28 de jul de 2011

poe XL, o conto fantasma

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Como se vê na foto do índice do volume, aqui, "Berenice" se iniciaria à p. 148. Sendo o único conto cuja tradução não é atribuída a Sandro Pivatto, a Berenice Xavier ou a Luisa Lobo na página dos créditos, imaginar-se-ia que finalmente seria a tradução de Brenno Silveira, que consta com destaque na página de rosto. No entanto, o livro termina na p. 147. Não sei se a foto consegue mostrar o que está na sequência, e que seria a p. 148: a propaganda do lançamento de O exorcista. E, depois de mais algumas páginas de divulgação das obras publicadas pela editora, termina o livro.


A meu ver, essa edição da Edibolso, com traduções licenciadas da Cedibra, lamentavelmente integra o capítulo das infâmias editoriais na história de Edgar Allan Poe no Brasil.


poe XXXIX, absurdidades editoriais

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Continuação:
O gato preto, Brenno Silveira:

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

O gato preto, Luísa Lobo, segundo atribuição feita na edição Edibolso, com copirraite e licença da Cedibra:

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Como a tradução de Brenno Silveira saiu originalmente em 1959, e essa em nome de Luísa Lobo em 1975, não resta dúvida sobre a anterioridade. Para tornar as coisas ainda mais absurdas, tanto Brenno Silveira quanto Luísa Lobo são tradutores renomados, com trabalhos de qualidade, e é um absurdo supor que um se apropriasse da tradução do outro. Acontece que tais são os créditos constantes no livro, que, prima facie, têm valor documental. Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria importante que Luísa Lobo contribuísse para dirimir qualquer dúvida que possa vir a pairar sobre a legítima autoria dessa tradução.

imagem: google images
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poe XXXVIII, o poço da irresponsabilidade

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Prosseguindo, o segundo conto do volume, "O poço e o pêndulo", tem sua tradução atribuída a Sandro Pivatto. O nome não me é muito familiar, mas vejo várias referências a traduções suas para a Bruguera e a Cedibra entre os anos 60 e 70. Transcrevo as frases iniciais do conto na edição Edibolso, com licença da Cedibra:
Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia - e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho.
Veja-se a tradução de Brenno Silveira:
Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia - e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho.
Para a argumentação geral sobre o tema, ver o post anterior. Sobre a importância de uma manifestação pública de Sandro Pivatto desautorizando essa barbaridade da Edibolso/ Cedibra, idem. Se alguém se interessar pelo original e outras traduções do mesmo trecho, é só avisar.

imagem: o poço e o pêndulo
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poe XXXVII, irresponsabilidade

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Passo à apresentação dos motivos de minha perplexidade e irritação com irresponsabilidades editoriais que mencionei no post anterior, poe XXXVI. Seguirei o índice.
"A queda da Casa de Usher", pela Edibolso/Cedibra, em nome de Luísa Lobo:

Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
"A queda da Casa de Usher", pela Civilização Brasileira, em nome de Brenno Silveira:

Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
Poderia prosseguir até o final do conto, mas, para fins ilustrativos, creio que basta esta primeira frase. Para mostrar claramente como é impossível encontrar duas traduções iguais feitas por dois tradutores diferentes, veja-se como José Paulo Paes, Oscar Mendes/ Milton Amado e Aurélio Lacerda vertem o mesmo original:

A queda da Casa de Usher, pela Cultrix (Companhia das Letras), José Paulo Paes:

Durante todo um dia pesado, escuro e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoavam-se opressivamente no céu, eu percorri a cavalo um trecho de campo de tristeza singular, e finamente me encontrei, quando as sombras da noite se avizinhavam, à vista da melancólica Casa de Usher.

A queda do Solar de Usher, pela Globo (Nova Aguilar), Oscar Mendes e Milton Amado:

Durante todo um pesado, sombrio e silente dia outonal, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, estive eu passeando, sozinho, a cavalo, através de uma região do interior, singularmente tristonha, e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, perto do melancólico Solar de Usher.

