28 de mai de 2011

vasari

.

fiquei encantada com a notícia de que as vidas de vasari vão sair em setembro pela wmf, em tradução de ivone benedetti, escritora, dicionarista e doutíssima tradutora de grandes clássicos como baltasar gracián e charles d'orléans. será a edição de 1550 (a primeira; em 1568, vasari publicou uma edição revista e bastante ampliada das vidas). sem dúvida é um trabalho de magnitude ímpar, e mal consigo esperar para me deleitar com ele.

outra excelente noticia é que luiz marques, historiador da arte, ex-curador do masp, docente da unicamp, terá publicada sua tradução da vida de michelangelo buonarroti, também de vasari, numa edição extensamente anotada, pela editora da unicamp.

alguns anos atrás, federico e eu brincamos um pouco com o vasari: detivemo-nos justamente no michelangelo, mas também em da vinci e mais uns dois ou três. segue uma amostra.


Vida de Michelangelo Buonarotti
Florentino
Pintor, escultor e arquiteto

     Enquanto os industriosos e insignes espíritos iluminados pelo famosíssimo Giotto e seus seguidores esforçavam-se em apresentar ao mundo o valor que a benevolência das estrelas e a harmoniosa mescla dos humores haviam dado a seus engenhos e, desejosos de imitar com a excelência da arte a grandeza da natureza, debalde penavam universalmente para se acercar ao máximo daquele sumo saber que muitos chamam de inteligência, o mui benigno Senhor dos céus volveu clemente os olhos para a terra e, vendo a vã infinidade de tantas labutas, os estrênues estudos sem fruto algum e a opinião pretensiosa dos homens, muito mais distante da verdade do que as trevas da luz, para libertar-nos de tantos erros decidiu enviar à terra um espírito que fosse hábil em todas as artes e todos os ofícios, dedicando-se sozinho a mostrar a perfeição da arte do desenho no traço, no contorno, na sombra e na luz para dar relevo às coisas da pintura, a trabalhar com reto discernimento na escultura, e a tornar as residências cômodas e seguras, salubres, alegres, harmoniosas e ricamente adornadas na arquitetura. Quis também dotá-lo da verdadeira filosofia moral, com o ornamento da doce poesia, para que o mundo o elegesse e admirasse como seu excelso espelho na vida, nas obras, na pureza dos costumes e em todas as ações humanas, e para que o denominássemos como ser mais celestial do que terreno. E como viu que no exercício desses ofícios e nestas singularíssimas artes, isto é, a pintura, a escultura e a arquitetura, os engenhos toscanos sempre foram, dentre os outros, sumamente grandes e elevados, por serem eles muito observantes da prática e do estudo de todas as faculdades, mais do que qualquer outro povo da Itália, quis dar-lhe como pátria Florença, digníssima entre as demais cidades, para completar merecidamente sua perfeição em todas as virtudes por meio de um cidadão seu.
     Portanto, em Casentino, sob fatídica e feliz estrela nasceu de nobre e honesta mulher, no ano de 1474, um filho de Lodovico di Lionardo Buonarotti Simoni, descendente, ao que consta, da nobilíssima e antiquíssima família dos condes de Canossa. A Lodovico, que naquele ano era o encarregado do castelo de Chiusi e Caprese, próximo a Sasso della Vernia, onde são Francisco recebeu os estigmas, na diocese de Arezzo, nasceu pois um filho no sexto dia de março, um domingo, por volta das oito horas da noite, ao qual deu o nome de Michelangelo, pois, sem se deter para pensar e por inspiração do alto, entendeu ser ele coisa celeste e divina, além do comum dos mortais, como mais tarde se viu nas figuras de seu nascimento, estando Mercúrio e ingressando Vênus na casa de Júpiter em posição propícia, o que mostrava que de suas realizações, por arte da mão e do engenho, iriam resultar obras maravilhosas e esplêndidas. Encerrado o mandato, Lodovico retornou a Florença, e no vilarejo de Settignano, a três milhas da cidade, onde ele possuía uma herdade de seus antepassados (lugar cheio de pedras e repleto de cantarias de arenito, continuamente exploradas por canteiros e escultores, que em sua maioria nascem naquele local), Lodovico confiou Michelangelo aos cuidados da esposa de um canteiro. Por isso, certa vez conversando com Vasari, Michelangelo disse de brincadeira: “Giorgio, se tenho algo de bom em meu engenho, foi por ter nascido no ar penetrante de sua região de Arezzo, e também porque extraí do leite de minha ama o malho e os cinzéis com que faço as figuras”.
     Com o tempo, o número de filhos de Lodovico aumentou bastante; sendo modesto e com poucas rendas, ele foi encaminhando os filhos para a Arte da Lã e da Seda, e Michelangelo, já crescido, foi enviado à escola de gramática com o mestre Francesco da Urbino; como seu engenho o levava a gostar de desenho, ele aproveitava todo o tempo que tirava às escondidas para desenhar, por isso levando repreensões e às vezes palmadas do pai e de seus superiores, os quais talvez considerassem que dedicar-se a esse dom que lhes era desconhecido seria coisa baixa e indigna de sua antiga família. Naquela época Michelangelo tinha travado amizade com Francesco Granacci, também jovem, que se instalara com Domenico del Ghirlandaio para aprender a arte da pintura; assim, como Granacci gostava muito de Michelangelo e via seu grande talento para o desenho, trazia-lhe diariamente desenhos de Ghirlandaio, o qual tinha a fama, não só em Florença, mas em toda a Itália, de ser um dos melhores mestres existentes. Com isso, a cada dia aumentando a vontade de Michelangelo, e não podendo Lodovico impedir que o rapaz se dedicasse ao desenho, e não havendo remédio, ele resolveu a conselho de amigos, para obter algum fruto e para que o filho aprendesse aquela arte, colocá-lo na oficina de Domenico Ghirlandaio.

