9 de mar de 2012

crime e castigo no brasil

alguma hora valeria a pena fazer um histórico de dostoiévski no brasil. para começar, uma trajetória bizarra e sinuosa é a de crime e castigo. eis o que comecei a reconstituir:

I.
por volta dos anos 1920, segundo brito broca, sai a primeira tradução brasileira, por provável interposição do francês, feita por fernão neves (pseudônimo de fernando nery), pela livraria castilho. não tenho notícia de qualquer reedição. no final de dezembro de 1925, o jornal a manhã inicia a publicação seriada da obra em sua seção de folhetim, em tradução de câmara lima.

II.
em 1930, a editora americana lança uma tradução em nome de ivan petrovitch (curioso homônimo de pelo menos dois personagens de dostoiévski e do famoso ator de cinema dos anos 1920 e 30), com projeto gráfico da capa feito por di cavalcanti. desta edição tampouco tive qualquer outra notícia. [atualização: cópia da de câmara lima]



III.
em 1936, sai outra tradução pela editora pongetti, feita por jorge jobinsky e revista por aurélio pinheiro - jobinsky e pinheiro eram ambos tradutores do inglês para a pongetti; ademais, como o nome do autor vem grafado como theodore dostoiewsky, talvez fosse uma tradução por interposição do inglês [tudo errado; caí feito uma patinha; jobinsky não existe; é nome inventado, e essa tradução é cópia da americana, que por sua vez era cópia da portuguesa de câmara lima] essa tradução de jobinsky tem segunda edição em 1939.

por outro lado, não se pode excluir a hipótese de ser essa edição da pongetti uma retomada da edição da americana, de 1930, em vista do frequente hábito da pongetti em se apropriar de traduções de outras editoras, em especial da guanabara (que adquirira o catálogo da americana alguns anos antes).

mais tarde, em 1944, sai como teodoro dostoievsky, com destaque na capa: "tradução revista por marques rebêlo" e não mais aurélio pinheiro.













em 1960, ainda pela pongetti, a tradução aparece revista por luiz cláudio de castro:



e assim vai para a ediouro, onde permanece até hoje, sem nome de tradutor, com revisão e um dito cotejo com o russo de luiz cláudio de castro, mas indicando ser uma licença da pongetti:


por outro lado, quando a coleção biblioteca da folha publica uma edição dessa obra, em 1998, luiz cláudio de castro passa a constar na capa como se fosse o autor da tradução:




IV.
também em 1936, sai pela guanabara (cuja razão social completa era guanabara, waissmann, koogan ltda.) uma tradução sem os créditos ao tradutor, especificando apenas que fora revista por elias davidovich. também não deixou rastros. como a guanabara adquiriu o catálogo literário da americana, não duvido muito que se tratasse daquela edição de 1930 em nome daquele implausível "ivan petrovitch", acima citada: [atualização: bingo]

















resumindo, brito broca comenta que a tradução de fernão neves (c.1920) era em "estilo meio precioso", provavelmente pelo francês; depois menciona que nos anos 30 andaram saindo umas traduções horrorosas de autores russos, dando como exemplo o caso de crime e castigo (tradução mutilada, "numa língua tão má que tornava até incompreensíveis certos trechos da obra", mas sem especificar se se se referia à de "ivan petrovitch", à de jobinsky ou à revista por davidovich).


V.
em 1949 sai a celebrada tradução de rosário fusco, por interposição do francês e do espanhol, na coleção fogos cruzados, pela editora josé olympio:

Livro Crime E Castigo - Dostoievski - 2° Volume - 1949



essa tradução teve constantes reedições ao longo das décadas, e em 2010 a clássicos abril a lançou em dois volumes:




VI.
em 1963, sai a tradução de natália nunes (consta também o nome de oscar mendes, mas tenho lá minhas dúvidas se participou efetivamente do trabalho de tradução: acho mais provável que tenha feito basicamente a adaptação brasileira do português lusitano de natália nunes), por interposição do espanhol, pela aguilar, no vol. II de sua edição da obra completa de dostoiévski:

