24 de fev de 2011

a meiaboquice de uns kindles

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tomaz tadeu envia um link ótimo para o caustic cover critic. o post fala sobre essas edições kindle meia-boca que andam por aí, e começa com uma boa questão:
e aí divirta-se e espante-se com as capas!
The huge number of people doing quickie formats of public domain texts for the Kindle e-reader, and then charging for them, surprises me--can't you download the originals from Project Gutenberg free? Or are they just hoping to make money from the clueless? In any case, a look at some of the offerings offers plenty of "cover" design amusement.

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23 de fev de 2011

huckleberry finn, parte II

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na dissertação de vera lúcia ramos, que apresentei no post anterior, o capítulo quatro procede a uma análise de três traduções de as aventuras de huckleberry finn, de mark twain, a saber: monteiro lobato, sergio flaksman e "alex marins". às pp. 132-142, o estudo se detém especificamente sobre as escolhas adotadas na tradução em nome de um fictício "alex marins" (pela martin claret), com nove tabelas e muitas dezenas de exemplos que parecem indicar com boa margem de probabilidade o uso de uma tradução portuguesa.

existem várias traduções portuguesas de huckleberry finn. vera lúcia ramos chegou a comparar uma delas, a de miriam marder monteiro (pela europa-américa), com a tradução assinada por "alex marins": são visivelmente muito diferentes. cabe lembrar que o clube do livro publicou a obra de mark twain em 1961, em dois volumes, com tradução em nome de josé maria machado: não raro as chamadas "traduções especiais" do clube do livro eram apenas adaptações de traduções portuguesas ao português brasileiro.

assim, se alguém se interessar em dar andamento às indicações de vera lúcia ramos sobre o possível uso de fontes portuguesas para a suposta tradução de "alex marins", talvez pudesse ser útil consultar inicialmente a dita tradução de josé maria machado para o clube do livro. dependendo da resultado da análise, o foco poderia ser retroativo, para a tradução de ricardo fernandes para a portugália (1954), por exemplo, ou avançar para a de daniel augusto gonçalves, pela civilização (1978). sugiro esta última por lembrar que caninos brancos, de jack london, em nome de pietro nassetti pela martin claret, é uma cópia explícita de colmilhos brancos, de olinda gomes, por essa mesma editora (1969). veja aqui.
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mark twain, as aventuras de huckleberry finn

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encontro por acaso uma dissertação de mestrado muito interessante: chama-se a sivilização-civilização de huckleberry finn: uma proposta de tradução, de vera lúcia ramos, de 2008, pelo departamento de letras modernas da usp, disponível aqui. além da proposta de tradução da autora, a dissertação traz também uma minuciosa análise comparada de três traduções da obra no brasil: a de monteiro lobato (brasiliense), a de sergio flaksman (ática) e a assinada pelo fantasmagórico "alex marins" (martin claret).

outro elemento interessante na dissertação é o anexo B, "notícias a respeito da martin claret e do tradutor alex marins", às pp. 246-253.

voltarei a ela.

imagem: capa 1a. edição 1885
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22 de fev de 2011

questão prática II

tenho comentado nos posts mais recentes o problema de fraudes e obras espúrias à venda em livrarias físicas e virtuais.

até onde entendi, se um leitor cliente da amazon constata que um livro à venda no site é uma fraude, basta comunicar à empresa e ela providencia a pronta devolução do dinheiro e a remoção do título espúrio (imagino que depois de confirmada a procedência da reclamação). se um leitor cliente da livraria cultura (e costumo mencionar geralmente a livraria cultura por tomá-la quase como um símbolo) constata que um livro à venda em uma de suas lojas ou no site é uma fraude, não acontece nada e o reclamante ainda leva de brinde comentários do tipo: "se é assim, então me traga uma ordem judicial, e acatarei sua reclamação".

mas imaginei que, por outro lado, quando é a própria editora a reconhecer o problema, as livrarias iriam se mostrar mais solícitas. parece que não é bem assim. por isso hoje até me compadeci da situação em que se debate o grupo geração editorial: a empresa volta a admitir em mensagem ao nãogostodeplágio que teve problemas em seu catálogo e tomou as devidas medidas: providenciou nova tradução de um título e interrompeu a publicação de outros - no entanto, esses títulos espúrios continuam a ser anunciados e vendidos em diversas livrarias.

fui examinar diversos títulos de outras editoras que igualmente declararam ter tomado suas devidas providências em relação às irregularidades de seus catálogos, como a rideel e a madras. aparentemente, estas tiveram mais sorte junto ao circuito livreiro: pesquisei os sites de várias livrarias, e não encontrei à venda nenhuma das obras apontadas e reconhecidas como irregulares.

isso reforça minha impressão de que seria interessante que o sr. willian novaes, que foi o representante do grupo geração editorial a entrar em contato recente com o nãogostodeplágio, também entrasse em contato com essas livrarias que continuam a comercializar obras irregulares do selo jardim dos livros, a despeito de todo o empenho da editora em sanar a situação.
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questão prática

vejamos, por exemplo, o caso do grupo geração, cujo comentário sobre antigas edições problemáticas da jardim dos livros acabei de publicar aqui.

o sr. willian novaes reitera que "A Arte da Guerra, de Sun Tzu, supostamente traduzida do chinês, era na verdade texto adaptado de várias traduções para o português. Tao logo percebemos isto - e a senhora divulgou amplamente o fato - solicitamos tradução, diretamente do chinês, ao sinólogo André Bueno, mestre em Filosofia e doutor em História pela USP, e reeditamos a obra."

todavia, apesar das providências tomadas pelo grupo geração, a livraria cultura se obstina em vender a edição espúria: veja aqui, em sua 1a. edição (2006), e aqui, em sua 2a. edição, pocket, 2007.

já as "Outras péssimas traduções da Jardim dos Livros não foram reimpressas", mas a livraria cultura continua a oferecê-las aos clientes desavisados: por exemplo, o essencial de jesus, aqui, e a vida secreta de laszlo, conde drácula, aqui.

e como fica? leitor chia, editora toma providências, livraria continua a vender? aí é complicado. será que o próprio sr. willian novaes, que com tanta gentileza e boa vontade enviou seus esclarecimentos ao nãogostodeplágio, é que vai ter de tomar providências mais enérgicas junto às livrarias que continuam a sujar o nome do grupo geração?

obs.: não sei se as outras traduções mencionadas pelo sr. willian novaes eram péssimas. o que o nãogostodeplágio apontou foi a falsa atribuição dos créditos de autoria da tradução em o essencial de jesus, o essencial do alcorão a vida secreta de laszlo, conde drácula.
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um bom exemplo

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bem que nossas livrarias podiam seguir o exemplo.
Fraud, November 10, 2010
By Alexandre M. C. Silva "Alex Castro"Amazon Verified Purchase(What's this?)
This review is from: Ethics (Kindle Edition)
They have used the Penguin cover as an intentional means to dupe customers into buying this ebook, when it is actually your standard free public domain edition with no introduction or notes. Not only do I want my money back, but I think those sellers should be banned from Amazon.
para situar a questão, reproduzo aqui o comentário de alex castro, que consta no post a responsabilidade das livrarias:
Oi Denise

Aconteceu comigo recentemente. Achei que estava comprando a Ética de Espinosa (of all books, né?) em edição kindle da Penguin, mas acabou que era só uma editora cambalacheira que pegou a capa da Penguin e colou no texto em domínio público que se encontra no Projeto Gutenberg.
Mandei um email para a Amazon e deixei uma resenha na página do produto contando o caso. Isso tudo me tomou menos de 10 minutos. Aqui vai a resenha: (o produto não está mais disponível)
http://www.amazon.com/review/R3ESU4VJ2U1OL4/ref=cm_cr_rdp_perm
No dia seguinte, a Amazon respondeu, devolveu meu dinheiro, pediu desculpas, e retirou o produto (e talvez a "editora") do catálogo.
A Amazon tem um dos melhores atendimentos ao consumidor do mundo. Compro lá quase todo mês desde 1995, já tive inúmeros problemas e foram todos resolvidos com presteza e educação.
aparentemente, a amazon não exigiu de alex castro um transitado em julgado sobre a fraude e uma ordem judicial determinando a retirada da edição espúria. por que a livraria cultura, por exemplo, não segue essa demonstração de bom senso e civilidade?
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grupo geração

reproduzo aqui a mensagem  do sr. willian novaes, do grupo geração editorial, pois entendo que o direito de resposta deve ser respeitado garantindo-lhe espaço de destaque:
Prezada Senhora,


A Geração Editorial não tem nenhuma tradução plagiada.