aqui o original na edição giuntina (1568)

VITA DI MICHELAGNOLO BUONARRUOTI
FIORENTINO
PITTORE, SCULTORE ET ARCHITETTO
    
     Mentre gl'industriosi et egregii spiriti col lume del famosissimo Giotto e de' seguaci suoi si sforzavano dar saggio al mondo del valore che la benignità delle stelle e la proporzionata mistione degli umori aveva dato agli ingegni loro, e desiderosi di imitare con la eccellenza dell'arte la grandezza della natura, per venire il più che potevano a quella somma cognizione che molti chiamano intelligenza, universalmente, ancora che indarno, si affaticavano, il benignissimo Rettore del cielo volse clemente gli occhi alla terra, e veduta la vana infinità di tante fatiche, gli ardentissimi studii senza alcun frutto e la opinione prosuntuosa degli uomini, assai più lontana dal vero che le tenebre dalla luce, per cavarci di tanti errori si dispose mandare in terra uno spirito, che universalmente in ciascheduna arte et in ogni professione fusse abile, operando per sé solo a mostrare che cosa sia la perfezzione dell'arte del disegno nel lineare, dintornare, ombrare e lumeggiare, per dare rilievo alle cose della pittura, e con retto giudizio operare nella scultura, e rendere le abitazioni commode e sicure, sane, allegre, proporzionate e ricche di varii ornamenti nell'architettura. Volle oltra ciò accompagnarlo della vera filosofia morale, con l'ornamento della dolce poesia, acciò che il mondo lo eleggesse et ammirasse per suo singularissimo specchio nella vita, nell'opere, nella santità dei costumi et in tutte l'azzioni umane, e perché da noi più tosto celeste che terrena cosa si nominasse. E perché vide che nelle azzioni di tali esercizii et in queste arti singularissime, cioè nella pittura, nella scultura e nell'architettura, gli ingegni toscani sempre sono stati fra gli altri sommamente elevati e grandi, per essere eglino molto osservanti alle fatiche et agli studii di tutte le facultà, sopra qualsivoglia gente di Italia, volse dargli Fiorenza, dignissima fra l'altre città, per patria, per colmare al fine la perfezzione in lei meritamente di tutte le virtù per mezzo d'un suo cittadino.
     Nacque dunque un figliuolo sotto fatale e felice stella nel Casentino, di onesta e nobile donna, l'anno 1474 a Lodovico di Lionardo Buonarruoti Simoni, disceso, secondo che si dice, della nobilissima et antichissima famiglia de' conti di Canossa. Al quale Lodovico, essendo podestà quell'anno del castello di Chiusi e Caprese, vicino al Sasso della Vernia, dove San Francesco ricevé le stimate, diocesi aretina, nacque dico un figliuolo il sesto dì di marzo, la domenica, intorno all'otto ore di notte, al quale pose nome Michelagnolo, perché non pensando più oltre, spirato da un che di sopra volse inferire costui essere cosa celeste e divina, oltre all'uso mortale, come si vidde poi nelle figure della natività sua, avendo Mercurio, e Venere in seconda, nella casa di Giove, con aspetto benigno ricevuto, il che mostrava che si doveva vedere ne' fatti di costui, per arte di mano e d'ingegno, opere maravigliose e stupende. Finito l'uffizio della podesteria, Lodovico se ne tornò a Fiorenza, e nella villa di Settignano, vicino alla città tre miglia, dove egli aveva un podere de' suoi passati (il qual luogo è copioso di sassi e per tutto pieno di cave di macigni, che son lavorati di continovo da scarpellini e scultori, che nascono in quel luogo la maggior parte), fu dato da Lodovico Michelagnolo a balia in quella villa alla moglie d'uno scarpellino. Onde Michelagnolo ragionando col Vasari una volta per ischerzo disse: “Giorgio, si' ho nulla di buono nell'ingegno, egli è venuto dal nascere nella sottilità dell'aria del vostro paese d'Arezzo, così come anche tirai dal latte della mia balia gli scarpegli e 'l mazzuolo con che io fo le figure”.
   Crebbe col tempo in figliuoli assai Lodovico, et essendo male agiato e con poche entrate, andò accomodando all'Arte della Lana e Seta i figliuoli, e Michelagnolo, che era già cresciuto, fu posto con maestro Francesco da Urbino alla scuola di gramatica; e perché l'ingegno suo lo tirava al dilettarsi del disegno, tutto il tempo che poteva mettere di nascoso lo consumava nel disegnare, essendo per ciò e dal padre e da' suoi maggiori gridato e tal volta battuto, stimando forse che lo attendere a quella virtù non conosciuta da loro, fussi cosa bassa e non degna della antica casa loro. Aveva in questo tempo preso Michelagnolo amicizia con Francesco Granacci, il quale anche egli giovane si era posto appresso a Domenico del Grillandaio per imparare l'arte della pittura, là dove amando il Granacci Michelagnolo e vedutolo molto atto al disegno, lo serviva giornalmente de' disegni del Grillandaio, il quale era allora reputato non solo in Fiorenza, ma per tutta Italia de' migliori maestri che ci fussero. Per lo che crescendo giornalmente più il desiderio di fare a Michelagnolo, e Lodovico non potento diviare che il giovane al disegno non attendesse, e che non ci era rimedio, si risolvé, per cavarne qualche frutto e perché egli imparasse quella virtù, consigliato da amici, di acconciarlo con Domenico Grillandaio.

aqui a edição Torrentino (1550, 131 vidas); aqui a edição Giunto (1568, 178 vidas).
.

