25/02/2012

mrs. dalloway



hoje, o prosa&verso do jornal o globo publicou uma ótima matéria sobre as novas traduções de mrs. dalloway. a íntegra da minha resposta à jornalista foi a seguinte:


A primeira e única versão de Mrs. Dalloway é de 1946 e foi traduzida por Mário Quintana. Qual a importância de Mrs. Dalloway ganhar uma nova tradução?

            Há vários aspectos. O primeiro, e mais genérico, é que toda tradução autoral tem a marca pessoal do tradutor. O segundo, diretamente relacionado a esse primeiro aspecto, é que cada tradução vem muito marcada por sua época: toda tradução é, por definição, mais datada do que a obra original. Assim, é não só natural, mas desejável que periodicamente se renovem as traduções das principais obras do chamado cânone literário ocidental. Em terceiro lugar, e mais especificamente, há uma questão peculiar nessa tradução do Quintana: considero-a muito boa, e até admirável sob diversos ângulos. Há nela, porém, uma leve tendência de arredondar um pouco o texto. A modernidade de Woolf - as invenções estilísticas no plano da escrita e mesmo alguns recursos narrativos utilizados no texto – às vezes parece um pouco atenuada: penso na função muito peculiar da pontuação, na incansável repetição de termos que funcionam como marcadores não só do texto, como também do fluxo mental dos personagens, na estruturação sintática, no uso de uma linguagem muito, muito simples, mas ao mesmo tempo com uma grande elaboração das frases.
            Veja um exemplo que acho bonitinho – há lá a certa altura, falando de Septimus, quando se mudou para Londres: “... there were experiences, again experiences, such as change a face in two years from a pink innocent oval to a face lean, contracted, hostile.” Você nota nos dois blocos de adjetivos como o uso das vírgulas é quase icônico, figurativo? Em pink innocent oval, os adjetivos correm, fluem como se quisessem mostrar como era liso, sem marcas, o rosto do jovem; então vem lean, contracted, hostile (que contraste, como pisa duro!), como se as vírgulas mimetizassem as marcas da experiência. Ninguém há de crer que isso seja por acaso; é de uma grande deliberação, e esse uso da pontuação como uma espécie de encenação visual e emocional desempenha uma função muito interessante em todo o texto, que entendo que deva ser mantida na tradução.
            Ela levou três anos para escrever Mrs. Dalloway: um polimento constante, um esforço incessante em reproduzir no plano da linguagem o discurso mental e mesmo o tropel emocional que avassala os personagens. Não foi fácil. Então, digamos, a tradução do Quintana - que, repito, acho muito boa - se depara com esse "modernismo" dela e, em alguns momentos, prefere contorná-lo. A tradução resultante causa menos estranheza ao leitor – ainda mais pensando no leitor médio dos anos 40. Mas isso significa que, para nós, uma obra que fazia parte da grande onda de renovação literária das primeiras décadas do século XX chegou vazada numa escrita um pouco mais convencional, que não incorporava plenamente alguns de seus aspectos mais inovadores.  Mas também é claro que, setenta anos depois da tradução de Quintana e noventa anos depois do lançamento do original (estou arredondando as décadas), uma tradução mais respeitosa da letra do texto, mais atenta àquilo que era inovador naqueles tempos não vai despertar no leitor contemporâneo – que hoje em dia tem quase um estômago de avestruz – a surpresa que poderia ter despertado no passado. 

a matéria está aqui.


15 comentários:

  1. Fabrizio Lyra25.2.12

    Perfeito seu comentário, Denise, especialmente no que diz respeito a importância de se renovarem as traduções, questão que coloquei tantas vezes aqui pois passei a ter percepção disso há poucos anos atrás. Antes, se já tinha uma boa tradução antiga de um grande texto, não comprava a nova. Hoje, verificada a qualidade do tradutor, faço questão de comprar. E, quando não tenho a obra e vejo uma tradução antiga e outra moderna, mesmo considerando a excelência da tradução do passado, prefiro a moderna, se obtenho dados sobre o tradutor que me garantem a qualidade do seu trabalho. Por isso espero com ansiedade sua tradução de Mrs.Dalloway chegar às livrarias (creio que já chegou, mas nas que frequento ainda não vi um exemplar). Creio que muitas das grandes obras literárias que tiveram excelentes tradutores em passado distante não têm suas traduções renovadas por falta dessa consciência da necessidade de novas e mais atualizadas versões do texto original. E até editoras muito sérias ainda estão com essa prática de colocarem traduções antigas em vez de encomendar uma nova. Não sei se por falta de tradutores bons no mercado, por questões financeiras ou outro motivo. Como não sou profissional do ramo, desconheço quais possam ser as razões. Comentei uma vez com um aluno de letras da USP porque editoras de prestígio ainda estavam lançando antigas traduções indiretas do russo já que existem tantos grandes tradutores dessa lingua atualmente. Ele me esclareceu que ainda são poucos os tradutores de linguas menos difundidas mundialmente como russo, sueco, alemão, entre outras, mas que, com o tempo, isso iria se resolver pois está havendo uma exigência cada vez maior do mercado editorial sobre traduções diretas. Mas isso também é uma dúvida que, como leitor, ainda tenho. E como você muito bem coloca: "toda tradução é, por definição, mais datada do que a obra original. Assim, é não só natural, mas desejável que periodicamente se renovem as traduções das principais obras do chamado cânone literário ocidental."