Nosso grupo editorial adquiriu uma pequena editora, a Jardim dos Livros, cuja edição de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, supostamente traduzida do chinês, era na verdade texto adaptado de várias traduções para o português.

Tao logo percebemos isto - e a senhora divulgou amplamente o fato - solicitamos tradução, diretamente do chinês, ao sinólogo André Bueno, mestre em Filosofia e doutor em História pela USP, e reeditamos a obra.

Outras péssimas traduções da Jardim dos Livros não foram reimpressas.

Solicitamos a gentileza de que, ao se referir no futuro a traduções plagiadas, não cite mais a Geração Editorial.

Caso queira referir-se ao fato de que existiu essa malfadada edição da Jardim dos Livros, faça-nos o favor de dizer a verdade, ou seja, que o novo publisher mandou providenciar nova tradução.

Atenciosamente,
Willian Novaes
Grupo Geração Editorial
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18 de fev de 2011

caso fundamento

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minha última notícia sobre a editora fundamento, de curitiba, tinha sido a divulgação do despacho do promotor, acatando as justificativas da editora e determinando o arquivamento do caso.

há várias alegações da fundamento que me parecem um tanto surpreendentes, mas que não me cabe comentar. quero apenas recapitular o argumento que a promotoria julgou decisivo para promover o arquivamento de minha denúncia: os tradutores de obras estrangeiras têm o direito de não indicar nem anunciar o seu nome na obra; o citado artigo concede expressamente ... o direito de proibir que se indique ou anuncie seu nome.

tenho comigo alguns depoimentos de tradutores que trabalham para a editora fundamento: posso afirmar com toda a segurança que pelo menos estes jamais a proibiram de lhes dar os devidos créditos de tradução. pelo contrário, sentiam-se revoltados com a flagrante lesão a seus direitos.

de qualquer forma, em se tratando de uma relação privada entre as partes, considerei que caberia aos tradutores diretamente interessados se manifestarem, por vias extrajudiciais ou judiciais, junto às esferas competentes e dei minha parte por encerrada.

fico satisfeita em saber que, embora o ministério público do paraná não tenha determinado a instauração de um inquérito para apurar melhor as responsabilidades da editora fundamento, esta parece ter se conscientizado de que estava realmente lesando os direitos morais dos autores das traduções de seu catálogo.

digo isso porque o nãogostodeplágio recebeu a seguinte mensagem de um profissional que faz traduções para a referida editora:
Recebi um exemplar de algumas traduções minhas publicadas pela Fundamento e, voilà! Na parte superior aparece:
Tradução: (empresa que emitiu a NF) (Meu nome)
Na ficha catalográfica ainda aparece "versão brasileira da editora", mas acho que já é um avanço!
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millorando

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seguindo na linha de the cow went to the swamp, de millôr, sergio pachá envia uma colaboração:
Recebi de um amigo atento à importância da comunicação entre os povos algumas frases nossas traduzidas para o inglês. Achei a idéia esplêndida e me pareceu que poderia ampliar as possibilidades comunicativas dos nossos compatriotas que freqüentam sessões espíritas vertendo-as também para o latim.
  • En nos in vitta. = É nóis na fita.
  • Mecum relinque quia faciem tuam liberabo. = Chá comigo que eu livro sua cara
  • Ego sum magis ego. = Eu sou mais eu.
  • Bonum-bonum vis? = Você quer um bom-bom?
  • Ne quidem venias quia non habet! = Nem vem que não tem!
  • Plena est novem horis = Ela é cheia de nove horas.
  • Ob scientiam omnino calvus sum = To careca de saber.
  • Eheu! Pelliculam meam combussi! = Oh! Queimei meu filme!
  • Equam lavabo. = Vou lavar a égua.
  • I nuciclas quaeritatum! = Vai catar coquinho!
  • Si curras, te bestia apprehendet; si maneas, te bestia devorabit ! = Se correr, o bicho pega, se ficar o bicho come!
  • Potius sero quam nunquam. = Antes tarde do que nunca.
  • Tolle mannulum e pluvia. = Tire o cavalinho da chuva.
  • Vacca in paludem incessit. = A vaca foi pro brejo!
  • Unam de Johanne-sine-Bracchio dare = Dar uma de João-sem-Braço.

17 de fev de 2011

a responsabilidade das livrarias

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em legatus X, reproduzi uma pergunta muito pertinente da jornalista raquel cozer sobre o caso da editora legatus, que vende ebooks com irregularidades editoriais no site da amazon. a questão é: "a Amazon lava as mãos em relação aos produtos que oferece?"

hoje, dra. maria adélia deixou um comentário esclarecedor sob o post citado, que reproduzo aqui:
Cara Denise

Reproduzo meu primeiro comentário n´a Biblioteca de Raquel:

"Prezada Senhora Raquel

Parabéns pelo seu blog e pelo excelente trabalho.

Temos uma futura grande editora. Estamos surpresos com a balbúrdia da Legatus na Amazon, (acompanhamos o nãogostodeplágio e as inúmeras picaretices do mundo editorial). Entendemos que a responsabilidade por quaisquer eventuais, digamos, malfeitos, é eminentemente da Legatus.

A Amazon é, nesse tipo de evento, intermediária – diferentemente da análise, por exemplo, do comércio do Kindle, em que sua responsabilidade seria indubitavelmente direta. Não pode ser obrigada, smj, a assegurar os conteúdos em responsabilidade solidária com as editoras. Deve haver um “disclaimer” em algum lugar.

Apesar disso, como lucra na venda de cada exemplar baixado – “subido” para os computadores pessoais dos pagantes – terá, sim, responsabilidade subsidiária caso a Legatus não honre o ressarcimento (ou até indenização) do consumidor que se sentir prejudicado.

A Cultura, mesmo se tratarmos de formato papel, está na mesma posição da Amazon, caso chegue a vender livros com cadernos faltosos, trocados, ou com conteúdo forjado etc.

Deixo-lhe meu abraço e reitero as congratulações iniciais, desejando muito sucesso, prosperidade e ótimas leituras.

MAVB"

Manifestei-me como advogada, em crua leitura da pergunta feita. Os adjetivos desairosos que tais editoras, data venia, merecem ficam dentre quatro paredes.