Capa

essa tradução tem sido constantemente reeditada pela nova aguilar, com licenciamento para a abril cultural, a nova cultural e, em data mais recente, a l&pm:




VII.
finalmente, em 2001 sai a primeira tradução feita diretamente do russo por paulo bezerra, pela editora 34:




VIII.
pela editora martin claret, ressurge em 2002 o tal ivan petrovitch, agora acompanhado de uma misteriosíssima "irina wisnik ribeiro":




[sem contar as adaptações e condensações, como as de marcos rey, 1959 (alarico), e de carlos heitor cony, 1971 (tecnoprint/ ediouro)]

não corri atrás de todas essas traduções; tenho as de rosário fusco, de natália nunes e de paulo bezerra. mas encontrei algo interessante na internet: os parágrafos iniciais de "ivan petrovitch" e "irina wisnik ribeiro". são eles:
Em uma noite de um início de julho, excessivamente quente, um rapaz saiu do quarto que ocupava na água-furtada de um grande prédio de cinco andares na travessa de S... e vagarosamente, com ar irresoluto, tomou o caminho da ponte de K... 
Teve a boa sorte de não encontrar na escada a senhoria, que morava no andar inferior. A cozinha, cuja porta estava quase sempre aberta, dava para a escada. Toda vez que o rapaz saía, era obrigado a passar por ali, o que fazia experimentar uma forte sensação de covardia, que o humilhava e o fazia franzir o sobrolho. Devia uma soma importante à senhoria e receava encontrá-la. Não que fosse covarde e tímido; pelo contrário. Mas havia algum tempo que ele se achava em um estado de excitação nervosa, vizinho da hipocondria.
o que há de interessante nesses parágrafos iniciais da edição claretiana que ressuscita "ivan petrovitch" e lhe oferece a misteriosa companhia da dita "irina wisnik" - tirando a menção à "noite", que não se encontra em lugar nenhum (pois a cena se passa de tarde) - é a alteração da ordem do texto e a eliminação de uma frase, procedimento absolutamente idêntico ao que se vê na tradução que saíra de início em nome de jorge jobinsky, revista por aurélio pinheiro (1936), por marques rebêllo (1944) e enfim por luiz cláudio de castro (1960 até o presente).

independentemente do nível lexical e das variações vocabulares, o que acontece é que a descrição "um grande prédio de cinco andares" pertence, em verdade, ao segundo parágrafo, onde o cubículo no qual mora raskolnikov é comparado a um armário, de tão pequeno que é. tanto a tradução em nome de ivan petrovitch e irina wisnik quanto a tradução revista por (e depois atribuída a) luiz cláudio apresentam absoluta coincidência neste aspecto, eliminando a frase do segundo parágrafo, transferindo a menção ao edifício de cinco andares para o primeiro parágrafo e simplesmente excluindo o restante da frase, com a analogia entre o quartinho e um guarda-roupa.

sinto muita dificuldade em acreditar em coincidências, ainda mais tão coincidentes, e é por isso que, além de outras razões, tenho o palpite de que a tradução de 1930 (apócrifa, pois quem há de acreditar que seria feita por um fortuito xará do narrador-personagem de humilhados e ofendidos? ou mesmo do ivan petrovitch ptitsin de o idiota?) é a que anda por aí até hoje, sob vários nomes, tendo passado ao longo das décadas pelas mais promíscuas manipulações.

finalizando: para uma comparação do parágrafo inicial em quatro traduções - rosário fusco, natália nunes, luiz cláudio de  castro (na verdade apenas revista por ele) e paulo bezerra - vale a pena ver o artigo de alfredo monte, aqui.

e, se alguém me perguntar, já antecipo a resposta: estou satisfeita com as traduções que tenho em casa (fusco, nunes e bezerra). as outras navegam em águas turvas demais para o meu gosto.

atualização: graças a uma indicação preciosa de eduardo sterzi, cheguei à tese de bruno gomide, "da estepe à caatinga: o romance russo no brasil (1887-1936)", disponível aqui, e procedi a algumas retificações nos dados bibliográficos, sobretudo na edição da guanabara (revisão, e não tradução, de elias davidovich).

acompanhe a pesquisa sobre as traduções de dostoiévski no brasil aqui.