A queda da casa de Usher, pela Pinguim, Aurélio Lacerda:

Por todo o correr de um dia escuro, lúgubre e silencioso de outono, quando as nuvens, baixas, se acumulavam opressivas no céu, atravessara sozinho, a cavalo, uma região de campanha singularmente triste e, afinal, quando já caíam as sombras da tarde, encontrava-me à vista da merencórea Casa de Usher.
Eis o original:
During the whole of a dull, dark, and soundless day in the autumn of the year, when the clouds hung oppressively low in the heavens, I had been passing alone, on horseback, through a singularly dreary tract of country; and at length found myself, as the shades of the evening drew on, within view of the melancholy House of Usher.
Como a tradução de Brenno Silveira saiu originalmente em 1959, e essa em nome de Luísa Lobo em 1975, não resta dúvida sobre a anterioridade. Para tornar as coisas ainda mais absurdas, tanto Brenno Silveira quanto Luísa Lobo são tradutores renomados, com trabalhos de qualidade, e não faria o menor sentido que um se apropriasse da tradução do outro. Acontece que assim estão os créditos no livro; assim está a atribuição de autoria; assim, em termos materiais, está criado um dado objetivo. 

O grande risco, a meu ver, tal como ocorreu no caso da editora Itatiaia, atribuindo a Galeão Coutinho uma tradução de Mário Quintana, e no caso da editora Martin Claret, atribuindo a Isa Silveira Leal traduções de Ruth Guimarães, é que o nome do segundo tradutor, vitimado pela incúria da editora, fique conspurcado, ou pelo menos sob suspeita. No mínimo instaura-se uma confusão em nossa história lítero-tradutória. O que dirá um pesquisador daqui a cinquenta anos, perante a materialidade dos fatos?

Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria muito proveitoso que a profa. Luísa Lobo legasse para nossa memória documental um depoimento a respeito, a fim de esclarecer antecipadamente qualquer dúvida que possa vir a surgir no futuro sobre a legítima autoria dessa tradução.

atualização em 14/09/2011: a tradutora Luiza Lobo avisou que tentará descobrir o que pode ter acontecido.

imagem: a queda da casa de usher
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poe XXXVI, os torvelinhos da desmemória

como é difícil reconstituir coisas nem tão distantes em nossa história lítero-tradutória! e quantas surpresas desagradáveis!

explico-me: depois de ter feito um levantamento das primeiras edições de contos de poe no brasil, das várias traduções d' o gato preto e das diversas coletâneas enfeixadas sob o mesmo título de histórias extraordinárias - veja aqui -, retomei minha pesquisa, na intenção de cobrir todas as traduções brasileiras de poe no século XX e XXI.

e eis que me deparo com isso aqui:




como se vê, é um voluminho da edibolso, com traduções licenciadas pela cedibra, 1975.* a nos fiar pelos dados do livro, temos os seguintes responsáveis por elas:
  • sandro pivatto para "o poço e o pêndulo" e "a caixa quadrangular";
  • berenice xavier para "william wilson";
  • luisa lobo para "o enterro prematuro", "o barril de amontillado", "a queda da casa de usher", "o coração revelador", "o gato preto", "a máscara da peste vermelha", "o homem na multidão"
  • para brenno silveira, o único nominalmente anunciado na página de rosto, mas não citado na página de dados catalográficos, restaria "berenice"
se um paciente leitor ou um cuidadoso pesquisador tiver a curiosidade ou se der ao trabalho de comparar esses textos a outras traduções, provavelmente ficará em dúvida se o que norteou essa edição da edibolso (com licenciamento da cedibra) foi a ignorância, o desleixo, o acochambro ou a má fé - pois a transparência certamente não foi.

apresentarei os motivos de minha perplexidade e irritação nos próximos posts. reitero aqui minha indignação: enquanto este país e nossos editores se obstinarem em confundir, omitir, mascarar ou falsear os dados das obras tradutórias, continuaremos patinhando nessa patética rasura e ignorância em nossa formação cultural.

