31 de jan de 2012

puerilidades

Outro tipo de intervenção que, embora não tão absurdo quanto o puro e simples alopramento que comentei aqui, é aquele que troca seis por meia dúzia - ou melhor, em minha opinião, por três ou quatro.

Ainda no livro de John Boyne, na página seguinte, o narrador comenta que, no século XIX, imperícias médicas eram usuais no interior da Rússia, que volta e meia as mães morriam no parto, que não era coisa incomum na época. Mas: "Hoje, seria algo inesperado e motivo de ação judicial" (Today, it would be unexpected and worthy of litigation). Acho que está bom, correto, passa.

Saiu: "Hoje, seria algo inesperado e processo na certa". Parece meio gíria, um coloquial meio datado, mas vá lá - embora, a rigor, worthy esteja longe de assegurar a certeza de qualquer coisa, "processo na certa" até pode passar mais ou menos a ideia da coisa. Só que eu jamais traduziria assim e jamais forçaria a barra seja no coloquialismo, seja na taxatividade da afirmação.

Em suma, não me reconheço nisso. Foi uma miudeza boba e pueril da revisão, que acabou destoando do tom geral do livro, e é mais um exemplo de minhas razões para ficar com o pé atrás com esse tipo de intervenção.*

*No caso deste livro, parece que depois da segunda ou terceira página felizmente a revisão se cansou e não mexeu em mais nada.

10 comentários:

  1. Entendo perfeitamente como você se sente, Denise, e vou além - e quando o caso é realmente implicância pura e simples do revisor?

    Não vou dar nome aos bois para que a implicância não se reverta, mas o caso é que eu estava justamente relendo uma tradução que fiz há uns cinco anos para uma editora pequena de São Paulo, com cujo publisher vinha me entendendo muito bem. Vai daí, o publisher, assoberbado de trabalho, contrata um editor, um sujeito novo no mercado mas que tinha uma certa fama "indie" (vinha de um projeto editorial próprio). Num primeiro momento, não tivemos problema.

    Infelizmente a "lua-de-mel" durou pouco. Cada livro que traduzi sob a batuta desse editor foi incrivelmente problemático, justamente por essa questiúncula do seis-por-meia-dúzia. Era um traduzir "vindouro" e ele dizer: não, está errado, é "futuro". E eu replicava: olha, errado não está, eu estou seguindo a voz narrativa do autor. Se a opção da editora é por modernizar essa fala, então podemos conversar. E ele: "não, é erro mesmo." E por aí foi.

    Consegui traduzir quatro livros para o sujeito. O último foi uma comédia (ou teria sido tragédia?) de erros, que resultou na minha saída da editora. Mas depois o publisher veio se desculpar comigo, pois ficou sabendo que o dito editor andava querendo era colocar o ex-sócio como tradutor na editora também. E me ficou aqui a pergunta: precisava essa papagaiada toda, ora pipocas???

    Beijos!!

    ResponderExcluir
  2. ah, fábio, não duvido, e que guerra de nervos fica isso! essa nossa relação direta com o autor (com o original), de um lado, e com o leitor (o texto final), de outro, fica toda atravancada - e geralmente por motivos alheios à nossa vontade, e muito pouco louváveis. saudades do tempo em que revisor era revisor, e ponto.

    beijos, obrigada pela visita, obrigada pelo relato!
    denise

    ResponderExcluir
  3. Denise,
    não gosto gírias, meia gíria ou um quarto de gíria que seja quando estou lendo um texto que não as tem.

    ResponderExcluir
  4. Por isso, adorei quando ao fazer um raro trabalho de revisão de tradução para um editor, ele me falou: "Por favor, não troque seis por meia dúzia, só mude o que você tiver absoluta certeza de que fará uma grande mudança em termos de qualidade de texto ou algo que estiver errado. A maioria dos revisores acha que precisa mostrar trabalho e acaba metendo demais a mão no texto, mas isso só cria desgaste e trabalho desnecessário".

    ResponderExcluir
  5. olá, aurea: que bela historinha e que lúcido esse editor!