Abraço cordial,

Maria Adélia
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15 de fev de 2011

poe XXXIV, uma surpresa

em minha pesquisa sobre a presença de edgar allan poe no brasil, eu tinha concluído que a primeira tradução de the black cat publicada entre nós era a do português januário leite, que saiu pela annuario do brasil em 1926.

hoje foi uma agradabilíssima surpresa saber que já em 1920 oswaldo goeldi ilustrara uma tradução d'o gato preto, que foi publicada na revista leitura para todos.

em coedição com a fapesp, a cosac naify lançou um estudo de priscila rossinetti rufinoni, chamado oswaldo goeldi: iluminação, ilustração. aqui o link para o googlebooks, onde se pode ler o capítulo da autora sobre "o gato preto: ilustrações de leitura para todos".


essas ilustrações de goeldi, aliás, foram retomadas e reproduzidas em o gato preto, na tradução de bernardo carvalho publicada em 2004 também pela cosac naify.


fiquei curiosíssima em saber de quem é a tradução que saiu em 1920 na leitura para todos. seria, ela sim, a primeira em língua portuguesa a aparecer no brasil.

veja também:
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13 de fev de 2011

tradução que se dê ao respeito

o prezado lucio pimentel, do ratantia, me passou uma matéria do interney sobre o caso - até bastante rumoroso no twitter - do tradutor do batman 98 (panini) que achou que "petralha" era uma boa solução para nasty. depois veio o editor, falou que não foi o tradutor, e coisa e tal, mas "petralha" estava e "petralha" ficou, como se fosse algo muito natural.

tem também o caso de um tex, em que um trivialíssimo togliti dai piedi foi curiosamente vertido para "não se meta, macaco!", fato que gerou uma onda de protestos. (até onde entendi, os direitos mundiais do tex são da panini italiana, que no brasil tem parceria com a mythos, e os quadrinhos são traduzidos do italiano.)



não me meto no universo dos quadrinhos porque sou ignorante a respeito; e não costumo me deter nas variadas soluções tradutórias, afora nos casos que induzem a suspeitas de plágio ou que realmente ultrapassam o absurdo (altabooks, por exemplo).

sou contrária a expurgos, censuras e adulterações do patrimônio cultural, a reescrever livros do passado, sejam eles de shakespeare, monteiro lobato ou mark twain, filtrando-os por critérios do presente. mas aqui é muito diferente: que tradutor e/ou editor force a barra numa obra (contemporânea ou não, quadrinhos ou ensaio filosófico), cuja fonte usada para a tradução não tem nada que sugira preconceito racial ou político, e impinja ao leitor deturpações grosseiras parece-me vergonhoso e, do ponto de vista do ofício, simplesmente inaceitável.

namaria apresenta dados interessantes sobre os contratos entre a panini e o governo paulista. veja aqui.

imagem: fórum tex br
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12 de fev de 2011

editora legatus X

a coluna babel do caderno sabático, do jornal o estado de são paulo, a cargo da jornalista raquel cozer, traz uma atualização em sua nota sobre a editora legatus. reproduzo:
Update: De um comprador de livros da Legatus para Denise: “Eu baixei o Maquiavel. Tinha 36 paginas, era um resumo mutilado, digamos assim. O livro honesto tem 200 pgs. Eu paguei 6,99 dolares. Não eh um conto do vigario?"
Além de tudo, está faltando um contato para reclamações, não? Fiquei sabendo de toda essa história da Legatus por um conhecido que comprou a tradução do “Paulo Besera” e recebeu a do José Geraldo Vieira. Ele escreveu há umas três semanas para a Amazon pedindo o dinheiro de volta e não teve resposta até agora. Diz Vieira que a Amazon avisa quando recebe reclamações (houve algumas, segundo ele, sobre a Bíblia em inglês, na qual faltavam versículos), mas eu mesma já tentei entrar em contato com o site várias vezes sem nenhuma resposta. A Legatus deveria ter algum contato na internet para reclamações. E, indo ainda mais longe: a Amazon lava as mãos em relação aos produtos que oferece?
a denise ali citada sou eu. a obra de maquiavel citada é a arte da guerra, que a legatus retirou anteontem de seu catálogo na amazon e que constava como tradução de eugênio vinci de moraes. veja aqui e aqui. na verdade, o e-book comercializado pela legatus era um pífio arremedo mutilado, idêntico ao que a editora martin claret publica faz uns dez anos, dando como tradutor o fantasmático "jean melville", portador de alguns louros no panteão do plagiato nacional.

algum tempo atrás, eu já tinha até comentado que essa arte da guerra da martin claret mais parecia "um quilo de 150 gramas". veja aqui. pois bem, é essa piada de mau gosto que, até anteontem, a editora legatus vendia (por US$ 6,99) no site da amazon. curiosamente, seu ebook não traz o número das páginas. meu amigo contou uma por uma e concluiu que eram 36 (no corpo que escolheu; podia chegar a 40 páginas em corpo maior).

não entendo muito bem a nonchalance que o sr. alexandre vieira pires demonstra em suas declarações à jornalista raquel cozer, na nota supracitada. começa que já acho surpreendente que um editor desconheça os mais simples requisitos para a edição de qualquer livro, seja impresso, seja digital. que, além disso:
  • monte um catálogo composto apenas de obras disponíveis gratuitamente na rede, sem avaliar procedência e legitimidade, sem verificar dados e conteúdo,
  • publique resumos e obras incompletas, sem avisar o leitor e omitindo o número de páginas na edição,
  • utilize indevidamente nomes de tradutores seriíssimos (como eugênio vinci de moraes nos dois casos de maquiavel), 
  • flagrado nas irregularidades, credite as falhas aos sites       de onde extraiu as obras e declare com singela candura: “Confiei neles”,
confesso, é demais para meu entendimento.

outra questão que me parece muito importante é, como bem pergunta a jornalista raquel cozer: "a Amazon lava as mãos em relação aos produtos que oferece?"

atualização em 14/02: a l&pm, editora que publica a tradução d'a arte da guerra feita por eugênio vinci de moraes, alerta em seu site, "Cuidado ao baixar e-books: procure uma editora confiável". veja aqui.
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editora legatus IX

no sábado passado, a jornalista raquel cozer tinha dado uma nota em sua coluna semanal sobre um caso editorial bizarro.

dando continuidade ao tema, hoje ela publica outra nota, que reproduzo abaixo:
INTERNET

Negócio arriscado

Alexandre Pires Vieira descobriu nesta semana que vida de editor não é simples. Responsável pela Legatus, citada na última Babel por vender na Amazon e-books em português com dados incorretos, ele informou à coluna que não sabia da necessidade de fichas catalográficas e que vai tirar os títulos do ar até corrigir tudo. Nesta semana, a tradutora Denise Bottmann constatou diversos outros problemas, como versões cujos direitos não estão em domínio público.
           Sócio de empresa de seguros, Vieira disse que formatava livros para Kindle para consumo próprio até decidir testar a venda, há cerca de um ano, incluindo na loja para autores independentes da Amazon obras gratuitas localizadas em sites de download – aos quais credita os erros. “Confiei neles.” Hoje tem cerca de 100 títulos à venda. Os negócios, diz, têm crescido 20% ao mês. O best-seller é a Bíblia em inglês, com 600 cópias só em janeiro, enquanto a Bíblia em português (“A da Legatus é a única em português na Amazon”, orgulha-se) teve 60 exemplares vendidos no mesmo período.
bom, dizer o quê? talvez sugerir que os aspirantes a editor se informem previamente sobre os elementos básicos que compõem uma edição... acompanhe o caso legatus aqui.
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editora legatus VIII

um cliente insatisfeito deixou um comentário na amazon sobre o oliver twist que tinha comprado na edição kindle da editora legatus:
traducao incompleta!!, May 12, 2010 By Eduardo Fagundes Jr. - Oliver Twist (Portuguese Edition) (Kindle Edition) - A traducao desta obra e primorosa, porem esta incompleta!!! Alias, este detalhe nao consta nas especificacoes da obra. Cuidado!
no post legatus V, eu tinha comentado que a tradução de oliver twist feita por machado de assis era um caso engraçado. como bem notou o leitor em seu comentário acima reproduzido, ela é incompleta.

oliver twist tem 53 capítulos no original e, evidentemente, foi escrito em inglês. machado de assis estava traduzindo a obra de dickens a partir de uma versão em francês, para publicação em fascículos ("em folhetim", como se dizia) no jornal da tarde. a certa altura, ficou meio farto, deu uma desculpa qualquer ao jornal e largou a tradução sem nem concluir o capítulo 28. além disso, nos capítulos que traduziu, machado (ou algum editor do folhetim) resumiu e cortou uns bons trechos da obra.