26 de mai de 2011

17 de mai de 2011

sons do tempo II

.

continuando a relação de traduções brasileiras de the tell-tale heart, há também as seguintes:

com o título de "o coração revelador"*:
  • renato guimarães, in os mais extraordinários contos de horror, org. rosamund morris (civilização brasileira, 1978)
com o título de "o coração delator":
  • celina portocarrero, in os melhores contos de loucura, org. flávio moreira da costa (ediouro, 2007)
  • rodrigo breunig, in o escaravelho de ouro & outras histórias (lpm, 2011)
  • ricardo gouveia (adapt.), in o gato preto e outras histórias (scipione, 2010)  
como não as compulsei, não sei dizer quais foram as soluções adotadas para a nuclear frase hearkening to deathwatches in the wall, tema exposto em sons do tempo I. mas ficam aqui registradas.

 *há ainda uma referência na revista fragmentos da ufsc (n. 17, 1999, p. 96), porém receio que talvez equivocada, à tradução de um certo "t. booker washington", in maravilhas do conto universal, org. diaulas riedel (cultrix, 1957). quanto a "t. booker washington", trata-se visivelmente de pseudônimo (tenho até um palpite de quem seria), que também aparece em vários outros volumes da mesma coleção: "traduções revistas por t. booker washington" ou "revisão das traduções por t. booker washington". são: maravilhas do conto inglês, maravilhas do conto alemão, maravilhas do conto italiano, maravilhas do conto francês, maravilhas do conto russo, maravilhas do conto norte-americano. receio que, como ocorre em grande parte dessa coleção de 24 volumes da cultrix, trate-se de reprodução não autorizada de uma tradução anterior.

.

16 de mai de 2011

relações

.
retomando um post anterior: naturalmente, a questão que se coloca é se poe conhecia o artigo de thoreau, publicado anonimamente em julho de 1842 na revista the dial, sobre a história natural de massachusetts, onde se encontra a analogia entre o canto do grilo, o tique do caruncho e o pulsar do coração, que reaparece tortuosamente em "o coração revelador".

sobre isso, robinson dá boas indicações: como resenhista literário, poe acompanhava as publicações de the dial, e aliás parecia considerar um tanto absurdos vários artigos publicados na revista dos transcendentalistas.

sobre thoreau ele nada comenta, nem thoreau nada comenta sobre poe. de emerson, poe publica em janeiro de 1842 uma análise grafológica, na qual aproveita para reiterar sua aversão ao farisaísmo do "sábio de concord". achei muito divertida e de bastante acuidade:
MR. RALPH WALDO EMERSON belongs to a class of gentlemen with whom we have no patience whatever — the mystics for mysticism's sake. Quintilian mentions a pedant who taught obscurity, and who once said to a pupil "this is excellent, for I do not understand it myself." How the good man would have chuckled over Mr. E. ! His present role seems to be the outCarlyling Carlyle. Lycophron Tenebrosus is a fool to him. The best answer to his twaddle is cui bono? — a very little Latin phrase very generally mistranslated and misunderstood — cui bono? — to whom is it a benefit ? If not to Mr. Emerson individually, then surely to no man living.

His love of the obscure does not prevent him, nevertheless, from the composition of occasional poems in which beauty is apparent by flashes. Several of his effusions appeared in the " Western Messenger" — more in the "Dial," of which he is the soul — or the sun — or the shadow. We remember the "Sphynx," the "Problem," the "Snow Storm," and some fine old-fashioned verses entitled "Oh fair and stately maid whose eye."

His MS. is bad, sprawling, illegible and irregular — although sufficiently bold. This latter trait may be, and no doubt is, only a portion of his general affectation.


certa vez, poe explicou que antipatizava não com a doutrina transcendentalista em si, mas com "os embusteiros e os sofistas". não especificou quem seriam. o engraçado é que, se apreciava profundamente nathaniel hawthorne, a proximidade entre este e o círculo transcendentalista - na verdade, o simples fato de morar em concord - foi motivo para poe investir contra ele.

(numa rabeira a propósito da presença bastante difundida de anacreonte naquela primeira metade do século XIX, ver também as traduções de thoreau de algumas odes do poeta grego da juventude de poe, in thoreau tradutor.)
.

anacreonte em poe

embora eu não me sinta muito persuadida de uma possível filiação direta, aventada por claudio w. abramo,* de the raven
a anacreonte, é inegável a presença do poeta como símbolo de louco hedonismo juvenil em algumas peças de poe.

além de shadow - a parable, mencionada por abramo, lembro os versos da terceira estrofe de introduction (1831), reelaboração de preface (1829) e posteriormente trabalhada em diversas versões de romance, até a versão final de 1845.

For, being an idle boy lang syne,

Who read Anacreon, and drank wine,
I early found Anacreon rhymes
Were almost passionate sometimes —
And by strange alchemy of brain
His pleasures always turn’d to pain —
His naivete to wild desire —
His wit to love — his wine to fire —
And so, being young and dipt in folly
I fell in love with melancholy,
And used to throw my earthly rest
And quiet all away in jest —
I could not love except where Death
Was mingling his with Beauty’s breath —
Or Hymen, Time, and Destiny
Were stalking between her and me.
é interessante acompanhar a trajetória do poema entre sua formulação inicial, em 1829, até a versão final de 1845: aqui.

interessante também notar que a estrofe de 1831, com sua referência a anacreonte, traz os elementos que reaparecerão refundidos em prosa na parábola shadow, desde sua versão inicial de 1835 (aqui).

desnecessário destacar a strange alchemy of brain, acima, descrevendo com tanta clareza o processo de intensificação e inversão (ou perversão, em sentido psicanalítico) das pulsões e afetos, que viria a caracterizar
grande parte de sua obra futura.

* o corvo (2011), pp. 15, 47-51.
.