* esse volume me foi fornecido por joana canêdo, a quem agradeço novamente a gentileza.
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26 de jul de 2011

rastreando kafka no brasil

Retomo o precioso artigo de Ribeiro, Brito e Santos, "A recepção da obra de Franz Kafka no Brasil", publicado na revista Pandaemonium Germanicum 9/2005, pp. 227-53, que venho comentando em alguns posts - ver aqui.

Sempre no intuito de contribuir para a reconstituição da trajetória de Kafka no Brasil, consolido aqui alguns dados e breves retificações, concentrando-me nas décadas 50 a 70. Os pesquisadores apresentam o seguinte levantamento das traduções e retraduções para este período, que complemento nas "Observações":

I. Anos 50
1. Metamorfose, Brenno Silveira, Civilização Brasileira, 1956
2. "O artista do trapézio", tradução anônima, Cultrix, 1958 (in Maravilhas do conto alemão, tradução dada como provavelmente a partir do inglês)

Observações:
1. Em 1956, temos também a publicação de Parábolas e fragmentos, em seleção e tradução de Geir Campos, pela Philobiblion, Civilização Brasileira, em edição especial para sua coleção Maldoror, com tiragem de 300 exemplares e quatro águas-fortes de Poty. A coleção Maldoror era feita na prensa manual "A Verônica", de Manuel Segalá. Assim, caberia colocá-la como pioneira, ao lado de Metamorfose.


 

2. Uma retificação rápida: o ano correto da primeira edição é 1957. Quanto à fonte dessa tradução, não creio que seja o inglês, de forma alguma, e merecerá um post à parte.

II. Anos 60
1. O castelo, Torrieri Guimarães, Tecnoprint, 1964 (supostamente do francês)
2. O processo, Torrieri Guimarães, Tema, 1964 (idem)
3. América, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem)
4. Metamorfose em 3a. ed. (não cita a segunda), Brenno Silveira, BUP, teria ganhado prefácio de Ênio Silveira, 1965
5. A colônia penal, Torrieri Guimarães, Livraria Exposição do Livro, 1965 (idem, 39 títulos)*
6. Os melhores contos de Kafka, trad. A. Serra Leal, editora “paulista” Arcádia, 1966.
7. Parábolas e fragmentos, sel. e trad. Geir Campos, Ediouro, 1967
8. A muralha da China, Torrieri Guimarães, Clube do Livro, 1968 (30 contos)
9. A metamorfose; Na colônia penal; O artista da fome, trad. Brenno Silveira, Leandro Konder e Eunice Duarte (os 2 últimos pelo francês), Civilização Brasileira, 1969

Observações:
1. Em 1964, caberia ainda lembrar a publicação de Diário íntimo pela Livraria Exposição do Livro, em tradução de Torrieri Guimarães.


A Nova Época Editorial, concorrente direta da Exposição do Livro naquela mesma época, também publica Diário íntimo, em tradução de Osvaldo da Purificação, mas não consegui descobrir o ano exato de seu lançamento.

1a. A propósito de Torrieri Guimarães: as várias menções no ensaio apresentando o francês como suposta base para suas traduções a meu ver não procedem. Já demonstrei este ponto em relação a Metamorfose e Um artista da fome, aqui e aqui, e dedicarei mais alguns posts a respeito. As traduções de Torrieri eram visivelmente feitas a partir do espanhol, a despeito do que ele possa ter afirmado em entrevista aos pesquisadores.

1b. Quanto às traduções que inauguram o dito "boom" dos anos 60, ver observações ao item III, 3.

4. Uma rápida retificação: a primeira edição da Metamorfose pela BUP (Biblioteca Universitária Popular, pertencente a Ênio Silveira, irmão de Brenno Silveira) é de 1963, e já traz o prefácio citado.

