13 de fev de 2012

a lagarta muito grávida



Diz Darwin, a certa altura da Origin of Species (cap. VIII, sobre o instinto), que, se a gente pega uma lagarta que já fez seu casulo até, digamos, a sexta etapa e põe o bichinho num casulo feito até a terceira etapa, ele vai e retoma o trabalho desde a quarta etapa. Mas que, se você pega uma lagarta que ainda está construindo a terceira fase de seu casulinho e põe num envoltório que esteja construído até a sexta fase, ela se atrapalha toda, fica meio desorientada - much embarrassed, diz Darwin - e se põe a refazer o trabalho que já está pronto.
... Huber found it was with a caterpillar, which makes a very complicated hammock; for if he took a caterpillar which had completed its hammock up to, say, the sixth stage of construction, and put it into a hammock completed up only to the third stage, the caterpillar simply re-performed the fourth, fifth, and sixth stages of construction. If, however, a caterpillar were taken out of a hammock made up, for instance, to the third stage, and were put into one finished up to the sixth stage, so that much of its work was already done for it, far from deriving any benefit from this, it was much embarrassed, and, in order to complete its hammock, seemed forced to start from the third stage, where it had left off, and thus tried to complete the already finished work.
... Huber observou que assim ocorria numa lagarta que faz uma coberta, a modo de rede complicadíssima; pois diz que, quando pegava uma lagarta que tinha terminado sua coberta, suponhamos, até o sexto período da construção, e a punha numa coberta feita até o terceiro, a lagarta voltava simplesmente a repetir os períodos quarto, quinto e sexto; mas se pegava uma lagarta de uma coberta feita, por exemplo, até o período terceiro, e se punha numa feita até o sexto, de maneira que muito da obra estivesse já executado, longe de tirar disso algum benefício, via-se muito grávida e, para completar sua coberta, parecia obrigada a começar desde o período terceiro, onde tinha deixado seu trabalho, e deste modo tentava completar a obra já finda. (A origem das espécies, pág. 222)
A fonte da prenhez da lagarta só podia ser o espanhol (embarazada) - não foi difícil localizar: trata-se de uma tradução de 1921, feita pelo biólogo Antonio de Zulueta, disponível aqui:
Huber observó que así ocurría en una oruga que hace una cubierta, a modo de hamaca complicadísima; pues dice que, cuando cogía una oruga que había terminado su cubierta, supongamos, hasta el sexto período de la construcción, y la ponía en una cubierta hecha sólo hasta el tercero, la oruga volvía simplemente a repetir los períodos cuarto, quinto y sexto; pero si se cogía una oruga de una cubierta hecha, por ejemplo, hasta el período tercero, y se la ponía una hecha hasta el sexto, de modo que mucho de la obra estuviese ya ejecutado, lejos de sacar de esto algún beneficio, se veía muy embarazada, y, para completar su cubierta, parecía obligada a comenzar desde el período tercero, donde había dejado su trabajo, y de este modo intentaba completar la obra ya terminada.

E é essa "lagarta muito grávida" que a Escala está oferecendo às 2.700 bibliotecas públicas inscritas no Cadastro Nacional do Livro de Baixo Preço?

Agradeço a Marcos Gomes por essa história do mais autêntico rir-para-não-chorar.


imagem: lagartas e casulos

17 comentários:

  1. Anônimo13.2.12

    Não entendi a colega agindo como a imprensa ignorante que pinça um erro para ridicularizar uma tradução. Ainda que a tradução seja péssima, não é com esse tom de deboche que se critica coisa nenhuma. Lamentável. Eu que já indiquei este blog a outras pessoas neste momento estou morrendo de vergonha.