    ResponderExcluir
  6. Não imaginava tais bastidores... Li recentemente uma tradução do Cortázar e achei que houve problemas na revisão, coisas meio óbvias, gramaticais mesmo, quem sabe tipográficas. Quer dizer, o leitor fica sem saber o que houve...

    ResponderExcluir
  7. é, mariana, para todos os efeitos, a responsabilidade é nossa, quer dizer, do tradutor, e é correto que assim seja. os problemas estão no encadeamento do processo: nunca, desde que me lembro de trabalhar em e com editora (ou seja, faz uns quarenta anos), nunca a revisão foi tão abusadinha e metida. dizem que é porque, com a explosão editorial dos últimos vinte anos, acabou faltando tradutor qualificado, o nível de muitas traduções em muitas editoras baixou muito, e com isso a fase da revisão - que sem dúvida é muito importante - acabou adquirindo um relevo e uma autonomia que normalmente não lhe caberiam. então fica esse samba do crioulo doido. é uma pena. por outro lado, é absolutamente fundamental que as novas gerações de tradutores sejam mais bem qualificadas para poder atender melhor a essa maior demanda do mercado.

    ResponderExcluir
  8. Denise, bom dia. É uma coisa lamentável, esse descuido com o que é oferecido ao público brasileiro quando se trata de uma obra que é necessário traduzir. O pior caso que peguei foi a biografia recentemente publicada de Bob Dylan, do Robert Shelton. Ficou evidente a pressa em publicar por ocasião da comemoração dos 70 anos do cantor. Está ruim, uma coisa meio dura de ler, e os problemas pululando.

    Mas foi com a tradução de "O jogo da amarelinha" que eu mais me espantei, porque afinal de contas está-se em outro patamar, não é mais a coisa da efeméride e tal, e se trata de obra literária de vulto, digamos assim. Mas volta e meia eu me deparava com alguma coisa suspeita, parecia até erro tipográfico às vezes, e tive mesmo o impulso de reler anotando tudo e escrever à editora. Mas estava sem tempo, e também é um livro que a gente precisa de um certo fôlego para emplacar uma releitura. Quando, agora por esses dias, eu peguei a coletânea "As armas secretas" para ler, de novo me espantei. Então, só para citar um exemplo contundente, no conto "O perseguidor", já no final, há um impossível "com o", que só pode ser "como": "sem Dédée, agora bem instalada na casa de Louis Perron, que promete 'com o' trombonista" (p.151). Dei um google só para confirmar que não era excesso meu: "sin Dédée, muy bien instalada ahora en casa de Louis Perron, que promete 'como' trombonista".

    Não sei como classificar isso, se é deslize da revisão, se é revisão de revisão, se é descuido mesmo.

    Pelo pouco que conheço, os profissionais da tradução no Brasil (exceto as situações como a biografia citada) são bem qualificados. O problema me parece estar no surto editorial, na coisa mercadológica mesmo. Pois caberia a correção de problemas nas edições seguintes. Por que isso não está funcionando?

    Obrigada por esta ótima interlocução. Abraço :)

    ResponderExcluir
  9. olá, mariana, é, é complicado, e são tantos fatores... "o jogo da amarelinha" acredito que é aquela tradução dos anos 70, do fernando castro, que está na enésima edição, não? e o eric nepomuceno, que fez "as armas secretas", é tradutor de mão cheia... parece deslize sim, seja tipográfico ou o que for. correção de problemas nas edições seguintes, sim, parece a coisa mais natural, obrigatória e evidente do mundo, só que não é, o pior é isso. reimpressão é fácil, reedição com mudanças é mais complicado, e nesse frenesi editorial maluco em que anda o brasil, sei lá, 80/100 títulos novos por dia!, fica quase impossível voltar atrás, pegar o livro, dar um bom repasse e reeditar com novos custos de impressão. é pior que fornada de pãozinho na padaria: sai um mais sapecadinho, outro mais branquelo, um com a ponta meio defeituosa, e o forno não pode parar. é complicado isso, o consumidor final é o leitor, e para a gente, como leitor, comprar um livro, ler, tê-lo na estante, voltar, reler, é algo durável, que fica com a gente - agora, para uma editora em ritmo industrial, bom, acabam sendo detalhes meio ínfimos e inevitáveis. triste, mas verdade.

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.