5. A citação em asterisco, reproduzida abaixo, também mereceria alguns breves comentários e será objeto de um post à parte.

6. Aqui mais uma pequena retificação: a editora Arcádia não é paulista, mas portuguesa, sediada em Lisboa; assim, caberia excluí-la de um mapeamento das traduções brasileiras de Kafka. A primeira edição deste volume é de 1962.


7. Caberia eliminar Parábolas e fragmentos desse bloco cronológico, visto que, cf. observação acima, a pioneira tradução de Geir Campos foi publicada originalmente em 1956.

III. Anos 70
1. O processo, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
2. Metamorfose, Marques Rebelo, Ediouro, 1971
3. O processo, Manoel Ferreira Pinto e Syomara Cajado, Círculo do Livro, 1977

Observações:
3. A tradução de Syomara Cajado (pelo inglês) foi publicada originalmente pela editora Nova Época. Manoel Ferreira Pinto foi provavelmente o preparador do texto para a edição posterior do Círculo Livro.

Quanto aos anos 80 em diante, chamou-me a atenção um apontamento dos articulistas: em 1985, haveria "uma nova tradução realizada também a partir do inglês por Enio Silveira e Marques Ribeiro Calouro, cuja publicação fica a encargo da editora Tecnoprint". (p. 239) Não consegui localizar nenhuma referência a esta edição e teria muita curiosidade em conhecê-la. Por outro lado, encontrei menção a um volume publicado pela Civilização Brasileira em 1983 (e mais numerosas para o ano de 1993), com o título de Contos, fábulas e aforismos, com seleção, introdução e tradução de Ênio Silveira, proprietário da editora. Marques Rebelo, por seu lado, fazia muitas adaptações para a Coleção Calouro da Tecnoprint. Talvez tenha havido aí alguma mistura entre os nomes

* Comentam os autores quanto a esta edição: "Um problema a ser levantado é o fato de Torrieri Guimarães referir-se à antologia como se fosse do próprio Kafka. Em nenhum momento, é esclarecido ao leitor que os textos não foram reunidos e dispostos daquela forma pelo autor (fato relevante, uma vez que se conhece a preocupação de Kafka com essa questão). Também não são indicados os critérios para a seleção dos textos." (p. 234). Para o esclarecimento dessa questão, ver aqui.

Quanto à fortuna de Metamorfose no Brasil, recomendo vivamente o livro de Celso Cruz, Metamorfoses de Kafka. São Paulo: Fapesp/ Annablume, 2007.

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23 de jul de 2011

os sons do tempo III

descubro que lúcio cardoso, um dos poucos autores brasileiros do século XX em quem consigo perceber alguma afinidade com o intenso espírito trágico-romântico que vemos em poe, também traduziu e fez a adaptação teatral de the tell-tale heart, com o título de "o coração delator", para o teatro de câmera, em 1947.

segundo enaura quixabeira rosa e silva, "por inexplicável escrúpulo, lúcio cardoso apresenta [a peça] como de autoria de graça mello" (aqui, p. 147).

numa entrevista a sábato magaldi, porém, ele comenta:
... fundei com Agostinho Olavo e Gustavo Dória o “Teatro de Câmera”, que marcou a primeira reação contra o gênero “grande espetáculo” que “Os Comediantes” vinham impondo como gênero absoluto e que deu nascimento a essa série de teatrinhos íntimos e espetáculos mais ou menos fechados, atualmente tão em voga. O “Teatro de Câmera” deu-me sessenta contos de prejuízo e inúmeros dissabores. Mesmo assim, montei, num espetáculo inteiramente organizado por mim, O Coração Delator, de Edgar Poe. Foram tais atropelos que jurei não voltar tão cedo ao teatro. (in Junia N. Neves, aqui, p.63)
seria fascinante saber quais foram as soluções sonoras adotadas no palco para o deathwatch! aliás, lembrando a grandíssima amizade entre lúcio cardoso e clarice lispector, talvez não à toa a tradução e adaptação de the tell-tale heart feita por clarice, muitos anos depois, também se chame "o coração delator".
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16 de jul de 2011

na oficina com mrs. dalloway

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comecei a traduzir mrs. dalloway, de virginia woolf, e criei uma espécie de diário de bordo: quem quiser acompanhar, o blog se chama traduzindo mrs. dalloway e está aqui.