    ResponderExcluir
  2. Anônimo, esse não foi exatamente um errinho, mas justificaria a retirada do livro do mercado e a reimpressão.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Maria José Perillo Isaac14.2.12

      Ora bolas, Anônimo, se quer protestar mostre a sua cara! Não se trata de um "errinho". É um erro muito grosseiro, não só no que diz respeito à tradução de um falso cognato, mas também quanto às ciências biológicas.Uma lagarta, por não se tratar de um mamífero, não jamais poderia estar grávida. Além disso, uma tradução efetuada por via indireta vai dando continuidade a erros como esse.

      Excluir
  3. olá, maria lucia, exato, não é um errinho, ainda mais numa coleção que se pretende didática.

    anônimo, este blog jamais fez a defesa corporativista de interesses de categoria. de minha parte, o que me faz morrer de vergonha é que nossos alunos fiquem submetidos a tanta ganância de algumas editoras, que são incapazes de fornecer traduções minimamente prestáveis; o que julgo um deboche e um escárnio é que editoras "educacionais" impinjam coisas deste quilate a nossas bibliotecas públicas; o que me parece lamentável é a existência desse pacto da mediocridade no setor. dispenso o tratamento de "colega" se isso envolve alguma suposição de que eu venha algum dia a defender o acochambro e a má qualidade de edições, ainda mais para nossa rede pública de ensino e leitura. e sinta-se à vontade para desindicar este blog a qualquer momento.

    ResponderExcluir
  4. isso, maria josé: alguém supor que uma lagarta seja capaz de ficar grávida (e muito grávida) é realmente espantoso. e me admira que isso possa ser considerado um errinho, que permanecerá por dezenos de anos nas estantes de 2.700 bibliotecas de norte a sul do país, sendo lido por centenas de milhares de estudantes e consulentes das comunidades locais. naturalmente espero que a editora já tenha se dado conta da barbaridade e tenha tomado suas providências - pois se trata de uma edição de 2008, mas mesmo assim é inconcebível que, em primeiro lugar, isso tenha passado assim.

    ResponderExcluir
  5. Denise, você tem toda razão. É o tipo de erro cretino inadmissível.
    Quero ponderar com você, entretanto, algumas coisas.
    Em primeiro lugar, o livro não vai necessariamente para todas as bibliotecas. Depende das bibliotecárias o escolherem. Certamente o risco de que seja escolhido por várias é grande, mas a diversidade da oferta joga contra concentração de qualquer título.
    Devo dizer também que participei de algumas discussões na formatação do Programa do Livro Popular, que apoio e acho um passo importante para acabar com as listas feitas por sábios que não sabem quais são as necessidades das bibliotecas. Mas chamei atenção para os problemas que poderiam surgir: os plágios e falsificações da Martin Claret e questões de qualidade dos livros. Sugeri que houvesse a possibilidade de que, ao lado da lista, fosse aberto um espaço de críticas, resenhas e comentários de leitores, pesquisadores, professores, bibliotecários. Enfim, todo mundo que conhecesse aqueles livros, para elogiar e para esculhambar (em alguns casos é preciso usar um adjetivo forte mesmo). Os condicionamentos de tempo possivelmente impediram que isso seja feito, mas acredito que essas experiências da primeira tentativa serão consideradas nas próximas edições do programa. O Galeno Amorim fez uma aposta arriscada, desafiando "leiturólogos" na inversão do método de escolha dos livros que irão para as bibliotecas. Era sabido que problemas ocorreriam, como estão acontecendo. O importante, no caso, é realmente botar a boca no trombone para avisar bibliotecárias sobre os títulos problemáticos e chuchar a BN para melhorar os procedimentos daqui em diante. Mas, repito, deu-se um grande passo ao transferir para as bibliotecas, bibliotecárias e seus usuários o direito de escolher os livros que irão para lá.
    Um abraço

    Felipe Lindoso

    ResponderExcluir
  6. caro felipe, maravilhosas suas ponderações. estou meio exausta, amanhã volto com calma para comentar.

