. Vem algo ao nosso encontro, está ouvindo? Vem rápido e em linha reta. Juro que não nos percebeu ainda. Não ouve a nossa sereia. O vento está a nosso favor.
A brisa fresca soprava de frente, e pude ouvir bem nítido o silvo a que o meu homem se referia.
— "Ferry-boat"? perguntei.
O homem fez com a cabeça sinal que sim e acrescentou:
— Do contrário não viria nessa marcha. E com uma risada nervosa: — Estão assustados, lá em cima...
Olhei para a casa do piloto. O capitão, com a cabeça e ombros de fora, cravava fixamente os olhos no nevoeiro, como tentando devassá-lo à força. Suas feições mostravam ansiedade — a mesma que vi no rosto do meu companheiro, agora de bruços na amurada e também com os olhos presos no perigo invisível que se alapava dentro da névoa.
E o que tinha de dar-se, deu-se com incrível rapidez. Rompido por uma cunha, o nevoeiro mostrou a proa dum vapor a emergir franjado de espuma na linha d'água, com bigodes dum Leviatã. Pude ver a casa do piloto, com um homem de barbas brancas assomado a uma das janelas. Trajava uniforme azul, e lembro-me da impressão de calma que me deu.
Era terrível tal calma em tais circunstâncias. O homem aceitava o seu destino, avançava com ele de mãos dadas, a medir friamente o choque. Seu olhar inquisitivo fixava-se no "Martinez" como para determinar o ponto exato da colisão — e em nada se alterou quando o nosso piloto, branco de raiva, berrou-lhe: — Foi você o culpado!
A observação era por demais óbvia para tomar necessária qualquer resposta.
— Agarre-se no que puder e agüente-se! gritou-me o homem da perna de pau. Notei que a sua arrogância se dissipara e que parecia contagiado pela calma anormal do homem de barbas brancas. — E veja como as mulheres gritam, prosseguiu ele sombriamente, quase com amargura, fazendo-me crer que já havia passado por transes iguais àquele.
Os dois navios chocaram-se antes que eu pudesse seguir o seu conselho. O impacto devia ter sido no meio do "Martinez", que adernou violentamente por entre estrondos do madeirame. Vi-me lançado de borco sobre o convés alagado, e antes que pudesse erguer-me vi-me tonto pela grita das mulheres. Foi isso — esse indescritível e arrepiante uivo de pânico o que mais me apavorou. Lembrei-me do salva-vidas do meu camarote. Corri para lá. Ao alcançar a porta fui varrido por uma onda selvagem de criaturas em disparada. Não me recordo do que sucedeu logo depois, a não ser o avanço no estoque de salva-vidas, com o homem de perna de pau a atar os que podia à cintura dum bando histérico de mulheres. A memória dessa cena é mais nítida do que a de qualquer outra que me haja passado sob os olhos. Inda hoje vejo o quadro: o rombo numa cabina, através do qual a névoa revoluteava em turbilhão; divãs e poltronas esvaziados de súbito e com todos os sinais do estouro — pacotes, bolsas, guardachuvas, capas; o alentado sujeito daAtlantic, engastado num salva-vidas e ainda com a revista na mão, a perguntar-me com insistência se havia perigo; o meu companheiro da perna de pau a manquitolar por toda a parte muito seguro de si na tarefa de distribuir salva-vidas a quantos apareciam, e, finalmente, a inferneira louca do mulherio apavorado.


- pietro nassetti:
CAPÍTULO 1
Não sei por onde começar, embora por brincadeira eu costume atribuir a causa de tudo a Charley Furuseth. Este amigo possuía uma casa de campo em Mill Valley, onde descansava durante os meses de inverno lendo Nietzsche e Schopenhauer; já os verões passava imerso no trabalho, a suar no tumulto da cidade. Não fosse o meu costume de aparecer por lá aos sábados, ficando até a semana seguinte, e aquela manhã de janeiro não me teria encontrado a navegar na baía S.Francisco.
Meu barco, o "Martinez", oferecia toda a segurança; tratava-se dum barco recém-construído e ainda na sua quarta ou quinta viagem de carreira entre Sausalito e S. Francisco. O que não oferecia segurança era o nevoeiro circundante, apesar de que, na minha ignorância das coisas do mar, não me passasse pela cabeça a menor idéia de perigo. Soprava uma brisa fresca e eu me sentia sozinho dentro da névoa úmida, embora com a consciência de que, lá em cima, na casa de vidro, estavam o piloto e o homem que devia ser o capitão.