14 de mai de 2011

os sons do tempo

I.
thoreau, numa entrada em seu diário em agosto de 1838, tinha escrito uma nota chamada the time of universe. ali dizia ele:
THE TIME OF THE UNIVERSE

Aug. 10. Nor can all the vanities that so vex the world alter one whit the measure that night has chosen, but ever it must be short particular metre. The human soul is a silent harp in God's quire, whose strings need only to be swept by the divine breath to chime in with the harmonies of creation. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.
em the natural history of massachusetts, longo artigo que saiu anônimo em the dial em 1842, thoreau utilizou sua nota acima, enxugando-a para:
Nor can all the vanities that vex the world alter one whit the measure that night has chosen. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.
embora o termo se aplicasse outrora a vários coleópteros, hoje o deathwatch designa mais particularmente o xestobium rufovillosum, um pequeno coleóptero da família dos carunchos, apreciador especialmente de madeira de carvalho, já meio umedecida ou embolorada, seja na mata ou em em casas velhas. emite um som regular, que faz lembrar o tiquetaque de um relógio, e, geralmente estando dentro da madeira, fica oculto ao olho humano. por superstição popular, ficou associado a um presságio sinistro, prenunciando a morte - e daí o nome deathwatch, "relógio da morte" (aliás, em francês o bichinho, la grosse vrillette, também tem o nome de horloge de la mort.) paralelamente, vale lembrar que deathwatch significa também a vigília de um moribundo ou ainda o velório de um morto.


já a analogia literária ou de fundo romântico-transcendental de thoreau entre o cricri do grilo, o tique do caruncho e a pulsação (isto é, o bater do coração que se sente no pulso) era, ao que consta, inteiramente original.

assim, aguçada minha curiosidade pelo breve artigo de e. arthur robinson a este respeito,* pareceu-me extremamente sugestivo e até esclarecedor reler em the tell-tale heart (1843), de edgar allan poe, a passagem:
He was still sitting up in the bed, listening; just as I have done night after night hearkening to the deathwatches in the wall.
como se sabe, "o coração revelador" (ou denunciador, ou delator, variam as traduções) descreve, a partir de certa altura da narrativa, a alucinação crescente de um assassino que sente latejar em seus ouvidos um som cada vez mais alto e pulsante, que por fim julga ser o coração do velho que havia esquartejado.

é tudo muito interessante: oito longas noites de silenciosa e sinistra vigília, à espera da ocasião propícia para liquidar a vítima. o assassino no escuro, sozinho, o velho dormindo, imagina-se o vazio sonoro em que qualquer mínimo ruído repercutiria muito. digno de atenção o verbo hearkening: não apenas ouvindo casualmente, mas prestando muita atenção. basta pensar: oito longas noites de profundo silêncio, ouvindo com atenção obsessiva os prenúncios de morte, os deathwatches in the wall! a psique como que esvaziada após se dissolver a tremenda tensão acumulada até o momento do assassinato; os carunchos que, imagina-se, continuam com seu tiquetaque na madeira, mesmo tendo o assassino se esquecido da existência deles; a sensação de um terrível aumento do espaço interno de sua cabeça; a pulsação rítmica se avolumando na tremenda caixa de ressonância em que se transformou a mente do protagonista, finda sua vigília de morte; quase como consequência de férrea lógica alucinatória surge a projeção final do som do caruncho fatídico para a pulsação do coração do morto.

e ainda mais interessante constatar esse vínculo entre uma referência muito concreta - o som no interior da parede - e o enlouquecimento progressivo do protagonista. isso, a meu ver, enriquece, dá uma densidade bem maior ao processo psicológico do personagem do que se se alimentasse apenas de sua ansiedade mental, desligada de qualquer elemento exterior tangível.

depois de reler o conto à luz da conexão entre thoreau, com sua analogia metafísica entre o tique do caruncho e o bater do coração, e poe, com sua transposição alucinatória do tique dos carunchos na parede para o bater do coração do morto, sinto-me razoavelmente persuadida de que o elemento central do conto the tell-tale heart é mesmo o deathwatch, que dá a chave para entendermos o desenvolvimento do processo mental do protagonista. se o entrelaçamento dos sentidos na mesma expressão: o bichinho em si, o som que prenuncia a morte, a espera marcada pelo tiquetaque desse relógio-da-morte, a vigília ao lado do moribundo, a vigília para infligir a morte, já leva a um grau não negligenciável de espessura literária, ao acrescentarmos a ele a ligação tácita - mas tão convincente, praticamente inegável depois de a conhecermos! - com o pulse-beat, a batida do coração de thoreau, a interligação dos elementos da narrativa lhe confere qualidade adicional.

ainda a esta luz, outros detalhes adquirem interesse renovado: identifica-se o som que o velho ouve após despertar; sua esperança de que o som pressago seja apenas um cricrilar (se lembrarmos que, tradicionalmente, o grilo é sinal de boa sorte, simétrico inverso dos maus presságios do deathwatch; aliás, também mencionado por thoreau em sua tríade cósmica do tempo universal); as outras menções a relógios - tudo parece adquirir mais consistência.

II
assim, foi decepcionante constatar que as traduções brasileiras mais conhecidas de the tell-tale heart simplesmente desconsideram ou francamente erram ao traduzir o trecho que descreve o protagonista hearkening to the deathwatches in the wall. temos:
  • oscar mendes e milton amado: ouvindo a ronda da morte próxima
  • josé paulo paes: espreitando o relógio na parede
  • clarice lispector (adapt.): omitido
fabiano bruno gonçalves, em sua dissertação "tradução, interpretação e recepção literária: manifestações de edgar allan poe no brasil" (ufrgs, 2006), debruça-se precisamente sobre este conto e comenta, entre outras coisas, a dificuldade de traduzir satisfatoriamente death-watch. além dos que citei acima, apresenta mais cinco exemplos:
  • januário leite (literato caboverdiano radicado em lisboa;** dado equivocadamente como autor de "uma das versões brasileiras mais antigas do conto"): escutando os ralos da parede
  • annunziata de filippis (embora o autor da dissertação não observe o fato, trata-se de uma tradução por interposição do italiano): escutando os pássaros da morte esvoaçando ameaçadores
  • márcia pedreira: ouvindo a morte rondar ali por perto
  • luísa lobo: ouvindo a ronda da morte próxima [note-se a identidade com a solução de mendes / amado]
  • paulo schiller: espreitando os relógios da morte na parede
repito: não se trata apenas do uso de um termo polissêmico como deathwatch, sem dúvida de difícil tratamento numa tradução. trata-se ainda mais da conexão propriamente literária, interior à narrativa, entre o som do inseto, com todas as suas conotações pressagas, e a batida do coração, conexão esta que funciona como ponte entre o mundo concreto sensível e o fenômeno psíquico que resulta no colapso mental do protagonista.

