18 de dez de 2011

resedás malditos

ingleses e americanos são (ou eram) bem mais respeitadores do que nós em relação ao ditame bíblico contra as blasfêmias. não deixavam de usá-las, mas davam uma aliviada morfológica: daí o darn para damn, por exemplo.

o inglês também faz muita contração que se incorpora mesmo à língua escrita, geralmente mantendo traços coloquiais ou dialetais.

outra coisa legal é a existência de sistemas de classificação universal, por exemplo o de lineu - claro que ninguém nasce sabendo, mas são coisas que a gente aprende na escola. e mais legal ainda, nas últimas décadas, é a gigantesca biblioteca universal ao alcance de dois dedos, com a internet e a busca pelo google.

assim, voltando ao tema dos estudos de tradução no nível da graduação e da pós-graduação, repito, creio que talvez até possam ser muito úteis e produtivos. mas que se defenda uma tese, e esta seja aprovada por toda uma banca de examinadores, com coisas do gênero:
"Para o substantivo 'crapemyrtle' que é utilizado para designar uma planta, e para o qual não foi encontrado termo correspondente, o recurso utilizado foi a tradução explicativa: 
...comtemplating the inscrutable desolation of cedar and brier and crapemyrtle...(p.140)
...contemplando o inescrutável abandono do cedro e urze e arbustos vindos do leste da Índia...
                 
[O]s acréscimos que ocorreram nos exemplos acima, não são  vazios  de significados, foram necessários devido à ausência de uma palavra na língua de chegada para efetuar a tradução."

mesmo sem levar em conta que há uma grande diferença entre "não foi encontrado termo correspondente" e "ausência de uma palavra ... para efetuar a tradução", esse é o tipo de coisa que me causa surpresa e me desperta um pouco de pena.


digo isso porque crapemyrtle é nosso lindo, vagabundo, corriqueiro resedá, e bastaria fazer uma busca cruzada pelo nome científico Lagerstroemia indica.




e fico compungida ao ler no mesmo estudo:
      "As palavras 'offen' e 'durn' também não foram traduzidas até o momento, pois não foram encontradas nos dicionários pesquisados.  A palavra 'offen' poderia ser retirada da narrativa sem prejudicar o sentido da frase, porém se assim procedêssemos estaríamos apagando a obra original. 
     Well if Flem knowed any way to make anything offen that old place... 
     Bem se Flem soubesse algum jeito de fazer alguma coisa por aquele lugar velho... 
     Já, a palavra 'durn' faz parte do contexto da frase em que está inserida e a opção pela não tradução da mesma empobreceria o contexto, pois manifesta um sentimento do personagem em relação ao outro. 
     Be durn if you don't look like …
     Be durn se você não parece..."
ora, durn é uma simples variante do darn, suavização acima mencionada do damn: raios me partam se você não parece; que raios, você está parecendo; seu danado, você isso ou aquilo, qualquer coisa assim, em função de interjeição.

e não creio que offen "poderia ser retirada da narrativa sem prejudicar o sentido da frase": é uma contração de of from, fazer alguma coisa "daquilo", alguma coisa "com aquilo".

naturalmente espera-se de um aspirante a um título de pós-graduação que dê o melhor de si, mas não há dúvida de que ao orientador cabe uma boa parcela de responsabilidade e à banca cabe mais do que o papel de simples homologação. se é muito bom termos mestrado e doutorado em estudos de tradução em nossas universidades, creio que seria bom se houvesse também uma compreensão mais clara e um exercício mais efetivo dos papéis que, em princípio, supõe-se que caibam às várias partes envolvidas.


2 comentários:

  1. Anônimo30.12.11

    Realmente lamentável, mas é claro que exemplos isolados não podem desmerecer tudo que se produz nas universidades. Não vamos também cair no anti-intelectualismo.

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  2. concordo, prezado anônimo - e espero que os docentes sejam os primeiros a combater esse anti-intelectualismo (às vezes travestido de paternalismo complacente)que parece grassar em algumas universidades.

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