18 comentários:

  1. Crime não sabemos se há mas parece que certas edições são um castigo de ler...

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  2. Querida, involuntariamente você foi responsável por uma agradável reminiscência. Bati o olho na capa da edição de 1960, aquela lá em cima, com uma cúpula do Kremlin e me lembrei, ou melhor, revivi imediatamente a edição que li na juventude. Muito obrigada por essa oportunidade. Tenho aqui em casa a do Paulo Bezerra, que está esperando uma brechinha para ser lida. Esse foi o grande romance da minha vida. Inesquecível.

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  3. jura, querida ivone? que encanto!

    haha, raquel, bem posto!

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    1. Anônimo23.1.16

      Que fato mais proustiano, não é mesmo? Rsrs

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  4. Oi, Denise.

    Estou lendo Crime e Castigo pela tradução do Oleg Almeida, que saiu pela Martin Claret.
    Você já teve acesso a essa tradução? Se sim, o que achou do trabalho do tradutor?
    Sou leigo, mas estou curioso a respeito. Desde já agradeço.
    Um abraço!

    Raphael

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    1. olá, raphael, não li não. mas oleg de almeida é profissional sério e conhecedor de russo, o que me faz supor que é uma boa tradução.

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    2. Obrigado pela pronta resposta, Denise. Eu estou gostando muito do livro! Muito mesmo! Mas algumas passagens me parecem textualmente confusas, ainda que inteligíveis. Como é o meu primeiro contato com o autor, então posso não estar familiarizado. Além do que, logo ao início do texto há um alerta que pode servir a esta minha impressão: "A presente tradução procurou aproximar-se o quanto possível do original russo, visando transpor para o português suas construções por vezes truncadas, corruptelas lexicais, assim como o valor estético de sua composição, de modo a preservar em nosso idioma a estrutura singular da prosa de Dostoiévski, em particular aquele estranhamento característico que ela pode causar."
      Aproveito para dizer que o seu blog foi para mim uma feliz descoberta e que vou passar a utilizá-lo como guia de leitura e como orientação na escolha das edições que lerei. Muito obrigado.
      Um abraço!

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    3. sim, raphael, parece que a rispidez, até mesmo a tosquidão de algumas passagens de dostoiévski compõem seu estilo. sei que paulo bezerra, que tem traduzido várias obras suas, também procura resgatar essa prosa mais áspera, mais coloquial, que nos escapava nas traduções anteriores, mais "arredondadas" e "polidas" até por serem traduções indireta, feitas com a interposição de traduções para o francês ou inglês.

      que bom, fico feliz que esteja apreciando a leitura, e obrigada pela gentileza.
      denise

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    4. Anônimo6.11.14

      Tenho as duas traduções diretas do russo, a de Bezerra e a de Oleg. Basicamente: as duas dizem a mesma coisa, exatamente a mesma coisa. Não há disparidades. A informação é a mesma, os parágrafos apresentam o mesmo conteúdo. Algumas equívocos ocorrem: um diz que o rubor de um personagem assemelha-se ao de u tomate; o outro, ao de uma tulipa. Um diz que o protagonista chegará às 7 horas na casa da senhoria; o outro, às 8. Um diz que o prisioneiro já se encontra há 2 meses preso na Sibéria; o outro, a nove...
      Mas para ser franco, não acho que isso mude muita coisa, visto que não leio o russo e jamais terei certeza de qual delas está correta.

      Já as edições vindas do francês, são tenebrosas.