 
esse oliver amputado sem dúvida guarda um certo interesse para os estudiosos de machado assis. tirando isso, não entendo por que, para que e para quem publicar essa semitradução, ainda mais sem avisar o leitor.
 
a editora hedra, em 2002, até tentou dar andamento à tradução machadiana com ricardo lísias. para os interessados, eis aqui a tradução de machado de assis e eis aqui o oliver original.

imagem: book, interrupted. ver aqui.
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11 de fev de 2011

editora legatus VII

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impressionante a volatilidade do catálogo da legatus!


entre ontem e hoje, o total de títulos da editora legatus na kindle store da amazon diminuiu de 139 para 93. parte dessa redução se deu nas três coleções que apresentamos nos posts anteriores.

a coleção "clássicos da literatura internacional", que apresentava 32 títulos, fez uma dieta radical e em menos de 24 horas manteve apenas 6 dos títulos anteriores. em compensação, acrescentou 5 shakespeares e o indefectível bram stoker, perfazendo um total de 12 títulos.
atualização às 14,30: 13 títulos. reincluído o idiota de josé geraldo vieira.

a coleção "clássicos da filosofia" de 8 passou para 5 títulos. a página é meio bagunçada porque aparecem 7 títulos, sendo 2 deles da coleção "clássicos da política". continua a constar um estrambótico thoreau traduzido por machado de assis.
atualização às 14,20h: em ininterrupta volatilidade, agora aparecem apenas 5 títulos, kant como "clássico da política" sumiu, e thoreau por machado idem.

a coleção "clássicos da política" caiu de 9 para 4 títulos. na página linkada aparecem só 2, porque os outros 2 estão na página de clássicos da filosofia...
atualização às 14,20h: só 2 títulos mesmo, pois os outros 2 sumiram da página de clássicos da filosofia.

acréscimo às 14,30: como se pode ver pelas atualizações, a editora legatus parece não ter muita certeza de seu catálogo.

imagem: ffffound
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10 de fev de 2011

editora legatus VI

quanto à coleção "clássicos da filosofia" da editora legatus, os títulos são os seguintes:
allan kardec, a gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo (guilon [sic] ribeiro)
allan kardec, o céu e o inferno (a justiça divina segundo o espiritismo) (manuel justiniano quintão)
allan kardec, viagem espírita em 1862 (guilon [sic] ribeiro)
francis bacon, novum organum: verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza (josé aluysio reis de andrade)
friedrich nietzsche, assim falava zaratustra (josé mendes de souza)
friedrich nietzsche, o anticristo: ensaio de uma crítica do cristianismo
heródoto de halicarnasso, história (pierre henri larcher; j.brito broca)
rené descartes, discurso sobre o método (enrico corvisieri)
na coleção "clássicos da política", os títulos são:
emanuel kant, crítica da razão prática
emanuel kant, crítica da razão pura
henry d. thoreau, andar a pé
henry d. thoreau, desobediência civil (machado de assis)
jean-jacques rousseau, do contrato social (rolando roque da silva)
karl marx, friedrich engels e leon trotsky (prefácio), manifesto comunista (do partido)
nicolau maquiavel, a arte da guerra (eugênio vinci de moraes)
nicolau maquiavel, escritos políticos (eugênio vinci de moraes)
nicolau maquiavel, o príncipe
algumas coisas chamam a atenção:
  • a distribuição um tanto inusitada (as duas críticas de kant como clássicos da política ou livros espíritas como clássicos da filosofia).
  • a extravagante suposição de que machado de assis algum dia traduziu a desobediência civil de thoreau.
  • a presença de "enrico corvisieri", a fraude ambulante mais prolífica da editora nova cultural desde 1995, como suposto tradutor de descartes. veja aqui.
  • a menção a eugênio vinci de moraes em a arte da guerra e escritos políticos, o qual, surpreso com o fato, declara que nunca ouviu falar da editora legatus, jamais traduziu os escritos políticos de maquiavel para ela e traduziu a arte da guerra apenas para a l&pm (2008).
e agora, josé?
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editora legatus V

o catálogo da editora legatus, em kindle, na amazon, apresenta em sua coleção "clássicos da literatura internacional" 32 títulos, também disponíveis gratuitamente na rede. entre eles,

dezesseis deles não trazem a autoria da tradução:
alexandre dumas, as aventuras de robin hood
alexandre dumas, os três mosqueteiros
charles dickens, david copperfield
charles dickens, um cântico de natal
franz kafka, a metamorfose
franz kafka, o processo
jane austen, orgulho e preconceito
júlio verne, a volta ao mundo em oitenta dias
júlio verne, miguel strogoff
júlio verne, viagem ao centro da terra
júlio verne, vinte mil léguas submarinas
lewis carroll, alice no país das maravilhas
marquês de sade, augustine de villebranche [sic] ou o estratagema do amor
marquês de sade, contos libertinos
robert l. stevenson, a ilha do tesouro
voltaire and françois-marie arouet [sic], cândido de voltaire [sic]
quatro apresentam atribuição falsa ou equivocada da autoria da tradução:
dostoievski, crime e castigo (josé geraldo vieira)
dostoievski, noites brancas (josé geraldo vieira)
dostoievski, os irmãos karamazov (josé geraldo vieira)
dostoievski, uma criatura dócil (josé geraldo vieira)
três dependem de licenciamento dos autores da tradução:
charlotte brontë, jane eyre (marcos santarrita)
emily brontë, o morro dos ventos uivantes (vera pedroso)
leon tolstoi, o reino de deus está em vós (ceuna [sic] portocarrero)
nove estão em domínio público, por decurso do prazo de proteção ou por ser obras abandonadas:
charles dickens, oliver twist (machado de assis)
fiodor dostoievski, o idiota (josé geraldo vieira)
j.w. goethe, fausto (antónio feliciano de castilho)
john milton, paraíso perdido (antónio josé de lima leitão)
jonathan swift, as viagens de gulliver (cruz teixeira)
júlio verne, a esfinge do gelo, vol. 1 (napolião [sic] toscano)
júlio verne, a esfinge do gelo, vol. 2 (napolião [sic] toscano)
oscar wilde, o retrato de dorian gray (joão do rio)
victor hugo, os trabalhadores do mar (machado de assis)
entre as traduções em domínio público, a de oliver twist, feita por machado de assis, é um caso bizarro. farei um post específico sobre ela.
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9 de fev de 2011

a propósito da legatus

nos últimos dias, tenho me detido sobre o catálogo da editora legatus. quero explicar uma coisa, para que não se tenha a impressão de que é mera implicância minha ou que tenho algum gosto especial em apontar falhas editoriais.

quem acompanha o nãogostodeplágio e @dbottmann no twitter sabe que defendo ferozmente a preservação de nosso patrimônio bibliográfico, que inclui obras de tradução, e defendo também um maior acesso social aos bens da cultura.

isso não significa que eu seja contrária à defesa dos direitos autorais patrimoniais, quando legítima. significa apenas que, em meu entender, a lei 9610/98, que rege os direitos autorais no brasil, é demasiado restritiva, dificultando enormemente o acesso da sociedade às obras culturais.

quero que se desenvolva mais rapidamente a aplicação de um dispositivo legal JÁ existente, a saber: que as obras órfãs e abandonadas - as quais, portanto, passam a integrar o domínio público - sejam mais amplamente divulgadas em caráter gratuito (por exemplo, passando a ser incorporadas com presteza e agilidade ao site de obras em DP do MEC e outras instâncias) e, quando comercializadas, que tenham preços compatíveis com seus custos mais baixos, tornando-se mais acessíveis ao público leitor.