imagem: manuscrito mrs. dalloway
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15 de jul de 2011

da translação à tradução

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saiu o número 9 da revista scientia traductionis, da pós-gradução em estudos da tradução da ufsc. está disponível aqui, com muitos artigos valiosos.

um dos que mais me despertaram interesse foi o de antoine berman, em edição bilíngue, com tradução de marie-hélène torres e marlova assef: de la translation à la traduction (da translação à tradução). um dos aspectos históricos significativos levantados por berman diz respeito à prática renascentista da tradução como maneira de desenvolver o domínio da própria língua*: en fait, on apprend à écrire en traduisant. o artigo traz um belo painel da atividade tradutória entre o renascimento e o início da era moderna, uma exploração bastante convincente das conotações do radical ducere da palavra, as razões para a preservação do termo translation em inglês, a importância específica de algumas obras (como a poemata) e vários outros aspectos histórico-culturais em torno dessa atividade intelectual tão singular que é a tradução.

o artigo de berman está disponível para leitura e download aqui.

* embora a competente tradução de marie-hélène e marlova traga maîtrise de la langue, maîtrise du français como "matriz da língua", "matriz do francês", pessoalmente prefiro "domínio da língua", "domínio do francês".
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14 de jul de 2011

falsos amigos II

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ricardo bada relata um caso muito divertido de um falso amigo que pegou nosso grande antônio callado:
Ahora bien, la historia más linda de las dos es una que me pasó personalmente cuando estaba chequeando las traducciones al alemán de García Márquez, por un común acuerdo del autor, la editorial y la traductora. Fue con El amor en los tiempos del cólera, y recuerdo que unos días antes de enfrentarme con los primeros capítulos de la traducción, tuvo lugar la Buchmesse, la feria del libro de Fráncfort, y allí, en el pabellón brasileño, descubrí un ejemplar de O Amor nos Tempos de Cólera, la novela de Gabo, traducida por otro gran novelista, Antonio Callado. Y me dije que sería bueno tenerlo a mano al estar chequeando la traducción de Dagmar Ploetz, buena amiga mía, para mirar las soluciones de Callado cuando ella y/o yo estuviésemos en dudas. ...
Dagmar Ploetz ... en este caso se limitó a subrayar una palabra y a poner varios signos de interrogación detrás:
Allí estaban las autoridades sin más protección contra el sol que los paraguas de diario, estaban las escuelas primarias agitando banderitas al compás de los himnos, las reinas de la belleza con flores achicharradas y coronas de cartón de oro, y ¿¿la papayera?? de la próspera población de Gayra, que era por aquellos tiempos la mejor de la costa Caribe.

¿Qué caramba era una «papayera»? Tampoco yo lo sabía entonces, pero releí el párrafo, hice mi composición de lugar (autoridades, escolares agitando banderitas al compás de los himnos, etc.) y me dije que debía de ser la banda de música. Seguro de que era eso, miré la traducción de Callado, donde decía:

Lá estavam as autoridades que só tinham como proteção contra o sol os guarda-chuvas do dia-a-dia, as escolas primárias agitando bandeirolas ao compasso dos hinos, as rainhas de beleza com flores esturricadas e coroas de papelão dourado, e gente da plantação de mamão da próspera localidade de Gayra, naqueles tempos a melhor da costa Caribe.