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  5. Será dentro de instantes, meu 1º contato com o autor. Assim como o caro Raphael Chaves, escolhi a tradução de Oleg Almeida. Mas, confesso que estou com um certo receio por não ter optado pela tradução de Paulo Bezerra.

    A esta altura, já existe uma análise mais detalhada dessa nova edição da Martin Claret?

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  6. Prezado Jucier,
    Não é totalmente correto, a meu ver, questionar se a tradução de Fulano é melhor ou pior que a de Beltrano ou Sicrano. A própria teoria da tradução literária admite que possa existir um número indeterminado de traduções da mesma obra de ficção, sem que uma dessas traduções seja semelhante a qualquer outra. Quanto a mim, tentei apenas reproduzir adequadamente o original de Dostoiévski, usando para tanto todos os recursos disponíveis da língua portuguesa, como se estivesse ensinando o próprio autor a falar português. Espero que, sendo o russo meu idioma materno, tenha conseguido realizar essa tarefa, pelo menos em parte. Se quiser saber mais a respeito dessa tradução minha, procure, por gentileza, a entrevista especial que gravei recentemente para o Canal Universitário de Brasília.
    Tudo de bom,
    Oleg Almeida.

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  7. Oleg Almeida você simplesmente tirou todas as dúvidas quanto aos medos do pessoal, você REALMENTE existe. ;] (vide reputação anterior da Martin Claret).

    Abraços.

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    1. Bom dia Oleg; ontem assisti o primeiro programa de "Literatura fundamental", quando então a professora de literatura Russa da USP afirma desconhecer a obra em outras traduções que não seja a de Paulo Bezerra; poderia comentar ou devo considerar o comentário já exposto?

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    2. Bom dia. Ela não diz desconhecer, diz que a de paulo bezerre, até aquele momento era a única traduçao direta do russo para o português. O vídeo referido data de 03/07/2013, e a tradução do Oleg saiu também em 2013. Das duas, uma: ou a publicação foi posterior a gravação do vídeo, ou a professora não teve acesso ao novo texto. Eu tenho a traduçao do Oleg.

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  8. Anônimo14.12.14

    "Não é totalmente correto, a meu ver, questionar se a tradução de Fulano é melhor ou pior que a de Beltrano ou Sicrano."

    Engraçado (mas, ao mesmo tempo, previsível) ouvir isso de um tradutor profissional. (Se quisermos entrar em discussões inúteis, chegaremos à conclusão de que é impossível comprovar, justificar em termos "científicos", quaisquer juízos de valor; no entanto, como se sabe, sempre se fazem julgamentos a respeito de traduções -- vide a discussão em torno das três traduções brasileiras de Ulisses.) Mas enfim, estou lendo Demônios (ou Possessos, em algumas traduções), de Dostoiesvsky, pela tradução em inglês de Richard Pevear e Larissa Volokhonsky (Knopf). Tenho também a tradução do Paulo Bezerra (Ed. 34). As duas são BASTANTE parecidas. Isto chega a ser suspeito visto que todas as notas explicativas (todas, repita-se) que constam na edição em inglês constam, também, na em português.

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  9. Anônimo2.6.15

    Vou comprar agora a do Paulo Bezerra para ler. Estou ansisoso para continuar mergulhando neste autor fenomenal do qual li apenas uma obra e que achei absolutamente magistral: Irmãos Karamazov. Ricardo/RS

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  10. Saulo von Randow Júnior27.6.16

    Denise,

    Aparentemente, as traduções de "Ivan Petrovitch" e "Irina Wisnik Ribeiro" são um plágio da tradução de Câmara Lima feita para o Jornal A Manhã (RJ), na qual o primeiro parágrafo é quase idêntico aos apresentados por você e onde aparece a tal da "noite" :

    http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=116408&pasta=ano%20192&pesq=C%C3%A2mara%20Lima

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  11. saulo, que fabuloso! vou rastrear se isso vem desde a bendita edição pela americana, em 1930, em nome de "ivan petrovitch". fabuloso mesmo, obrigada!

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