quero que a abdr e outras associações de classe não persigam injustamente pessoas e entidades que disponibilizam sem fins comerciais obras há muito esgotadas, órfãs e abandonadas.

quero que essas entidades patronais não forcem demais os termos da lei e respeitem os já tão escassos mecanismos em que ela reconhece o direito da sociedade a um maior acesso cultural. quero que esses mecanismos se ampliem e que se corrijam francas distorções atualmente existentes.

posto isso, acho ótimo que as empresas disponibilizem em kindle o maior número possível de obras órfãs e abandonadas. é interessante a proposta da legatus, por exemplo. mas a execução é falha. entre obras em domínio público, ela inclui obras ainda protegidas, em alguns casos apresentando identificações errôneas de autoria e correndo o risco de resvalar para o temível pântano do plágio e da contrafação.

assim, continuarei a apontar aqui os casos da editora legatus que me parecem irregulares, sem que isso signifique que eu seja contrária à mais ampla divulgação e circulação de bens culturais. muito pelo contrário, meu intuito é que eles possam circular cada vez mais e melhor. e que o setor empresarial entenda que não há nada a temer de uma flexibilização dos direitos autorais: restritivos como são atualmente, eles é que geram essas irregularidades prejudiciais à própria iniciativa privada.
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mais legatices

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minha querida amiga celina portocarrero virou ceuna portocarrero, nos créditos de tradução de o reino de deus está em vós, de tolstói, na versão kindle da editora legatus.

essa tradução, feita a partir do italiano, tinha sido publicada pela rosa dos tempos em 1994. agora está no grupo record (que incorporou a rosa dos tempos) pelo selo best-bolso, que, imagino eu, deve ter licenciado a tradução para a legatus.

nessa brincadeira, achei muito pop a mudança de nome da celina. vai para a listinha inaugurada pelo paulo besera.
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editora legatus IV

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de repente, não mais que de repente, as traduções de dostoievski oferecidas no catálogo da editora legatus deixaram de ser de "paulo besera" e passaram a ser - todas elas - de josé geraldo vieira. consulte aqui.

pelo visto, a legatus parece não se importar com o fato de que josé geraldo jamais traduziu obra alguma de dostoievski, salvo
o idiota, que saiu em 1949 pela josé olympio.

como a vida não é composta só de burlas e mediocridades, vale lembrar que a edição da josé olympio ficou famosa também pelas ilustrações de oswaldo goeldi feitas a bico de pena. elas foram retomadas na edição d'o idiota pela 34, em tradução, esta sim, realmente feita por paulo bezerra (com "z" e dois "r").

veja aqui a galeria das ilustrações de goeldi para o idiota. 

a tradução de josé geraldo vieira está disponível para download gratuito aqui.

acompanhe o caso legatus:

8 de fev de 2011

editora legatus III

Arrolei em legatus II as obras de Dostoievski que a Editora Legatus oferece em seu catálogo de e-books, e comentei o caso d'O idiota. Recapitulando, as outras são:
  • Dostoievski, Crime e castigo, em tradução de Paulo Besera (sic)
  • Dostoievski, Os irmãos Karamazov, em tradução de Paulo Besera
  • Dostoievski, Noites brancas, em tradução de Paulo Besera
  • Dostoievski, Uma criatura dócil, em tradução de Paulo Besera
De duas uma: ou o nome do tradutor Paulo Besera é inventado, ou é um grosseiro atamancamento do nome de Paulo Bezerra. As duas hipóteses são igualmente pavorosas: a primeira, porque oculta o nome do verdadeiro tradutor; a segunda, porque Paulo Bezerra nunca publicou nenhuma tradução sua de Uma criatura dócil, nem de Noites brancas, e, pelo se depreende da nota dada pela jornalista Raquel Cozer, não parece ter autorizado à Legatus a edição em e-book d' O idiota, nem de Crime e Castigo, nem d'Os irmãos Karamazov, publicados pela Editora 34.

Noites brancas existe em várias traduções em português: Nivaldo dos Santos, pela editora 34; Natália Nunes, pela L± Ruth Guimarães, pela Ediouro; Carlos Loures, disponível no EbooksBrasil - além de uma pataquada fenomenal, para a qual não descobri nenhuma explicação plausível, uma edição da Martin Claret atribuindo a tradução de Ruth Guimarães a ninguém menos que Isa Silveira Leal. A tradução de Ruth Guimarães está disponível em vários sites para download. Quanto a Uma criatura dócil, há as traduções de Fátima Bianchi, pela Cosac Naify, e de Vadim Nikitin, pela 34, com o nome de A dócil. A tradução de Bianchi também se encontra disponível para download na rede.

Não tenho Kindle e não me animo muito a comprar um só para conhecer os trabalhos do tradutor Paulo Besera: por isso não posso dar informações mais concretas sobre o conteúdo dos ebooks. Mas fica registrada a estranheza quanto às fichas técnicas que a Legatus apresenta no site da Amazon, com o alerta sobre a duvidosa atribuição dos créditos de tradução.
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atualização: teotônio simões do ebooksbrasil me avisa - no site da amazon tem um programa de kindle para pc, download gratuito. clique aqui
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7 de fev de 2011

diário do nordeste

reproduzo abaixo uma entrevista que dei a edma góis, do diário do nordeste. aqui o link.

Prejuízo para o leitor

6/2/2011

Tradutora experiente, Denise Bottmann está no centro do debate sobre o uso indevido de traduções. Ela denunciou casos aos Ministérios Públicos Estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. São 15 inquéritos sobre traduções com autorias forjadas atualmente disponíveis no mercado brasileiro. Em conversa com o Caderno 3, ela explica como começaram as suspeitas de plágio, além de opinar sobre o papel do Estado e do leitor em meio a essa discussão

O caso mais recente é o da investigação de plágios das traduções de Monteiro Lobato, a cargo do Ministério Público Federal. Há casos que a senhora esteja acompanhando?
Tem alguns inquéritos no Ministério Público Estadual de São Paulo, por iniciativa da tradutora Joana Canedo. A questão não é só do tradutor em si, mas da apropriação de um patrimônio cultural. Canedo entrou com uma grande petição e o Ministério Público Estadual de São Paulo instaurou um inquérito. Uma característica interessante é que uma boa maioria desses problemas acontece com traduções antigas, de textos de 1930 a 1950. Tem ainda um percentual de obras mais recentes envolvendo textos de Portugal.

Que suspeitas a senhora considera mais graves?
É o da editora Landmark. Mas em termos quantitativos (são quase 200), é o da Martin Claret. No caso da Landmark, um dos proprietários atribui a seu nome à tradução de "Persuasão" (Jane Austen). No início ele negava e depois contestou a adequação do termo "plágio". Uma das acusações que sofri é que eu estaria usurpando o papel do juiz ao condená-lo por "plágio". Eu apenas apontei a ocorrência de plágio, o que eu posso demonstrar em juízo.

Como vieram à tona os plágios de traduções portuguesas ?
A Universidade de Lisboa desenvolveu e publicou uma tradução de uma obra do Nietzsche. Essa tradução foi copiada por uma editora, substituindo o nome da legítima tradutora. No Brasil, a Martin Claret esteve envolvida em um dos primeiros escândalos. Um professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) apontou um plágio de uma tradução de "A República", de Platão. Na verdade, essa tradução tinha sido feita por uma estudiosa portuguesa e copiada pela Martin Claret, com outro nome.

Como atuam aqueles que usam indevidamente as traduções?
Normalmente, são dois tipos de plágio: o de tradutores originais já mortos ou de traduções atribuídas a nomes fictícios. A diferença do caso de Portugal é de que as tradutoras estão vivas. Existe uma pequeníssima minoria de tradutores brasileiros vivos que sofreram esse tipo de lesão. São os casos do poeta e historiador Ernâni Donato e do crítico literário Luiz Costa Lima. O caso dos dois foi com a editora Nova Cultural.