é uma pena que, já praticamente perdida a densidade semântica de deathwatch nas referidas traduções, perca-se também a possibilidade de acompanhar na narrativa o funcionamento desse sutil mecanismo de projeção e transposição entre os sons de máxima carga simbólica: o som da morte e o som da vida.

* trata-se de seu artigo "Thoreau and the Deathwatch in Poe’s 'The Tell-Tale Heart'”, disponível aqui.
** atualização em 27/7/11: margarida vale de gato, da universidade de lisboa, gentilmente avisa que não se trata do poeta caboverdiano januário leite. de qualquer forma, o tradutor homônimo aqui citado era lusitano, integrante do grupo "renascença portuguesa" e colaborador do órgão "a águia", ao lado de álvaro pinto. o fato de ser português é também o que explica sua pertinente opção por "ralos".

imagem: deathwatch, google.

13 de mai de 2011

o bálsamo de gileade

Outro aspecto que Claudio Weber Abramo aponta em seu ensaio sobre O Corvo é "uma possível gênese bíblica e anacreôntica para a narrativa de Poe" (p. 15). A poeana brasileira tem imensas lacunas, e essa sugestão, desenvolvida no capítulo "Fontes" (pp. 43-56), parece promissora. 

 O capítulo se inicia com a transcrição de Jeremias 8:22, conforme a Bíblia do rei Jaime: Is there no balm in Gilead; is there no physician there? why then is not the health of the daughter of my people recovered? (p. 43) Inspirada pela citação, atraiu-me no poema o verso que remete diretamente a ela - a quinta linha da 15a. estrofe, quando o personagem pergunta ao Corvo: Is there - is there balm in Gilead? O escopo da análise de Abramo é bem mais amplo, mas essa menção explícita ao bálsamo de Gileade - que justamente deve ter servido, imagino eu, de ponto de partida para a hipótese mais abrangente do autor - dá mesmo margem a supor que a presença de Jeremias em The Raven não é episódica nem circunstancial. E, nessa linha de raciocínio, eu arriscaria: tampouco seria à toa que, nesta e na estrofe seguinte, o personagem se dirige ao Corvo chamando-o de Profeta.




Balm of Gilead, balm of Mecca, Mecca balsam; baume de Galaad, baume de Judée, baume de la Mecque; bálsamo de Gilead(e), bálsamo de Galaad, bálsamo da meca, bálsamo da Judeia, os nomes variam. (Baudelaire e mais tarde Mallarmé usaram baume en Judée.)

 Sempre consultando o utilíssimo site de Elson Fróes, para "balm in Gilead" temos:
  • Machado de Assis: um bálsamo no mundo
  • Alfredo R. Rodrigues: o bálsamo ... do esquecimento
  • João Kopke: lenitivo que a [a dor] acalme
  • Emílio de Menezes: algum repouso, algum consolo
  • Fernando Pessoa: um bálsamo longínquo
  • Gondim da Fonseca: bálsamo em Galaad
  • Milton Amado: um bálsamo em Galaad
  • Benedito Lopes: na Judeia um bálsamo
  • José Luiz de Oliveira: um bálsamo pra dor
  • Rubens F. Lucchetti: um bálsamo da Judeia
  • Alexei Bueno: um bálsamo em Galaad
  • João Inácio Padilha: no mundo um bálsamo
  • Sergio Duarte: algum bálsamo
  • Edson Negromonte: o bálsamo de Galaade
  • Odair Creazzo Jr.: tem Galahad bálsamo
  • Aluysio M. Sampaio: bálsamo em Galaad
  • Luís C. Guimarães: um bálsamo em Galaad
  • Helder da Rocha: bálsamo em Gileade
  • Vinícius Alves: o bálsamo em Galaad
  • Diego Raphael: bálsamo em Galaad
  • Eduardo A. Rodrigues: um bálsamo em Galaad
  • Carlos Primati: o bálsamo
  • Isa Mara Lando: um bálsamo ali
  • Margarida Vale de Gato: em Galaad há consolo
  • Alskander Santos: bálsamo
  • Thereza C. R. da Motta: bálsamo na Esperança
  • Raphael Soares: bálsamo em outros mares

12 de mai de 2011

poe contista

.

nos últimos posts, tenho me concentrado em the raven e alguns aspectos que me parecem interessantes. de acompanhamento às traduções do poema comentadas por ivo barroso e claudio w. abramo, quem se interessa por seus contos encontra aqui no blog mais de uma trintena de posts agrupados na linha de assunto poe no brasilpode consultar também um artigo meu, "alguns aspectos da presença de edgar allan poe no brasil", publicado na tradução em revista,  puc-rio, 2010/1, disponível aqui.
.

11 de mai de 2011

emblemas

.
na primeira vez em que publicou the raven, poe assinou com o pseudônimo "quarles". não parece haver muitas dúvidas de que ele se referia a francis quarles, autor de paráfrases bíblicas e poeta seiscentista inglês que escreveu um livro de emblemas,* reiterativamente chamado emblems.


há quem diga que talvez poe estivesse fazendo um trocadilho com quarrels. de minha parte, acho imensamente sugestiva a referência de poe a quarles, insinuando por extensão o caráter emblemático d'o corvo.