Me dije que fuera lo que fuese una papayera, con toda seguridad había algo que sí que no era: la gente de la plantación de papaya. Así es que llamé a Pacho Zumaqué, uno de los mejores compositores colombianos, y a la sazón agregado cultural en la embajada en Bonn, y el buen Pacho, que es de Montería, o sea, costeño, de la zona donde se desarrolla la novela de Gabo, a mi pregunta de qué era una papayera me contestó con una expresión que jamás olvidaré: «Un combo de chupacobres». O sea, lo que en alemán se traduciría como Blaskapelle, una banda de música compuesta de instrumentos de viento.
a íntegra do artigo está aqui.

imagem: google images
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13 de jul de 2011

falsos amigos I

como compartilho da posição de julia escobar, publicada aqui, creio que podemos e devemos comentar nossos erros com serenidade, sem medo de ferir suscetibilidades. digo erros, não partidos adotados, não escolhas mais afortunadas ou menos afortunadas: erros mesmo. acho que é importante para o amadurecimento do ofício a médio e longo prazo, contribui para um processo de aprendizagem mais amplo, faz parte da ética profissional e é uma mostra de respeito pela principal instância à qual dedicamos tantos neuroninhos, que é o leitor.

eu começaria por uma família de erros que é simples, mas muito numerosa.

I.
faz parte do beabá do ofício de tradução a cautela que se deve ter com o chamado "falso amigo": é aquela palavra estrangeira que é muito parecida com outra palavra em português (ou outra língua qualquer), mas cujos sentidos são diferentes. podem ter a mesma origem etimológica e foram seus sentidos que seguiram rumos diversos, e nesses casos são "cognatos", ou podem ter origens distintas e seus sentidos sempre foram diferentes, e aí são "falsos cognatos" - de qualquer forma, cognatos ou não cognatos, deve-se desconfiar da amizade que eles nos oferecem com tanta prestimosidade.


falando aqui só do inglês para o português, eles existem às centenas, aos milhares, desde os mais descarados aos mais insidiosos. alguns exemplos bastante conhecidos: eventually, actual, relevance, evidence, ingenious, conceit, deception, (to be) partial e seus vários correlatos. isso no nível vocabular, mas existem amigos bem falsinhos também no nível sintático.

um exemplo mais propriamente sintático seria, digamos, what can be substituted for eggs when cooking? pode acontecer que algum tradutor, feliz da vida com uma frase tão facinha ou nem feliz, mas simplesmente sem se dar conta, ponha assim: "o que pode ser substituído por ovos na hora de cozinhar?" - na verdade, a pergunta é "o que pode substituir os ovos na hora de cozinhar?"

os falsos amigos que fazem a gente cair nessas esparrelas compõem um dos capítulos mais divertidos e mais embaraçosos dessa vida nossa de tradutor. alguns, a rigor, nem são falsíssimos, estão mais para hipócritas: um que não esqueço e jamais esquecerei é um intoxicated que pus como "intoxicado" (em vez de "embriagado", p.ex.) no belíssimo homens em tempos sombrios da hannah arendt, e que deve continuar circulando por aí em sua enésima edição. apesar do ditado "desgraça compartilhada é meia alegria", pouco consolo foi encontrar paulo rónai e aurélio buarque de hollanda usando também o mesmo infeliz "intoxicado" em algum conto do mar de histórias. bom, pelo menos a companhia é ilustre...

imagem: mango juice

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las meteduras de pata e os direitos do leitor

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lúcido artigo publicado em el trujamán:
Los derechos del lector

Por Julia Escobar

Decía Steiner que hay que aprender a traducir a través del tiempo. Creo que, de mejor o peor manera, es lo que hacemos ya todos. Somos deudores de nuestra tradición y de los que, antes que nosotros, abrieron las sendas por las que hoy transitamos. Por eso en traducción, como en cualquier otra profesión práctica, aprendemos de los errores, nuestros y ajenos, como puede aprender un ingeniero de caminos a rectificar una curva mal trazada por él mismo, o por otro.