Há algum levantamento dos plágios no Brasil?
Todas as iniciativas são individuais. Na época em que denunciei, contei com o apoio do Sindicato Nacional dos Tradutores (Sintra) e da Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes (Abrates). Um dos maiores apoios vem dos setores acadêmicos, fundamentalmente dos departamentos de Letras e de Filosofia, porque uma questão é que os plágios são obras em domínio público de grandes clássicos da literatura e da filosofia.

O leitor não tem como saber que está comprando uma tradução copiada?
Bem ou mal, o tradutor é protegido por lei. Se tivesse algum caso de tradução minha lesada, entraria com uma ação judicial e não com o Ministério Público. A questão do leitor é essa. Ele não é reconhecido como parte legítima para ingressar com ação de lesão contra seus direitos. Estou com mais de 15 inquéritos como cidadã por estar sendo lesada por essas editoras. O Ministério Público de São Paulo, Rio de Janeiro e do Paraná aceitaram meus pedidos de representação por lesão ao Código do Consumidor. As editoras são Ediouro, Fundamento, Germinal, Grupo Geração, Landmark, e Martin Claret. O que eu digo é que aquela informação sobre a tradução é incorreta e induz o leitor ao erro.

Qual a importância da averiguação do MPF?
É um grande precedente o MPF passar a reconhecer a lesão ao patrimônio, mesmo que não seja de textos em domínio público. No caso de Monteiro Lobato, ele reconhece que a sua contribuição integra o patrimônio cultural brasileiro, mesmo que os direitos autorais ainda pertençam à família. É reconhecer publicamente que uma obra literária, mesmo sem ser de domínio público, deve ser protegida pelo Estado. Eu, como leitora, não posso fazer nada, a não ser como consumidora. Mas que leitor irá saber? Eu posso ver irregularidades porque sou tradutora há mais de 25 anos. O leitor, em geral, não.

E o que pensar sobre os textos que estão na Internet?
O grau de infiltração é enorme. Tem vários para downloads. É incontrolável. São textos de estudo e muitos de graduação e pós-graduação. É mais fácil comprar em sebos, a baixos preços, do que fazer impressão de arquivos. Para consultas rápidas, funciona sim, mas para acervos de biblioteca, não acho que dê certo. O problema ainda é o livro impresso mesmo.

EDMA CRISTINA DE GÓIS
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

foi uma longa conversa por telefone com a jornalista, a quem agradeço muito a oportunidade. gostaria apenas de fazer um reparo, pois talvez eu não tenha me expressado com clareza: indagada sobre o caso da landmark, em que um dos sócio-proprietários da editora, o sr. fábio cyrino, assinava uma das edições suspeitas, ao comentar sua gravidade eu estava pensando na ação judicial que a editora e o editor moveram contra minha pessoa, e que se encontra em curso. considero-o o caso mais grave, tanto pelas demandas da editora quanto pelo fato de que outra ação judicial contra mim, movida pelo sr. martin claret, não prosperou. deixei um comentário na página da entrevista, fazendo esse esclarecimento que me parece oportuno. do ponto de vista do catálogo da landmark, o nãogostodeplágio apontou apenas duas irregularidades: persuasão o morro dos ventos uivantes. veja aqui e aqui.

outra pequena retificação: ingressei com mais de quinze petições junto ao ministério público contra irregularidades praticadas por várias editoras. nem todas essas petições deram origem a inquéritos.
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coleção folha: pascal, pensamentos

a coleção folha havia anunciado que publicaria pensamentos de pascal na antiga tradução de paulo m. oliveira. por alguma razão que desconheço e nem creio que venha ao caso, optou-se por uma outra tradução, cuja autoria é identificada na ficha catalográfica da obra em nome de isolina bresolin vianna, para a editora edipro, que licenciou seu copyrigth [sic] para a coleção "livros que mudaram o mundo".


a edição francesa adotada para a tradução é de 1671, em publicação a cargo de eric dubreucq. encontra-se disponível aqui.

esperar-se-ia de uma nova tradução de pascal - existem tantas traduções de seus pensamentos em português! - que pudesse talvez contribuir para a fortuna crítica do pensador em terra brasilis.

infelizmente, não parece ser este o caso. a bem da verdade, temo que essa tradução publicada pela coleção folha até constitua um retrocesso em relação às traduções anteriores dos pensamentos. digo "retrocesso", pois desde as primeiras linhas da obra é possível notar deficiências no domínio do francês que comprometem o entendimento até mesmo de coisas muito simples.

assim temos logo na primeira frase de "Contra a indiferença dos ateus":
Que ceux qui combattent la Religion apprennent au moins quelle elle est avant que de la combattre. 

isto é, ao pé da letra: "Que aqueles que combatem a Religião aprendam pelo menos o que ela é antes de combatê-la". um conselho sensato, diga-se de passagem, que se aplica não só à religião.

estranhamente temos na edição edipro/folha: "Aqueles que combatem a Religião mais fazem que ela siga avante do que a combatem".

ou S'ils parlaient de la sorte, ils combattraient à la vérité une de ses prétentions como "Se eles falassem da sorte, combateriam a verdade única de suas pretensões" (Se falassem dessa maneira, na verdade estariam combatendo uma de suas pretensões).

ou Ainsi notre premier intérêt et notre premier devoir est de nous éclaircir sur ce sujet d'où dépend toute notre conduite como "Assim, nosso primeiro interesse e nosso primeiro dever é nos esclarecer sobre que assunto deve depender toda nossa conduta" (...nos esclarecer sobre esse assunto, do qual depende toda nossa conduta).

não tenho o menor interesse em tripudiar ninguém, nem a menor intenção de lesar honras e ferir sensibilidades, e não estou disposta a ficar sendo acionada, processada etc. por editoras insatisfeitas com minhas críticas, que julgo serem bastante objetivas e fundamentadas. aqui estou falando de um livro em sua materialidade física e concreta, com sua respectiva identificação bibliográfica, posto à venda no mercado e com respaldo numa ampla campanha de divulgação comercial.

é extensa a lista de equívocos e erros presentes nessa edição, mas creio que bastam esses rápidos exemplos extraídos da primeira página da obra (p. 13). a meu ver, ilustram claramente a precariedade da tradução, seus erros palmares: entendo que a coleção folha pisou mais uma vez na bola oferecendo esse produto medíocre a seus leitores.
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editora legatus II

Em sua Coleção Clássicos da Literatura Internacional, a Editora Legatus oferece na Amazon:
  • Dostoievski, O idiota, em tradução de Paulo Besera (sic)
  • Dostoievski, Crime e castigo, em tradução de Paulo Besera
  • Dostoievski, Os irmãos Karamazov, em tradução de Paulo Besera
  • Dostoievski, Noites brancas, em tradução de Paulo Besera
  • Dostoievski, Uma criatura dócil, em tradução de Paulo Besera
A jornalista Raquel Cozer constatou que uma das traduções que a Editora Legatus vende, atribuindo-a a um mal-grafado Paulo Bezerra ou a um fantasmagórico Paulo Besera, na verdade corresponde à tradução feita por José Geraldo Vieira - imagino que se trate de O idiota, única obra de Dostoievski, até onde sei, que José Geraldo traduziu, por interposição do francês, e que saiu pela José Olympio em 1949 (3a. ed. 1952).