* categoria literária específica dos séculos XVI e XVII, basicamente com imagens simbólicas e textos explicativos, muitas vezes de fundo bíblico. na wikipedia encontram-se inúmeros verbetes e links para obras de emblemas.

imagem: quarles, emblems
.

as versões de the raven

.
a história de the raven é bastante acidentada: entre sua primeira publicação em janeiro de 1845 até a edição de 1849, tida como a versão final autorizada, poe procedeu a dezenas de modificações no texto. a escolha da edição não deveria ser leviana, portanto. mas, para as traduções feitas no brasil (e mesmo na frança, com baudelaire e mallarmé), já temos aí um problema: se poe teve por bem, entre outras coisas, modificar soul para fancy na oitava e na duodécima estrofes do poema, muitas das traduções, quando não simplesmente atropelam seja a alma ou a fantasia, adotam o repudiado soul de 1845 - o que não me parece coisa de somenos, ainda mais se levarmos em conta as ressonâncias da seminal distinção romântica fancy/ imagination do amado coleridge de poe.

aqui se encontra o histórico das modificações feitas por poe, com respectivos textos.
.

10 de mai de 2011

poe, baudelaire e machado

.

Claudio Weber Abramo, em O Corvo, aponta o abeberamento de Machado de Assis em Le Corbeau, de Charles Baudelaire, para sua tradução do poema de Poe, The Raven. A indicação me parece relevante, não para desmerecermos, claro, mas para entendermos melhor alguns soluções machadianas, ainda mais em se tratando de um clássico de nosso patrimônio tradutório de influência tão grande e duradoura.

Essa rota de contorno, prossegue Abramo, viria a se refletir nas traduções de Emílio de Menezes e Benedito Lopes, "tendo ainda se replicado em trechos da versão de Rubens Francisco Lucchetti, decerto oriundos da leitura de Machado de Assis" (p. 15).

Eis alguns dos exemplos dados à p. 77 ss.: bleak December como B. "glacial décembre" e M. "glacial dezembro"; each separate dying ember wrought its ghost upon the floor: em B. "chaque tison brodait à son tour le planchet du reflet de son agonie", M. "cada brasa do lar sobre o chão refletia a sua última agonia"; of the saintly days of yore em B. como "digne des anciens jours" e em M. como "digno de antigos dias"; Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly, inversão mal entendida por B., que dá "Je fus émerveillé que ce disgracieux volatile entendît si facilment la parole", que reaparece em M. como "Vendo que o pássaro entendia a pergunta que eu lhe fazia"; This I sat engaged in guessing, em B. ampliado como "Je me tenais ainsi, rêvant, conjecturant" e em M. como "Assim posto, devaneando, meditando, conjecturando".

O original e as duas traduções se encontram com facilidade na rede: The Raven, Le Corbeau, O Corvo.
.A

9 de mai de 2011

sons n'o corvo

Quem acompanha meu trabalho em Lendo Walden sabe como sou obsessiva com as questões de sentido, nuances, referências, alusões, jogos de palavras etc. numa prosa de grande densidade literária como é Walden. Já poesia, sempre considerei outro universo, talvez acostumada à tradição mais estetizante ou formalista, que não raro coloca a ênfase sobre a rima, o metro, o ritmo, por vezes sacrificando sentidos mais próximos do original. Em todo caso, mesmo evitando o terreno poético, sou do parecer de que uma obra constitui uma unidade e que o autor é responsável por suas escolhas, as quais, como tradutora, devo respeitar.

Claudio Weber Abramo, em seu ensaio recentemente publicado pela editora Hedra, coloca o problema da tradução poética nos seguintes termos: "Dada a impossibilidade de se manter paralelismo simultâneo entre ritmos/melodias e significados numa tradução, qual dimensão deve ser preferencialmente preservada? Excluindo como irrazoável a declaração de que ambas devem ser obedecidas, o tradutor precisa fazer uma escolha" (p. 22). Sua posição é clara: ele defende a "tradução com compromisso semântico". Naturalmente admite que traduções "métricas", isto é, estruturadas em arcabouço rítmico-melódico, "podem ser excelentes enquanto poesia", ressalvando: "o que não significa necessariamente que sejam boas como traduções" (p. 13). "Boas como traduções"... esta é a grande questão, a questão "filosófica", que Abramo trata na seção "Relativismo e Universalismo" (pp. 20-24) - sem entrar nessa discussão infindável e, no fundo, indecidível, concordo com Abramo que "todo problema relacionado à tradução é um problema prático".

Isso me leva a um exemplo concreto das tarefas que enfrenta um tradutor. Há um verso em The Raven que diz: Swung by seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor (segundo verso da 14a. estrofe).

Bom, começa que até 1848, em vez de seraphim, o verso trazia angels, mas tudo bem.* A questão é o verbo: tinkled. To tinkle: tilintar, tinir, designando um tipo de sonoridade muito específico, em geral alto ou distinto e penetrante, que embute a ideia de repetição, como pulseiras que se entrechocam, um guizo que bate, uma campainha que toca, moedas que (justamente) tilintam umas contras as outras, ou mesmo um dedilhado ao piano, por exemplo. O que faz o tradutor diante desse tinkled? Preserva-o? Considera-o secundário? Passos tilintando ou ressoando no chão atapetado (e um tapete felpudo, tufted, ainda por cima)... Despropositado?

Nas várias traduções disponíveis no site de Elson Fróes, dez omitem a passagem e, portanto, a sonoridade descrita no verso. Outras mantêm a passagem com um verbo pouco "sonoro": roçando, roçar, roçagando, pousassem, deslizaram, revoa, revoando, bem de leve pisavam, tropeçou ("cujo pé tropeçou", talvez erro de entendimento de foot-falls). Outras preservam a referência sonora ou rítmica, com maior ou menor grau de generalidade: ressoavam, ressoavam, roçassem em cadência, soam musicais, dando passos musicais, ressoavam cadenciais, passasse com passos musicais, tinindo passos frenéticos (?) e tilintaram.

