18 de dez de 2011

honras e vazas

domesticação, estrangeirização, tantos nomes bonitos e pomposos para descrever ou prescrever o partido que se adota ou que se deveria adotar numa tradução.

acontece que muitas vezes as coisas são bem mais simples e chãs. não é preciso ter nenhuma grande erudição para saber, por exemplo, que o bridge é um jogo inglês de cartas - e um dos passatempos favoritos entre as classes altas britânicas no século XIX era, justamente, jogar bridge. teremos de invocar são jerônimo, berman, nord para nos iluminar sobre reis e damas, vazas e contratos? e também não é preciso profundo conhecimento de retórica, estilística, teoria literária para saber que o uso de metáforas é a coisa mais usual do mundo, na mais simples conversa coloquial ou no mais grandioso épico universal.

então fico perplexa não só que oscar mendes (1961), ao traduzir lady windermere's fan, de oscar wilde, transponha essas linhas do diálogo:
LORD DARLINGTON.  It’s a curious thing, Duchess, about the game of marriage - a game, by the way, that is going out of fashion - the wives hold all the honours, and invariably lose the odd trick. 
DUCHESS OF BERWICK.  The odd trick?  Is that the husband, Lord Darlington? 
LORD DARLINGTON.  It would be rather a good name for the modern husband.
como:
DAR: É curioso, duquesa, o jogo em torno do casamento... Um jogo, seja dito em parêntesis, que está ficando fora de moda... As esposas gozam de todas as honras e invariavelmente perdem a jogada vantajosa.
DSA: A jogada vantajosa? É ao marido que se refere, Lorde Darlington?
DAR: Seria talvez um nome bom demais para o marido moderno.
e doris goettems (2011) como:
DAR: É uma coisa curiosa, Duquesa, sobre o jogo do casamento – um jogo, aliás, que está saindo de moda – as esposas recebem todas as honras e sempre escapam da armadilha resultante.
DSA: Armadilha resultante? Está se referindo ao marido, Lorde Darlington?
DAR: Seria um nome bastante bom para o marido moderno.
mas também e principalmente que uma pesquisadora universitária, dedicando-se à análise comparada das duas traduções "em termos dos ... recursos linguísticos utilizados, como a manutenção da ironia, paradoxos e jogos de palavras na expressão da crítica social do autor", confunda léxico com semântica, erros palmares com escolhas deliberadas:
A escolha lexical foi bastante diversa entre os dois tradutores, optando Mendes por “perdem a jogada vantajosa” e Goettems por “escapam da armadilha resultante”. Na primeira versão, o papel da mulher no casamento parece perder uma possibilidade de sobressair-se. Soa mais como uma crítica à inabilidade das mulheres de se apropriarem de uma vantagem que têm no jogo do amor, que é o marido. No segundo caso, a escolha tradutória aponta para um jogo armado por parte do marido, do qual escapam as mulheres. A armadilha, nesse caso, é o marido e as mulheres têm sucesso em sua fuga. 
e ao final conclua que "houve pouca discrepância no efeito atribuído ao texto original e suas traduções, pois a ironia, o jogo de palavras, e os paradoxos foram traduzidos adequadamente ao seu tempo e contexto social"!

considero importante que nossas pós-graduações implantem e desenvolvam programas de estudos de tradução. mas indispensável para o sucesso deles é o acompanhamento dos orientadores e, da parte dos estudantes, um constante aperfeiçoamento ao qual jamais poderiam faltar realismo e bom senso.


4 comentários:

  1. Parece que faltou sutileza, wit, a ambos os tradutores neste caso. Mas tudo bem, ninguém é infalível. Além disso, hoje em dia, com a internet, a gente tem muito mais recursos, mesmo que não se saiba o vocabulário de bridge (ou whist).

    E realmente... Às vezes nos perdemos em meio a um arsenal de academicismos quando a questão é bem mais simples!

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  2. olá, cláudia: sim, de fato, meu ponto não é o erro ou deslize na tradução, e sim o relativismo paupérrimo e pauperizante da suposta análise desenvolvida em nível de pós-graduação.

    a questão principal, a meu ver, é a responsabilidade dos professores e orientadores nesses programas de estudo, que não sei bem até que ponto vêm atendendo a ela.

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  3. Daniel Veloso19.12.11

    falando em pesquisa universitária, noto algo curioso, Denise. sempre tive a impressão que há quase exclusivamente apenas dois tipos de tratamento ao estudo de tradução no Brasil: percebo, por um lado, uma urgência pragmática "exigida pelo mercado" e que atropela qualquer oportunidade de se fazer um estudo teórico acerca de determinado fenômeno de tradução (o que poderia enriquecer o ofício - afinal, todo estudo metódico e organizado deveria servir, em última instância, a uma aplicação prática).

    por outro lado, há aqueles que priorizam tanto o aspecto acadêmico que o estudo acaba se tornando teoria pela teoria, ou seja, perde o ponto de contato com a realidade da tradução. o realismo e bom senso a que você se referiu parecem passar longe.

    parece não haver um meio termo. o que é uma pena, pois perdemos um pouco de cada lado, eu acho.

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  4. de um lado, pode ser verdade, daniel - mas creio que existe todo um terreno intermediário importante, em que os tradutores refletem muito sobre o ofício: penso em ivo barroso, josé paulo paes, paulo henriques britto, ivone benedetti, isa mara lando, dezenas e dezenas de profissionais de alto gabarito, e eu mesma, num patamar mais modesto e na pequena medida das minhas capacidades. convivemos com a urgência pragmática exigida não só pelo mercado, mas pelas contas domésticas a pagar, o que não impede, creio eu, que reflitamos sobre a atividade e escrevamos sobre ela, do ponto de vista teórico, crítico e também histórico.

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