Lembro-me que me pus a pensar na divisão do trabalho. Graças a ela me via dispensado do estudo e conhecimento dos nevoeiros, marés e o mais relativo à navegação sempre que ia de visita a Charley Furuseth, lá do outro lado de baía. Ótimo que os homens se especializem no trabalho, ponderava eu. Os conhecimentos marítimos do capitão e do piloto, por exemplo, permitem que milhares de pessoas não pensem nisso, e permitem que uma, como eu, se dedique a estudos como aquele sobre o lugar de Poe na literatura norte-americana, que eu publicara na Atlantic. Ao subir a bordo eu tinha visto, numa cabina entreaberta, um homem [] a ler com atenção essa revista — a ler o meu ensaio. Era outra demonstração do valor da divisão do trabalho. O "conhecimento especial" do piloto e do capitão permitiam que aquele passageiro se inteirasse do meu "conhecimento especial" sobre Poe, enquanto era "navegado" com toda a segurança de S.Francisco a Sausalito.
Minhas reflexões foram interrompidas pelo aparecimento no convés dum homem de cara vermelha, que ao deixar a sua cabina bateu com violência a porta e aproximou-se de mimmancando e martelando o chão com uma perna-de-pau. Isso, aliás, não impediu que eu tomasse rápida nota mental daqueles pensamentos, para pô-los num artigo que tinha em vista escrever sobre a [] liberdade estética. O sujeito lançou uma olhadela para a casa do piloto e em seguida pôs-se a contemplar o nevoeiro, de pernas abertas, com visível ar de satisfação. Percebi ser homem afeito às coisas do mar.
— Tempo destes é que os põem de cabelos brancos tão cedo, murmurou, indicando com um movimento de cabeça a casa de vidro onde estavam o piloto e o capitão.
— Qual o quê! respondi na minha santa ignorância. Há a bússola para orientá-los. E há o leme que dirige o navio. E há os mapas. O negócio é simples como o abc. Tudo matemático.
— Qual o que, hein? rosnou o homem. Simples abc, hein? Certeza matemática, hein?
E veio em minha direção ao dizer isto.
— Que acha desta maré que incha todo o Golden Gate, senhor? perguntou-me quase num rugido. Com que rapidez vasa ela? Em que rumo? Vamos lá, senhor! Está ouvindo aquele som? Bóia de campainha — e mal a ouvimos já estamos sobre ela. Veja como mudam de lugar...
Realmente, de dentro do nevoeiro brotava um som de campainha — o que fez o piloto dar a roda do leme com violência, até que o som, que vinha pela nossa frente, passasse a vir de lado. Enquanto isso a sereia de bordo apitava com a sua voz rouca, em resposta a outros apitos brotados de dentro da cerração.
— É algum ferry-boat, explicou o homem da perna-de-pau, referindo-se a um apito que vinha da direita. E aquele lá, está ouvindo? Buzina! Buzina de assoprar com a boca. É o que usam nas escunas. Cuidado, mestre escuneiro! O inferno está com vontade de comer gente hoje...
O invisível ferry-boat apitava com furor e a buzina da escuna respondia com desespero.
— Estão agora trocando cumprimentos e explicações, disse o homem logo que a fúria dos avisos cessou.
Seus olhos enchiam-se do brilho da excitação à medida que me ia traduzindo em língua de gente a fala daqueles instrumentos de fazer barulho no mar.
— Ouça! Aquilo é sinal para evolução à esquerda... E este acolá, com voz de sapo, é grito de escuna a vapor que forceja contra a maré.
Um assovio fino e esganiçado rompeu à frente. Os gongos do "Martinez" soaram, fazendo as rodas propulsoras afrouxarem o andamento, que só foi retomado quando aquele trilar de grilo entre feras rugidoras se sumiu ao longe. Olhei para o meu homem, à espera de interpretação.
— Lancha, disse ele. Dessas endemoninhadas lanchas que só mesmo a gente metendo-as a pique. Umas pestes que vivem a causar trapalhadas. Qualquer imbecil julga-se no direito de meter-se nelas e sulcar as águas apitando com impertinência para que o mundo inteiro saiba que tais pulgas existem. E é preciso levá-las em conta. Estão no uso dum direito — direito de caminho pela superfície das águas. Direito, ah, ah!
Diverti-me com a cólera do homem e, enquanto ele andava de cá para lá, manquitolando na sua perna-de-pau, pus-me a refletir no romantismo da bruma.