    ResponderExcluir
  7. Denise, como não gosto de ficar só reclamando,uma sugestão:
    Com a sua autoridade, mas com o apoio de quem conseguir, organizar uma nota para as bibliotecárias, sem paternalismo e sem agressividade, listando as obras com problemas na lista da BN. Bem objetiva. Se puder, até elogiando o programa (você é que sabe). Com essa nota, tentar conseguir o apoio das associação de bibliotecários - CRB/CFB, FEBAB, Sindicato dos bibliotecários, IFLA, para enviar o e-mail para elas, pedindo que não indiquem esses livros para compra.

    ResponderExcluir
  8. olá, felipe, concordo mil por cento com você que é um super avanço essa descentralização - faz anos que me manifesto sobre isso, e, quando sai volta e meia aquela caça às bruxas quando alguma escola joga fora livros, costumo apontar que o buraco é mais em baixo. cheguei a sugerir que pusessem nos conselhos nacionais do livro justamente professores e diretores de escolas carentes e com problemas de infraestrutura, para dar um pequeno banho de realidade nas políticas centralizadas e centralizadoras.

    por outro lado, é terrível largarem toda e qualquer responsabilidade pela idoneidade das obras - não digo qualidade, apenas a mais trivial e comezinha idoneidade, legalidade, da obra - para cada biblioteca e seu conselho de avaliação. esse filtro tem de ser o primeiro deles, para começo de conversa, e a fbn não pode abdicar deste papel. inscrição, só de obra legítima, que obedeça aos requisitos mínimos da lei, e ponto. não adianta só deixar umas clausulinhas no regulamento: se o cara é malandro, vc acha que ele vai declarar: "não, não tenho nada dessa documentação legal"??

    então a fbn tem de deixar de ser preguiçosa e exigir, sim, os documentos de lei. sem isso, fica esse descalabro que não acontece nos PNLL e sei lá mais quantos PN que tem. aí o CNLBP terá uma garantia mínima de estar oferecendo apenas livros dentro da mais banal, simples e trivial legalidade.

    cheguei a percorrer vários sites de biblioteconomia, bibliotecários etc., deixei comentários em vários deles, alguns repicaram e divulgaram - mas caramba!!! não cabe a mim fazer isso!!! já apontei, cansei de avisar a fbn, liguei não sei quantas vezes, avisei a imprensa, saiu matéria em alguns jornais, vou até onde me é possível... mas agora acho que cabe também um pouco a ela. gasto um tempão danado, uma quantidade de neurônios danada, um dinheirão com interurbanos, atraso meus cronogramas de trabalho correndo atrás disso, caramba, a fbn tem obrigação institucional de tomar alguma iniciativa mais concreta. e tem muitas pessoas sabendo, que, se julgarem pertinente, podem tb ter suas próprias iniciativas.
    de minha parte, estou esperando os resultados da tal comissão de apuração que a fbn montou para analisar minhas denúncias, e aguardo também a posição do ministério público federal.

    está tudo documentado aqui: http://naogostodeplagio.blogspot.com/search/label/FBN

    grande abraço, felipe, e fico aqui torcendo vivamente para que saia algo que preste desse melê absurdo.

    ResponderExcluir
  9. Anônimo17.2.12

    Há que se manter no mínimo a civilidade, o tom de deboche desta postagem é inaceitável. É um colega que deve ser respeitado como tal. E, por princípio, não se deve criticar uma tradução de 200.000 palavras com base em como uma palavra foi traduzida. Nenhum tradutor está livre do erro crasso.

    ResponderExcluir
  10. anônimo, estou meio cansada de pessoas que se apresentam anonimamente para vir fantasiar: não há deboche nenhum no post. o deboche - uma lagarta muito grávida - consta é no livro, e é um deboche contra o darwin e um deboche contra os leitores das redes públicas. quanto aos seus princípios, respeito-os; respeite os meus. jamais afirmei que tradutores são perfeitos: sou a primeira a anunciar os meus erros, alguns bem crassos, e aqui neste blog, bem como em outros blogs meu, publiquei vários deles.