Aqui reproduzo um trecho de uma carta de Poe, de 15 de dezembro de 1848, explicando a um crítico o uso de tinkled:
Your objection to the tinkling of the footfalls is far more pointed, and in the course of composition occurred so forcibly to myself that I hesitated to use the term. I finally used it, because I saw that it had, in its first conception, been suggested to my mind by the sense of the supernatural with which it was, at the moment, filled. No human or physical foot could tinkle on a soft carpet — therefore the tinkling of feet would vividly convey the supernatural impression. This was the idea, and it is good within itself; but if it fails (as I fear it does) to make itself immediately and generally felt according to my intention — then in so much is it badly conveyed, or expressed. [negrito meu, DB]*
Ainda a propósito do tinkle deste verso, Poe teria se inspirado em Isaías 3:16 (CWA, p. 46 e n.). Claro está que, nos passos das filhas de Sião, eram os ornamentos dos tornozelos que tilintavam ao andar delas. No caso dos serafins do verso, seriam seus próprios pés a ressoar sem que o som fosse abafado pelo tapete, o que de fato é um pouco difícil de entender: daí a impressão sobrenatural pretendida por Poe. O detalhe não me parece trivial.

* Em 1848, Poe altera angels para Seraphim; na versão derradeira (1849), modifica para seraphim, em minúscula. Ver histórico das diversas versões de The Raven.
.

os corvos

 
 
Elson Fróes mantém em seu site uma ótima seção sobre Poe, chamada "Uma Nuvem de Corvos", com nada menos de 34 traduções de The Raven para o português, em ordem cronológica, todas elas linkadas. Veja aqui.
 
Abaixo seguem elas, em ordem alfabética, assinaladas entre parênteses as reproduzidas (ou citadas, cit.) por Ivo Barroso (INB) em O Corvo e suas traduções e por Claudio Weber Abramo (CWA) em O Corvo: gênese, referências e traduções do poema de Edgar Allan Poe
  • Alexei Bueno (INB; CWA)
  • Alfredo Ferreira Rodrigues (INB, cit.)
  • Alskander Santos
  • Aluysio Mendonça Sampaio (INB, cit.)
  • Augusto de Campos* (CWA)
  • Benedito Lopes (INB; CWA)
  • Cabral do Nascimento
  • Carlos Primati
  • Diego Raphael (INB, cit.)
  • Edson Negromonte
  • Eduardo A. Rodrigues
  • Emílio de Meneses (INB; CWA)
  • Fernando Pessoa (INB; CWA)
  • Gondin da Fonseca (INB: CWA)
  • Haroldo de Campos* (CWA)
  • Helder da Rocha
  • Isa Mara Lando
  • João Costa
  • João Inácio Padilha (INB, cit.; CWA)
  • João Kopke
  • Jorge Wanderley (INB)
  • José Lira (CWA)
  • José Luiz de Oliveira
  • Luis Carlos Guimarães (INB, cit.)
  • Machado de Assis (INB; CWA)
  • Margarida Vale de Gato
  • Máximo das Dores
  • Milton Amado (INB; CWA)
  • Odair Creazzo Jr.
  • Raphael Soares
  • Rubens Francisco Lucchetti (CWA)
  • Sergio Duarte (INB, cit.; CWA)
  • Thereza C. Rocque da Motta
  • Vinícius Alves (INB, cit.)
* Tradução apenas da última estrofe.

Às 34 traduções em português listadas no site de Elson Fróes, somem-se a de Mécia Mouzinho de Albuquerque (1890) e a de Claudio Weber Abramo (1997).

Atualização em 10/5: Agradeço o comentário de Elaphar retificando a data de publicação da de CWA.

imagem: masahisa fukase, 1978
.

8 de mai de 2011

ivo barroso, o corvo e suas traduções

num contraste que pode ser interessante, retomo aqui um grande marco nos estudos comparados d'o corvo no brasil: o corvo e suas traduções, de ivo barroso. a obra foi publicada originalmente em 1998, pela nova aguilar (selo lacerda), com segunda edição ampliada em 2000. está esgotada há alguns anos, e recebi a ótima notícia de que em breve será relançada pela leya.

ivo barroso, poeta, crítico literário e tradutor, defende uma posição muito diferente da adotada por claudio weber abramo em o corvo: gênese, referências e traduções do poema de edgar allan poe (hedra, 2011). mas numa avaliação ambos parecem concordar: a qualidade lítero-tradutória d'o corvo de milton amado. abramo apresenta a tradução de milton amado às pp. 120-24 de seu livro, considerando-a "uma tentativa valorosa" que constitui "um verdadeiro tour de force" - o que, em sua pena econômica em elogios, não me parece pouca coisa.

em 2009, eu tinha publicado um artigo de ivo barroso sobre essa tradução. reproduzo-o aqui.


A PRIMEIRA DETERMINAÇÃO


Havia alguns tradutores injustiçados, que eu simplesmente venerava. Faria o que estivesse a meu alcance para promovê-los, para divulgar suas qualidades ímpares. O primeiro deles seria Mílton Amado, autor de uma tradução inigualável do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. A primeira vez que a li, sem ainda conhecer o original, senti que estava diante de uma organização poética perfeita: ritmo, linguagem, dramaticidade.

O posterior cotejo com o original veio corroborar minha sensação primitiva: toda a angústia, grandeza, euforia, exaltação que Poe me transmitia em inglês retinia, ecoava, revivia nos versos de Milton. E quem era ele? Um desconhecido e tímido jornalista mineiro que sempre vivera esmagado pela estreiteza intelectual da província; pobre, marginalizado, sem que ninguém lhe reconhecesse o talento. Seu nome sequer constava nas obras de Poe como o tradutor dos versos. O que aparecia em letras grandes era o de Oscar Mendes, tradutor dos contos (aliás de parte dos), da prosa do genial Edgar Allan. O crédito a Milton, quando havia, era em corpo mínimo, escondido, escamoteado. Consegui a informação de que a viúva e seu filho Eugênio (também tradutor) moravam em Belo Horizonte. Procurei-os lá e soube que Milton pegava com Oscar Mendes traduções para fazer e em geral quem levava as honras era este último. Apesar de suas inúmeras traduções, as assinadas apenas com seu nome, Milton Amado, eram o Dom Quixote e as Fábulas de La Fontaine (Milton fez em vida o 1º volume e Eugênio terminou o 2º). Falei-lhes de minha intenção de escrever um pequeno ensaio provando com argumentos críticos que a tradução de O Corvo, feita por Milton, era superior às conhecidas de Machado de Assis e de Fernando Pessoa. Os direitos autorais da 1ª edição reverteriam para a família.