Romantismo, sim. É romântico o nevoeiro que tudo envolve com o seu manto cinzento, de passo que os homens — meros átomos — blasfemam nos corcéis de aço flutuantes através do Mistério, às cegas dentro do Invisível, com palavras de confiança na boca e a incerteza e o medo nos corações.
A voz do meu companheiro fez-me voltar à realidade e sorrir. Eu também havia devaneado às tontas e às cegas dentro do mistério, julgando seguir caminho seguro.
— Olá! dizia ele. Vem algo ao nosso encontro, está ouvindo? Vemrápido e em linha reta. Juro que não nos percebeu ainda. Não ouve a nossa sereia. O vento está a nosso favor.
A brisa fresca soprava de frente, e pude ouvir bem nítido o silvo a que o meu homem se referia.
— Ferry-boat? perguntei.
O homem fez sinal que sim com a cabeça; e acrescentou: "Do contrário não viria nessa marcha". E com uma risada nervosa: "Estão assustados, lá em cima..."
Olhei para a casa do piloto. O capitão, com a cabeça e ombros de fora, cravava fixamente os olhos no nevoeiro, como tentando devassá-lo à força. Suas feições mostravam ansiedade — a mesma que vi no rosto do meu companheiro, agora de bruços na amurada e também com os olhos presos no perigo invisível que se ocultava dentro da névoa.
E o que tinha de dar-se, deu-se com incrível rapidez. Rompido por uma cunha, o nevoeiro mostrou a proa dum vapor a emergir franjado de espuma na linha d'água, com os bigodes dum Leviatã. Pude ver a casa do piloto, com um homem de barbas brancas assomado a uma das janelas; trajava uniforme azul, e lembro-me da impressão de calma que me deu.
Era terrível aquela calma em tais circunstâncias. O homem aceitava o seu destino, avançava de mãos dadas com ele, a medir friamente o choque. Seu olhar inquisitivo fixava-se no "Martinez" como para determinar o ponto exato da colisão — e em nada se alterou quando o nosso piloto, branco de raiva, berrou-lhe: "Foi você o culpado!". 
A observação era por demais óbvia para tomar necessária qualquer resposta.
— Agarre-se no que puder e agüente-se! gritou-me o homem da perna-de-pau. Notei que a sua arrogância se dissipara e que parecia contagiado pela calma anormal do homem de barbas brancas. "E veja como as mulheres gritam", prosseguiu ele sombriamente, quase com amargura, fazendo-me crer que já havia passado por situações iguais àquela.
Os dois navios chocaram-se antes que eu pudesse seguir o seu conselho. O impacto devia ter sido no meio do "Martinez", que tombou violentamente por entre estrondos do madeirame. Fuilançado de bruços sobre o convés alagado, e antes que pudesse erguer-me vi-me tonto pela gritaria das mulheres. Foi isso — esse indescritível e arrepiante uivo de pânico o que mais me apavorou. Lembrei-me do salva-vidas do meu camarote. Corri para lá. Ao alcançar a porta fui varrido por uma onda selvagem de criaturas em disparada. Não me recordo do que sucedeu logo depois, a não ser o avanço no sortimento de salva-vidas, com o homem de perna-de-pau a atar os que podia à cintura dum bando histérico de mulheres. A memória dessa cena é mais nítida do que a de qualquer outra que me haja passado sob os olhos. Ainda hoje vejo o quadro: o rombo numa cabina, através do qual a névoa revoluteava em turbilhão; divãs e poltronas esvaziados de súbito e com todos os sinais do "estouro— pacotes, bolsas, guardachuvas, capas largados ali; o alentado sujeito da Atlantic, engastado num salva-vidas e ainda com a revista na mão, a perguntar-me com insistência se havia perigo; o meu companheiro da perna-de-pau a mancar por toda partemuito seguro de si na tarefa de distribuir salva-vidas a quantos apareciam, e, finalmente, a inferneira louca do mulherio apavorado.

à venda nos usuais amiguinhos da martin claret: fnac, martins fontes, galileu,sicilianosaraivaculturasubmarinotravessaamericanasleiturada vinci,cortez etc., todos eles solidariamente responsáveis com o editor responsável pela fraude, de acordo com o art. 104, capítulo II, título VII da lei 9.610/98.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagens: london.sonoma.edu; adrianapeliano.blogspot.com; missoavancine.blogspot.com; portugues.istockphoto.com



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espero que a editora, quando lançar o texto legítimo, recolha o texto fraudado que está em circulação e faça um recall junto aos leitores que têm comprado tantos milhares de exemplares da edição espúria, em sucessivas reedições desde 1998. 


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