10 de jan de 2012

armadilhas editoriais


o leitor marcio deixou um comentário muito interessante aqui, do qual transcrevo uma parte:
Como a Cosac lançou recentemente uma coletânea de contos do Stevenson, resolvi checar o exemplar que tinha aqui em casa, de 1970, lançado pelo Clube do Livro e com a "tradução especial" de praxe, desta vez de Amaral Schmidt (você conhece?). A façanha, que eu saiba inédita, é que, dos seis contos da coletânea, quatro são do Stevenson, como seria de se esperar..., um é o "Mateo Falcone", do Mérimée (!), com o título "A traição", e um asterisco indicando que a tradução deste conto é do inescapável José Maria Machado, e, por fim, o último conto é "Moon-Face", do Jack London, traduzido como "O acidente". 

há registros da coletânea a armadilha pelo clube do livro com edições em 1944, 1961, 1962 e 1970. os quatro contos efetivamente de stevenson nesta coletânea são: "a armadilha", "pousada por uma noite", "o demônio da garrafa" e "ilha dos feiticeiros".

pessoalmente, não conheço nenhuma "tradução especial" do clube do livro que não seja uma designação para a apropriação de traduções anteriores, geralmente portuguesas, consistindo a "especialidade" do clube do livro em adaptar o português lusitano ao português do brasil.

assim, consultando um pouco a biblioteca universal do google, vejo que o conto "pousada por uma noite" - aliás, título com tradução não evidente nem automaticamente correspondente ao original "a lodging for the night" - fora publicado nos idos de 1942 na antologia contos ingleses - primores do conto universal, selecionada e organizada por jacob penteado (sem indicação do tradutor) e publicada pela edigraf.


então, além da inexplicável trapalhada de incluir um conto de mérimée e um conto de jack london numa coletânea de r. l. stevenson, tenho lá minhas dúvidas de que as traduções sequer fossem legítimas.

quanto ao "mateo falcone" de mérimée, traduzido como "a traição", há de se levar em conta algumas coisas: josé maria machado era o sujeito de plantão no clube do livro para os abrasileiramentos das "traduções especiais". creio que ele existiu, sim, aparecendo como tradutor "normal" de vários livrinhos de pulp fiction, como mostrei aqui - sempre do inglês. duvido que se abalançasse a qualquer tradução "não especial" do francês. a título de registro, há uma tradução portuguesa de "mateo falcone", feita por agostinho da silva e publicada em 1941 (ver aqui). talvez seja esta que josé maria machado tenha "traduzido especialmente" para a bizarríssima coletânea de r. l. stevenson pelo clube do livro.


ainda no plano das especulações, cabe mencionar que jacob penteado selecionou e organizou uma antologia de contos norte-americanos para a mesma coleção primores do conto universal da edigraf. a antologia contém um conto de jack london, que infelizmente não sei qual é. mas não me admiraria muito se fosse "o acidente" atribuído a stevenson na amalucada edição do clube do livro.



finalmente, quanto ao "tradutor especial" d' a armadilha do clube do livro, [waldyr do] amaral schmidt, não sei dizer muita coisa. aqui encontrei referência a mais uma tradução em seu nome: adelbert von chamisso, o homem que vendeu a sombra, clube do livro, 1964. vale notar que existe edição anterior da mesma noveleta de chamisso na antologia intitulada os mais belos contos românticos (vecchi, 1945, sem crédito de tradução). e aqui amaral schmidt consta como responsável pela "revisão especial" do livro okvala é o meu destino, de theodor von becker
(clube do livro, 1973).

encontra-se uma abordagem geral bastante instrutiva sobre o clube do livro em john milton, o clube do livro e a tradução (edusc, 2002). john milton utiliza o eufemismo "reciclagem" para designar essa prática de apropriação de traduções alheias e, sem entrar em grandes detalhamentos, comenta que o clube do livro "apoia-se muitas vezes em traduções já publicadas" (pp. 124-25).


4 comentários:

  1. Marcio11.1.12

    Oi, Denise, obrigado por ter tornada pública a bizarrice. Espiei o link do Agostinho da Silva e a tradução me pareceu diferente da do José M. Machado - a não ser que ele tenha se dado ao trabalho de modificar muuuito a versão portuguesa. O mistério permanece, mas é curioso que ambos tenham escolhido a mesma - e correta - direção geográfica do início do conto, e que o Quintana, na edição da Ed. Globo das Novelas Completas, tenha se equivocado:

    "En sortant de Porto-Vecchio et se dirigeant au nord-ouest, vers
    l'intérieur de l'île (...)".

    Agostinho: "Ao sairmos de Porto-Vecchio e ao dirigirmo-nos para noroeste, para o interior da ilha (...)".

    José M. Machado: "Ao sair de Pôrto-Vecchio, em direção a noroeste, para o oriente da ilha (...)".

    Quintana: "Quem se dirige de Porto-Vecchio para o interior da ilha, rumo ao nordeste (...)".


    Quanto ao Jacob Penteado, tenho aqui em casa um "Obras Primas do Conto do Terror", editado pela Livraria Martins em 1958 e organizado por ele e que também não consta nenhum nome de tradutor. Era costume do Penteado, que ele trouxe da Vecchi, ou a "culpa" era dividida entre todos?

    Grande abraço,
    Marcio Sattin

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  2. olá, marcio, na citação de j.m.machado, é "para o oriente da ilha" mesmo? que ótimo que vc deu uma checada - então excluo essa hipótese do agostinho da silva.

    ah, vecchi e martins eram danadinhas para não colocar nome de tradutor. sobretudo a martins utilizava muito traduções portuguesas (o dono era português, e até chegou a fazer várias coedições em portugal). até os anos 60 e 70 vc encontra edições da martins sem créditos. se era contrafação ou não (quer dizer, reprodução não autorizada pela editora detentora dos direitos de publicação), não sei dizer: muito provavelmente sim, pois do contrário não haveria razão para ocultarem os créditos de tradução, penso eu.
    mas plágio, no sentido de pegar tradução alheia, eliminar os créditos de autoria da tradução e colocar outros, como se os direitos sobre a tradução e de publicação fossem próprios, isso, até onde sei, a vecchi e a martins não faziam não, ao contrário do clube do livro.

    é muito difícil rastrear essas coisas sobretudo na martins, realmente exasperante.

    outro elemento muito constante, mesmo na globo, segundo o que relata erico veríssimo, que era seu diretor editorial, era o uso de traduções em espanhol. não sei quais e quantas, mas ele conta que apenas pegavam as edições em espanhol, traduziam para o português et voilà! , porém sem especificar na edição brasileira que era uma tradução não do original, mas por interposição, afora que certamente não pediam autorização nem licença de uso para a editora e/ou o tradutor para o espanhol.
    esse infeliz costume se prolongou em outras editoras até os anos 1970 (penso na hemus, por exemplo, com seu kafka traduzido "diretamente" do espanhol por torrieri guimarães, sem o menor pejo).

    aliás, por falar nisso, olha um mateo falcone em espanhol aqui: http://www.ciudadseva.com/textos/cuentos/fran/merimee/mateo.htm

    abraço
    denise

    abraço
    denise

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  3. Oi, Denise:

    Você tem alguma pesquisa sobre as traduções do Stevenson no Brasil? Não encontrei no menu aqui ao lado.

    Abraço,

    Sérgio

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    1. olá, sérgio, estou montando; ainda está em fase de rascunho.

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