O engraçado é que essa tradução de José Geraldo Vieira - que parece se enquadrar na definição de "obra abandonada" e, portanto, estaria em domínio público - se encontra disponível gratuitamente em vários sites. O primeiro site de download que aparece em consulta no Google - o superdownloads.us - traz uma imagem meio borrada da edição da 34, com o nome de Paulo Bezerra na capa. Mas, se você pede o download (demora uma eternidade), a obra que baixa é justamente a tradução citada por Raquel Cozer, a de José Geraldo Vieira.Talvez tenha sido este o gancho para o "Paulo Besera" da Legatus:

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6 de fev de 2011

matéria no diário do nordeste

Reproduzo aqui a matéria "Plágios no Mundo das Traduções", publicada hoje, 06 de fevereiro, no Caderno 3 do Diário do NordesteAqui o link para a matéria.
PLÁGIOS NO MUNDO DAS TRADUÇÕES
Até abril, o Ministério Público Federal dará resposta sobre a análise das traduções de "O Lobo do Mar" e "O Livro de Jângal", traduzidas por Monteiro Lobato, mas que estampam outros nomes de tradutores nas edições do selo Martin Claret.

Grandes nomes que preenchem a lista de renomados autores brasileiros tiveram em seu currículo uma atividade paralela, a de tradutor. O criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, Monteiro Lobato, por exemplo, traduziu Lewis Carroll ("As aventuras de Alice no País das Maravilhas"), Hans Christian Andersen ("Contos de Andersen"), Daniel Defoe ("Robinson Crusoé"), Alexandre Dumas ("A mão do finado") e Ernest Hemingway ("Adeus às armas" e "Por quem os sinos dobram"). Agora, Monteiro Lobato tem seu nome no fogo cruzado de uma investigação do Ministério Público Federal, que averigua denúncia de plágios de traduções feitas pelo autor, porém atribuídas a outras pessoas.

A tradutora Denise Bottmann entrou com uma representação, alegando que as obras "O Lobo do Mar" (Jack London) e "O Livro de Jângal" (Rudyard Kipling), ambos publicados pela editora Martin Claret, trazem em suas capas outros nomes de tradutor, quando o verdadeiro autor das traduções seria Lobato. O assunto está sendo tratado pelo MPF e até o fim de abril será finalizada a perícia técnica dos livros. Para isso, o MPF analisa a necessidade de pedir ajuda técnica de pesquisadores da área de literatura de alguma universidade federal. Caso raro de investigação para o próprio órgão, a suspeita de apropriação de tradução de terceiros é tratado no inquérito cível, como ação de desrespeito ao patrimônio cultural brasileiro.

Em caso de comprovação de plágio, o MPF poderá solicitar o recolhimento das obras que estiverem no mercado, assim como a impressão de erratas corrigindo o nome do verdadeiro tradutor. O MPF, por meio de sua assessoria de imprensa, também não descarta a possibilidade de um acordo entre a família, detentora dos direitos autorais, da obra e a editora Martin Claret, mas reconhece que caso isso aconteça, não resolve o prejuízo causado ao leitor, afinal de contas, o mais fraco dessa disputa. Quem não tem conhecimento para avaliar se uma obra foi plagiada ou não pode acabar comprando gato por lebre.

Descaracterização

Segundo a tradutora Denise Bottmann, que tem um vasto currículo de traduções da Companhia das Letras, é comum a tradução vir com alterações mínimas no texto para descaracterizar o uso indevido da obra, deixando os leitores em maus lençóis e que cifras deixem de ser pagas a quem é de direito. Denise Bottman é tradutora há mais de 25 anos e escreve o blog "Não gosto de plágio", onde faz defesas do trabalho dos tradutores e denuncia suspeitas de plágio. Com base nos 15 inquéritos com os quais Bottmann entrou na Justiça, ela contabiliza de 8 a 10 milhões de exemplares plagiados nas livrarias do País.

A assessoria de imprensa da editora Martin Claret ainda minimiza a repercussão da investigação do MPF, alegando que nem mesmo a família de Monteiro Lobato, a maior interessada no caso, procurou pelo selo. "Não recebemos notificação nem recebemos reclamação de nada", afirmou. Ainda de acordo com a assessoria, as edições de ´O Lobo do Mar´ e ´O Livro de Jângal´ estavam há 14 anos no mercado sem nenhum problema. O clássico de Jack London não seria encontrado no mercado há dois anos e o segundo título foi recolhido para que uma reedição, com nova tradução, fosse colocada nas livrarias em novembro do ano passado. A Martin Claret contabiliza o recolhimento de 3 mil exemplares dessa segunda obra. Apesar das alegações da Martin Claret, "O Lobo do Mar" e "O Livro de Jângal" ainda podem ser encontrados em catálogos virtuais de livrarias como a Cultura.

A advogada da editora, Maria Luíza Eger, disse que, a exemplo do que aconteceu em 2003, quando a editora foi considerada culpada em caso de plágio e teve de ressarcir o autor e encomendar nova tradução, poderá reparar dados caso seja provado que houve cópia indevida de tradução. "Não conhecemos o inquérito, então é difícil falar sobre. Mas a editora é uma produtora cultural que não atua sozinha. A culpa no caso é do tradutor contratado e não da editora", afirmou.

Primeiras denúncias

São poucos os casos de autores vivos que viram seus trabalhos de tradução assinados por outros nomes. Em 2001, um dos tradutores prejudicados nessa história foi o professor de literatura Alfredo Bosi. Logo a seguir, em 2003, o escritor Ivo Barroso, denunciou traduções indevidas das editoras Nova Cultural e Martin Claret, em artigos de jornal. Em 2007, a Universidade de Goiás denunciou uma suspeita de plágio da tradução de "A República", de Platão. O crítico Luiz Costa Lima também está entre os nomes de tradutores ocultados das capas de livros.

Na opinião do escritor e um dos mais importantes tradutores do País, Ivo Barroso, com mais de 40 livros publicados, a maioria com traduções de Arthur Rimbaud (1854-1891), a discussão sobre os plágios no Brasil passa necessariamente por uma ação cultural de valorização dos livros. "Enquanto não tivermos uma política cultural séria, que resguarde livros, autores e tradutores, nada vai acontecer, nem os processos judiciais darão resultado", disse. Barroso se dedica a obra de Rimbaud desde os anos de 1970, foi vencedor do Prêmio Jabuti de Tradução, de 1998, e premiado também pela tradução de T. S. Eliot (1888-1965) - O livro dos gatos e Teatro Completo.

O tradutor desfaz o argumento de que traduções não podem ser tão diferentes entre si. É muito difícil tradutores diferentes usarem os mesmos verbos, por exemplo. "Esse teste já foi feito em universidades. A minha leitura é diferente da sua, por isso não tem como termos textos idênticos. Na poesia, essa identificação é mais imediata", explica. Quando Ivo Barroso denunciou, pelos jornais, traduções plagiadas pela Martin Claret e Nova Cultural, em 2003, ele alegava que apenas alguns termos, de modo muito sutil, haviam sido alterados, para mascarar a "nova tradução". "Era estranho, mas fácil de identificar. Toda maquiagem é criminosa", disse Barroso.

Domínio público versus tradução
Kipling: obras em domínio público e suspeita de plágio

A discussão sobre o domínio público parece dar mais munição para que traduções sejam comercializadas com nomes falsos ou sem constar os nomes de seus tradutores. Isso porque além do grande público não atentar para o nome do tradutor estampado na capa do livro, também não sabe do que trata o "domínio público". Este nada ou pouco tem a ver com as traduções. "O que pode acontecer é o uso de má fé do nome ´domínio público´", afirma a tradutora Denise Bottmann.

De acordo com a legislação, a obra entra em domínio público 70 anos após a morte de seu autor, no entanto, não inclui as traduções das mesmas. Assim, a obra de Walter Benjamim, em domínio público a partir de 2011, está disponível para o público, que não mais precisa pagar pelos direitos autorais aos descendentes do autor, em sua língua original. A partir daí, espera-se por exemplo que mais obras de Benjamin circulem no Brasil, uma vez que o domínio público irá baratear as novas edições. No entanto, nada toca na questão da tradução, que deve continuar sendo respeitada e protegida.