Os direitos autorais da tradução de Milton (as traduções eram vendidas aos editores) pertenciam à Nova Aguilar e foi a ela que propus a publicação de meu ensaio, que saiu em 1ª edição em 1998, com um entusiástico prefácio de Carlos Heitor Cony. Ele não conhecia a tradução de Milton e ficou encantado quando a viu. Escreveu uma crônica na Folha, que despertou a atenção de seus inúmeros leitores. Eu fazia um cotejo da tradução de Milton com a dos outros autores que então conhecia: Machado, Pessoa, Emílio de Meneses, Gondim da Fonseca, Benedito Lopes e Alexei Bueno. Acrescentei as duas famosas francesas, de Baudelaire e de Mallarmé. O livro vendeu bem, a família ficou contente, a editora pensou logo numa 2ª edição. Já a esta altura (2000) haviam chegado muitas informações e colaborações. Foram acrescentadas as de Jorge Wanderley e a de Didier Lamaison (em francês) e mencionadas mais as seguintes: a de Alfredo Ferreira Rodrigues (várias, a mais antiga de 1914), a de João Inácio Padilha, a de Aluísio Mendonça Sampaio, a de Sérgio Duarte, a de Luís Carlos Guimarães, a de Vinícius Alves e a (ótima) de Diego Raphael. Intimei meu amigo Didier Lamaison a dotar sua língua de uma tradução em versos do grande poema; tanto Baudelaire quanto Mallarmé o haviam feito em prosa, o que, na minha opinião, invalidava a possibilidade de transmitir o ritmo, a beleza das rimas tríplices, a grandiloquência declamatória do poema. Não se podia esquecer que Poe, em seus últimos anos, vivia de declamar em público a sua criação magistral. Didier aceitou o repto e reproduziu, em francês, a façanha que Milton Amado conseguira em português. Se, com minhas traduções de escritores gauleses, tenho prestado, ainda que indiretamente, algum serviço cultural à França, ter sido o instigador dessa genial tradução foi para mim o trabalho que seria mais digno de encômio.#

Ivo Barroso

atualização em 27/2/2012: finalmente sai a aguardada reedição do livro. agradeço o toque de tiago pavan, da livraria 30 por cento, aqui.

7 de mai de 2011

o corvo, de claudio weber abramo

.
a editora hedra lançou recentemente um ensaio de claudio weber abramo, o corvo: gênese, referências e traduções do poema de edgar allan poe.


é um ensaio de grande fôlego, com exaustivo aparato crítico e posição teórica muito clara, exposta desde o primeiro parágrafo: "Traduzir (poesia ou qualquer outro tipo de texto) conferindo-se predominância a sons e ritmos e subordinando-se a semântica aos caprichos do metro constitui uma desconsideração consciente quanto ao que é mais importante" (p. 13), e adiante "O que permite proceder-se a traduções são as estruturas sintáticas e a semântica" (p. 18). caberia como bibliografia obrigatória em todos os cursos sobre literatura e tradução.

comentarei a obra aos poucos. entre seu rigor e sua riqueza, destaca-se desde já um apontamento fundamental que, quanto mais não fosse, justificaria por si só essa edição: claudio weber abramo indica de maneira bastante convincente que a célebre tradução d'o corvo feita por machado de assis se baseou muito mais em le corbeau de baudelaire do que em the raven de poe.

atualização: em 26/5, o caderno da ilustrada, na folha de s. paulo, publicou uma breve resenha minha sobre o livro: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2506201117.htm
.

6 de mai de 2011

paulo bezerra na globonews


ontem, dia 5 de maio, o tradutor paulo bezerra foi o convidado da globonews.

achei sensacional, primeiro porque paulo bezerra é um grandíssimo tradutor, responsável pela grande onda de renovação de dostoiévski no brasil; segundo porque sua presença num programa de alcance nacional como a globonews sinaliza e incentiva o reconhecimento da importância da tradução junto ao grande público.

paulo bezerra comentou vários pontos:
  • sua trajetória até se tornar um dos maiores tradutores do brasil
  • confluências entre o duplo e dom casmurro; entre irmãos karamázov e grande sertão: veredas; entre a criatura dócil e são bernardo e infância. com muita elegância, não deixou de elogiar o trabalho de fátima bianchi na tradução de a criatura dócil.
  • o problema das traduções indiretas e as perdas literárias decorrentes disso - lembrando, no caso de dostoiévski e outros nomes da literatura russa oitocentista, o terrível peso da tradição beletrista francesa
  • a ética na tradução, o respeito à palavra inviolável do outro, o compromisso com a qualidade na tradução
  • a transformação da mentalidade editorial, passando a valorizar os aspectos autorais de uma tradução: exemplificada na forma de remuneração do trabalho em 10% sobre o preço de capa
  • a redução crescente da tradução entendida como "bico"
fiquei muito feliz e surpresa: ao comentar sobre a ética na tradução, paulo bezerra falou sobre o movimento contra fraudes editoriais, honrando-me muito ao citar minha pessoa.

foto de paulo bezerra, aqui. aliás, este mesmo link da foto no blog ácido plural traz a íntegra de uma ótima entrevista de paulo bezerra, de maio de 2010.
.