    se vc não entendeu direito, estou falando aqui do programa da FBN para aquisição de livros populares, e criticando sobretudo a editora escala, com livros didáticos. e se vc não notou, tive o cuidado de não mencionar o nome do tradutor, pois a questão é outra.

    afora isso, reproduzo minha resposta a outro anônimo que também confundiu quem está debochando de quem: anônimo, este blog jamais fez a defesa corporativista de interesses de categoria. de minha parte, o que me faz morrer de vergonha é que nossos alunos fiquem submetidos a tanta ganância de algumas editoras, que são incapazes de fornecer traduções minimamente prestáveis; o que julgo um deboche e um escárnio é que editoras "educacionais" impinjam coisas deste quilate a nossas bibliotecas públicas; o que me parece lamentável é a existência desse pacto da mediocridade no setor. dispenso o tratamento de "colega" se isso envolve alguma suposição de que eu venha algum dia a defender o acochambro e a má qualidade de edições, ainda mais para nossa rede pública de ensino e leitura.

    e quanto à civilidade, até onde sei, a regra número 1 é se identificar. pratique-a.

    ResponderExcluir
  11. Caríssima Denise,

    Acompanho seu blog há muito tempo e hoje resolvi me manifestar. Discordo frontalmente do Anônimo; qualquer tradutor pode errar, é certo; mas esse erro invalida o trabalho inteiro! E concordo plenamente com Denise.
    Como tradutora, passei por situações inaceitáveis: recebi de um grande grupo corporativo ( que edita muitos e muitos e muitos livros paradidáticos e didáticos) 400 reais para traduzir um livro infanto-juvenil, que recomendei fervorosamente ao editor ( sim, porque eu fazia pareceres para esse grupo). Além de receber apenas isso, por um trabalho árduo, e anos de estudo da língua, vi meus esforços serem completamente desqualificados pelo editor, que me disse que minha tradução era "péssima" e que "seus revisores tinham tido trabalho de transformar completamente aquele texto ilegível".
    Passando por um momento de desemprego e fragilidade emocional, deixei a coisa passar. Pois bem. Dois anos depois minha tradução recebeu um prêmio.
    Recebi a notícia por carta. O editor não me telefonou e ninguém do grupo editorial me deu os parabéns.
    Só conto esta história para reforçar o que Denise diz: é inadmissível sermos coniventes com editoras que pagam nada para qualquer um ("afinal, traduzir é tão fácil, qualquer um traduz, hoje em dia até o Google Translator") para soltar qualquer coisa na mão de jovens e crianças em formação! Não, dois caríssimos anônimos: a lagarta não fica grávida, e o tradutor deve lutar pela qualidade de sua formação, de seu trabalho, de sua remuneração! Não à mediocridade! Não à picaretagem editorial! Não aos Anônimos e suas palavras pretensamente democráticas, mas que escondem escárnio pelo trabalho sério de Denise!

    ResponderExcluir
  12. prezada paula: muito obrigada. e parabéns por seu belo trabalho em várias frentes - ensino, pesquisa, divulgação - que vi pelo google e em seu blog.

    ResponderExcluir
  13. Obrigada, Denise! Estamos aqui, e faço minhas suas palavras, mais uma vez. Cometo muitos erros, e muitas vezes meu trabalho fica muito aquém do que almejo... mas sempre estudo, consulto colegas mais experientes, dicionários, reviro livros, para tentar me aprimorar em tradução. Apenas me ressinto da falta de cursos mais frequentes e acessíveis na área. Só desejo que eu, e os colegas espalhados por esse país, recebam formação, remuneração adequada, reconhecimento pelo esforço, aplauso merecido e puxão de orelha também, quando erramos.

    ResponderExcluir
  14. Anônimo22.2.12

    Escrever como anônimo é um recurso oferecido pelo seu blog. Espontaneamente. Como pode criticar alguém por usá-lo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. liberalidade não é passe livre para grosserias.

      Excluir
  15. hahaha! adoro esses anônimos!!

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.