O tradutor é um transpositor da obra original, tendo de recorrer à pesquisa e ao conhecimentos de outras áreas para executar seu trabalho. Contudo, o tradutor não é considerado co-autor do texto. As editoras são obrigadas a registrar em suas edições os nomes dos tradutores, como parte integrante do trabalho que chega às mãos do leitor. Profissão reconhecida, porém não regulamentada, o tradutor, muita vezes, concilia esta atividade com trabalhos de outras áreas (ensino, pesquisa e jornalismo etc). De acordo com o Sindicato Nacional dos Tradutores (Sintra), o valor da lauda traduzida hoje é de R$12.

EDMA CRISTINA DE GÓIS
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

5 de fev de 2011

editora legatus

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Hoje a jornalista Raquel Cozer publica a seguinte notícia em sua coluna do Sabático e na Biblioteca de Raquel:
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Surpresa eletrônica

O minguado catálogo de e-books em português na Amazon guarda surpresas entre as traduções de clássicos. Obras de Dostoiévski aparecem com "Paulo Besera" como tradutor, a US$ 6,99 cada uma. Quem arrisca a sorte, na esperança de que seja erro de digitação do site americano, recebe no Kindle a versão de José Geraldo Vieira (1897-1977), feita em 1952 do francês, e não do russo. Os livros são "editados" por uma tal Legatus, que vende várias outras traduções na Amazon e não tem endereço para contato na rede. "Vou me informar e vou processá-los", diz Paulo Bezerra, que verte pela 34 as obras completas de Dostoiévski.
Quem achar a coisa curiosa e for ao site da Amazon, em sua Kindle Store, constatará que a Legatus Editora oferece 139 títulos em seu catálogo. Esses títulos se distribuem em várias coleções:
- Coleção de Leis (CLT, Código da OAB, súmulas do STJ etc.)
- Coleção Classics (clássicos da literatura em inglês, p.ex. David Copperfield)
- Coleção Clássicos da Língua Portuguesa (Camões, Machado de Assis etc.)
- Coleção Clássicos da Literatura Internacional (em tradução; Kafka, Voltaire, Jane Austen etc.)
- Coleção Clássicos da Política (em tradução; Marx, Maquiavel etc.)
- Coleção Clássicos da Filosofia (em tradução: Descartes, Bacon, Allan Kardec[!])
- Coleções Erótica, Gay Erótica e Erótica com Fotos
- variados (Bíblia, Constituição Americana etc.)

Veja-se, por exemplo: Discurso sobre o Método (Clássicos da Filosofia) (Portuguese Edition) by René Descartes and Enrico Corvisieri (Kindle Edition - Aug. 24, 2010) - Kindle eBook Buy: $6.99 Auto-delivered wirelessly


Ora, essa suposta tradução de Descartes sob o nome inventado de "Enrico Corvisieri" é uma coisa tão descabelada que a própria Editora Nova Cultural, que a publicava desde 1999, retirou-a de circulação e catálogo. É uma apropriação indevida, cheia de alterações alopradas, da consagrada tradução do Discurso do método feita por Jacó Guinsburg e Bento Prado Jr. no final dos anos 1950, para a Difel.

A tradução espúria assinada pelo fantasmático Enrico Corvisieri se encontra disponível para download gratuitamente, por obra e (des)graça de um tal Grupo Acrópolis, que infestou a rede com ela. Já a boa notícia é que a tradução legítima de Jacó Guinsburg e Bento Prado Jr. também se encontra disponível para download gratuito, por cortesia dos detentores de seus direitos.

E agora vem a Editora Legatus, reproduzindo a fraude da Nova Cultural ou, pelo menos, reproduzindo o nome do pretenso tradutor da fraude da Nova Cultural na ficha técnica do ebook?!

O nãogostodeplágio deu ampla cobertura aos problemas que envolviam O discurso do método na coleção Os Pensadores, da Nova Cultural, e a atribuição espúria da tradução a "Enrico Corvisieri'. Consulte aqui.
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4 de fev de 2011

caso germinal

recentemente fui chamada à delegacia para uma oitiva sobre o caso da editora germinal. eu tinha entrado com um pedido de representação junto ao ministério público estadual de são paulo, e o procurador considerou por bem mandar instaurar um inquérito para apurar as responsabilidades.

compareci à delegacia, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito continua em andamento.

por coincidência, vejo que o crítico literário alfredo monte, um dos primeiros a denunciar essas terríveis ocorrências de plágios e cópias de traduções alheias, republicou em seu excelente blog, Monte de Leituras, um oportuníssimo Memorial do Caso Germinal.

transcrevo alguns trechos de seu artigo extremamente esclarecedor:
Uma das editoras que surgiram nos últimos anos, a Germinal, vem publicando traduções suspeitíssimas. Contatos foram tentados com os responsáveis, mas não há explicações plausíveis para o fato de as traduções de Felipe Padula Borges para Mulheres apaixonadas, de D. H. Lawrence, e Wilson Hilário Borges para Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, serem cópias de versões anteriores. Não tiveram nem o cuidado de disfarçar um pouco, o máximo a que se deram ao trabalho foram algumas mudanças insignificantes!


É lamentável, ainda mais porque se perdeu a oportunidade de oferecer, no caso de Broch, a primeira tradução legítima no Brasil (pois o suposto trabalho de Wilson Hilário Borges copia o do português Jorge Camacho para as Edições 70) de uma obra-prima; no caso de Lawrence, apesar de circular em nosso país há muito tempo, numa adaptação de Ruth de Biasi, a versão descaradamente copiada também é um texto lusitano, de Cabral do Nascimento, editada pela Record, pelo Círculo do Livro, pela Abril Cultural e recentemente pela Nova Cultural, herdeira mais pobre (em qualidade). [...] É ela que foi plagiada por Felipe Padula Borges. Eis um trecho plagiado:

pág. 482 (ed. Record): “Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se com o auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

pág. 563 (ed. Germinal): ” Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se como auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte, entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

Como [se] vê, a única contribuição de Felipe Padula Borges para a versão anterior foi uma vírgula após a palavra Marienhutte.

Vejamos agora o caso de “Os Sonâmbulos”. O livro foi lançado pelas edições 70, de Portugal, em três volumes ( os números 7, 11 e 13 da Coleção Caligrafias). O primeiro volume, “Pasenow ou O Romantismo” (em 1988), traduzido por António Ferreira Marques.


pág. 164 (ediçôes 70): “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protectora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objectivo, a caminho do nada.”

pág. 160 (Germinal): “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protetora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objetivos, a caminho do nada.”

O sr. Wilson Hilário Borges teve muito trabalho nesse trecho: tirar o “c” lusitando de protectora e objectivo.

O 2o. volume ((1989), “Esch ou A Anarquia”, foi traduzido (assim como o 3o., do mesmo ano, “Huguenau o O Realismo”) por Jorge Camacho.

pág. 306-7 do 3o. volume (edições 70): “Qualquer deles sabe efectivamente que a vida do homem não é suficiente para levar os passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alto, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes; via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até aos pólos e aos confins do mundo” etc etc.

pág. 697 (Germinal, que publicou os três num volume só):“Qualquer deles sabe efetivamente que a vida do homem não é suficiente para levar oa passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alta, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes: via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até os pólos e aos confins do mundo” etc etc.

O trecho acima deu mais trabalho: além do “c” de efectivamente, ele teve de tirar uma preposição de “aos pólos”.
Como disse, o inquérito para apurar as responsabilidades da editora em questão está em andamento. Espero que a procuradoria do estado venha a tomar as providências cabíveis e previstas em lei.

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