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  2. Meus deus! Woolf virou domínio público, que maravilha!!! Mas desde quando isso, Denise? Como é a regra mesmo? "Setenta anos depois da morte do autor ou logo após a morte do último neto".

    E a Cosac aumentando a coleção Mulheres Modernistas, hein? Haja estampa de tapete pra se forjar aquelas capas duras maravilhosas!

    bjones!!

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  3. olá, fabrizio, pois é, vc sempre comenta, mesmo. a loucura é quando tem tipos quinze traduções do mesmo livro, mais por concorrência entre as editoras do que por interesse literário mesmo.
    minha tradução deve sair em abril. eu tinha sugerido a inclusão de alguns materiais extra, como a introdução de VW para a edição americana de 1928 (único texto dela sobre uma obra sua!), um mapinha das andanças dela e de septimus, no final um miniglossário com algumas referências mais obscuras para o leitor brasileiro contemporâneo.vamos ver, talvez não dê - seria uma pena, porém...

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  4. ola´, amiguinho: é, DP sim, ótimo, né? vai ser um festival! sim, 70 anos após a morte do autor, começando a valer desde o dia 01 de janeiro do ano subsequente, dunque... desde 01/01/12.

    ai, que maldade, capa de tapete ;-))

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  5. Denise, há tempos queria ler um conto chamado "A Worn Path" da Eudora Welty, que nunca foi traduzido para o português. Sabe, dou preferência a ler traduções porque é como receber o dobro de arte, nem sempre me animo com originais. Ou seja: desta vez fui obrigado a traduzir o conto. Acho que é a primeira vez que traduzo um trabalho de ficção. E não li antes, fui traduzindo enquanto fui lendo, o que é uma sensação aterrorizantemente deliciosa... é como andar numa casa abandonada e cada frase que você entra você nunca sabe qual vai ter o fantasma, qual delas vai ter a reviravolta!
    Está aí:

    http://umcaminhousado.blogspot.com/

    fique livre para críticas imediatas, porque amadorismo é foda né hahaha.

    axé!

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  6. olá, caríssimo: "E não li antes, fui traduzindo enquanto fui lendo, o que é uma sensação aterrorizantemente deliciosa... é como andar numa casa abandonada e cada frase que você entra você nunca sabe qual vai ter o fantasma, qual delas vai ter a reviravolta!" - perfeito! que legal, vou lá!

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  7. Olá, Denise!

    A tradução sairá por qual editora?

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  8. Bom eu sempre copiava de um blog mais em todos postagens eu botava creditos mais recebi uma mensagem do dono pdindo para trar pq se nao ele ia tomar previdensias ele pode pq ate o r7 o g1 bota creditos e nao acontece nada, so quero saber obrigado meu blog e o http://sitepapodeserie.blogspot.com/ e as postages eu eu copiei to tirando tudo com medo de perde meu blog

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  9. Anônimo28.2.12

    denise, não entendi bem o seu texto. Maiúsculas no início dos parágrafos e depois dos pontos...onde anda seu estilo tão mais leve e interessante?
    abraço
    zeca

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  10. e obrigada por considerar meu estilo "tão mais leve e interessante" :-))

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    1. Anônimo3.3.12

      denise,eu suponho que vc escreveu daquela forma porque se trata de uma correspondência formal, diferente do blog, onde esse estilo sem maiúsculas desliza suavemente. eu tento escrever assim e tenho leitores que não me entendem (ou nem querem fazer o mínimo esforço nesse sentido. mas é difícil manter a escrita com minúsculas todo o tempo por causa das cicratizes do modo formal de escrever.um dia chegaremos lá. parece que o meio define mesmo o modo da escrita, a tela do meu celular contém abrevs e uma expressão muito comum: "iskeçí como siscrev". abraço
      zeca

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  11. Oi, Denise, já há previsã para sua tradução? Saiu uma outra agora, do Tomaz Tadeu, e a comparação seria instigante.
    Abração.

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  12. olá, alfredo, a l&pm está programando para lançar em abril. a do cláudio deve sair pela cosac tb em abril.

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