Por eso no entiendo por qué muchos colegas se rasgan las vestiduras cuando se exponen a la luz las jugosas meteduras de pata que salpican tantas publicaciones. No se trata, como es natural, de cebarse en el malhadado traductor que la ha cometido, por el dudoso placer de reírse del torpe, sino en destacarla y señalarla para que no se vuelva a cometer jamás. Al impedir que se comente una mala traducción estamos haciendo un flaco favor a nuestra profesión, pues permitimos que funcione el peor de los corporativismos: el que sirve para enmascarar incompetencias y premiar nulidades. Además, y eso es todavía peor, contribuimos a estafar y engañar al verdadero destinatario de nuestro trabajo: el lector, el único que todavía no tiene establecidos sus derechos.
imagem: aqui
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aos senhores orientadores

uma doutoranda da usp pede informações biográficas sobre berenice xavier, em comentário aqui. informei o pouco que sei, mas a consulta me animou a a reiterar uma convicção que tenho faz algum tempo:

a contribuição da esquerda militante para a história da tradução no brasil durante o século 20 é preciosa, em quantidade impressionante e não raro com qualidade bastante respeitável.

seria, a meu ver, um tema de pesquisa excelente e realmente indispensável.
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6 de jul de 2011

good girl

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sequência das traduções de kafka no brasil

sempre com o intuito de colaborar nessa ingente tarefa de reconstituir a trajetória de kafka no brasil, eu faria uma pequena retificação na seguinte passagem do artigo de sousa, brito e santos:
Manoel Paulo Ferreira e Syomara Cajado são os responsáveis por nova tradução de O processo em 1977.     A fonte não é mencionada e a publicação é de responsabilidade do Círculo do Livro (São Paulo). (p. 236)
em verdade, a tradução d' o processo feita por syomara cajado saiu em c.1972, pela editora paulista nova época. manoel paulo ferreira provavelmente foi o responsável pela revisão para a edição do círculo do livro.



veja também os vários posts reunidos em "pesquisa kafka", aqui.

imagem: aqui
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5 de jul de 2011

o segundo ano de kafka no brasil

prosseguindo com essa difícil reconstrução da fortuna de kafka no brasil, apresentada no valioso artigo de sousa, brito e santos,* temos que:
Uma 2a tradução, Erstes Leid (traduzida como O artista do trapézio), vem a público em 1958, pela editora Cultrix, de autoria e fonte não mencionadas. O texto faz parte de uma antologia com o título Maravilhas do conto alemão, organizada por Diaulas Riedel. A seleção dos textos foi feita por Albert H. Widmann, com introdução e notas de Edgard Cavalheiro. Embora o tradutor não seja mencionado, há informações de que a tradução foi revista por T. Booker Washington, o que indica que o texto provavelmente também tenha sido traduzido a partir de edição inglesa. (pp. 232-33)
tentando contribuir, eu acrescentaria um ou dois pormenores.


a. essa coleção da cultrix em 24 volumes, com o título de maravilhas do conto x, y, z (aliás, bastante boa), concebida pelo falecido proprietário diaulas riedel, traz o nome de t. booker washington em vários deles: nas maravilhas do conto inglês, do conto italiano, do conto francês, do conto norte-americano, do conto russo, do conto universal... o que quero dizer é que, em vista disso, a presença do nome "t. booker washington" como revisor da tradução não indica que o texto de base fosse em inglês: como já afirmei em outro lugar (veja aqui), parece-me provável que seja apenas um pseudônimo usado por algum editor da casa na época - aliás, quem sabe se numa ressonância de booker t. washington, o ativista e pedagogo americano.

b. quanto ao responsável pela seleção desse volume de contos alemães da cultrix, não consegui localizar nenhuma referência a um "albert h. widmann" como antologista de kafka ou de qualquer outra coisa, seja em países de língua alemã ou de língua inglesa. eu não estranharia muito se fosse uma seleção nacional com nome istranjêro para ficar mais bonito.

c. o volume citado apareceu pela cultrix em 1957 (em 1958 talvez se trate de uma segunda edição).

d. finalmente, erstes leid traduzido como um artista do trapézio me evoca, em primeiro lugar e acima de tudo, a antiga tradução espanhola un artista del trapecio (publicada em nome de jorge luis borges, e que é toda uma outra novela do plagiarismo transnacional). vale notar que erstes leid foi publicado em inglês primeiro como first grief e depois, na tradução que se consagrou, como first sorrow - naturalmente, nada impede que um tradutor brasileiro resolvesse traduzir erstes leid ou first sorrow por um artista do trapézio. mas sinceramente me parece bem mais provável que a base dessa tradução publicada pela cultrix tenha sido mesmo un artista del trapecio.

de qualquer forma, esses dados da edição da cultrix parecem tão bizarros que mereceriam maiores pesquisas.

* veja aqui o primeiro kafka no brasil.

imagem: aqui
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4 de jul de 2011

o primeiro kafka no brasil

como são impressionantes as lacunas sobre a história literária no brasil (digo "no", não "do"). estou pensando no caso de kafka, que começou a ser traduzido no país há cerca de cinquenta anos, com interposição do inglês e do espanhol, e só nas últimas décadas diretamente do alemão.

e mesmo assim, decorrido meio século apenas, é tremenda a dificuldade em reconstruir a trajetória de sua divulgação entre nós. transcrevo abaixo uma passagem de um artigo chamado "a recepção da obra de franz kafka no brasil", de celeste ribeiro de sousa, eduardo manoel de brito e maria célia ribeiro santos, publicado na revista pandemonium germanicum, 9/2005 (pp. 227-53, disponível aqui):
... a 1a obra de Kafka em tradução para o português do Brasil, realmente localizada, foi Die Verwandlung (A metamorfose) de 1956, uma tradução realizada por Brenno Silveira, e que marca o início da 1a fase. Trata-se de uma tradução efetuada a partir do texto em inglês, e publicada pela Civilização Brasileira no Rio de Janeiro. Essa tradução foi objeto de controvérsias. Enquanto Otto Maria Carpeaux, nos artigos “Romances proféticos” de 09.08. 1958 e “Livros que não há na mesa” de 13.06.1959, ambos publicados pelo jornal O Estado de São Paulo lamenta que nenhum texto de Kafka tenha sido traduzido no Brasil, estudiosos como João Barrento e Edgard Cavalheiro fazem referência em 1957 a essa tradução, desconhecida por Carpeaux. A própria editora Civilização Brasileira, em resposta à nossa solicitação de esclarecimentos, negou ter publicado tal tradução! Após várias buscas, contudo, dois exemplares deste texto controverso foram localizados no acervo de “Obras Raras” da Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo, o que atesta a veracidade das informações de Barrento e Cavalheiro - a tradução de A metamorfose de 1956 realmente foi feita e existe.
eis a sobrecapa e a página de rosto da edição de 1956. foi uma edição de luxo, em tamanho grande (24,5 x 34,5), com sobrecapa e ilustrações em página inteira de walter lewy, com tiragem de 1.000 exemplares.



 

várias informações úteis sobre a edição e também sobre lewy podem ser encontradas no livro de celso cruz, metamorfoses de kafka (annablume/ fapesp, 2007, visualização aqui).
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tradutores e editoras III

o blog da cosac naify também traz algumas entrevistas de tradutores que publicam pela casa.
  • cláudio aquati, satíricon, aqui.
ou no próprio site da editora:
  • carlito azevedo, traduzindo pablo neruda, aqui
  • nicolau sevcenko, alice no país das maravilhas, aqui
  • rubens figueiredo, anna kariênina, aqui

2 de jul de 2011

artigo

Why does — sometimes — the translated text take on a radiance which pushes the original work to another level altogether?
um artigo muito simpático de mini krishnan, phantom power of language, disponível aqui.