8 de dez de 2011

experiência única e irrepetível

Wooden billboard with blank paper vector

o mundo da produção editorial é vasto e variado: a "cozinha" do livro, digamos assim, é cheia de episódios picarescos, dramáticos ou simplesmente rotineiros. de modo geral, tudo transcorre num clima afável, cortês e civilizado entre todas as partes. vez por outra, há alguma exceção, claro, mas, como o próprio nome diz, é exceção.

se a relação profissional do tradutor se dá com a editora e os vários participantes na cadeia editorial, a relação primeira, a relação essencial do tradutor é com a obra de origem. assim, quando um leitor abre um livro e vê o nome do tradutor, entende ser ele o responsável por ter colocado aquela obra estrangeira em português. alterações, correções, melhorias feitas na fase posterior à tradução, seja pelo editor, pelo preparador e/ou pelo revisor, fazem parte do processo de controle de qualidade do livro que chegará ao leitor. a responsabilidade pela obra traduzida continua a ser, para todos os efeitos, do autor da tradução.

insisto nisso porque responsabilidade não é coisa pouca. o sujeito responsável por uma obra, seja de arquitetura, de computação, de pintura ou de tradução,  responde civil e criminalmente por ela.

então, quando assino uma tradução, estou declarando na forma da lei que eu a fiz supostamente respeitando os direitos intrínsecos da obra originária: basicamente, seu direito de integridade. neste sentido, ao me responsabilizar por uma tradução, automaticamente estou declarando que não omiti, não cortei, não acrescentei, não editei, não mudei a meu bel-prazer o texto de origem.

claro que eu não seria processada se pulasse uma frase ou infringisse alguma dessas obrigações, mas não é apenas disso que se trata: trata-se ainda de uma questão de credibilidade. o texto tem sua materialidade própria sobre a qual opera também o crivo do destinatário final da obra, o leitor - imagine-se a surpresa se se constatassem coisas do gênero: "esta tradução cortou tal e tal parágrafo; mudou tal e tal conceito; adaptou tal e tal terminologia; acrescentou tal e tal passagem". ora, a qualidade literária de minhas traduções pode merecer críticas e reparos, mas quero crer que pelo menos respeitam a integridade do texto originário. e é isso o que entendo por credibilidade.

por isso hoje fiquei perplexa ao receber um contrato de cessão de direitos autorais sobre uma tradução que fiz para uma editora com a qual nunca tinha trabalhado antes (e cujo nome não vem aqui ao caso), e lá havia uma cláusula nos seguintes termos:

O Tradutor desde já autoriza a Editora a alterar o texto da Tradução, submetendo-a a adaptações, cortes, acréscimos, edições, a exclusivo critério da Editora ... sem que seja necessária a aprovação do Tradutor ao texto final a ser publicado ou de outras formas utilizado pela Editora

avisei à editora que não iria me responsabilizar por algo que não sei o que pode vir a se tornar, ainda mais com base em critérios inexplícitos e sem minha aprovação - pois, como disse, acho responsabilidade uma coisa muito séria e não assino promissória em branco. estou aguardando que eliminem esta cláusula, mas, de qualquer maneira, para mim esta foi e será uma experiência única e irrepetível.

atualização em 9/12, 11:15h: prevalece o bom senso - recebi a resposta da editora a meu e-mail:  "estamos de acordo com o seu comentário. Vou verificar aqui como podemos adaptar a cláusula da melhor forma possível"

imagem: aqui
.

11 comentários:

  1. Por trabalhar em uma "empresa irmã" de uma editora, tenho quase certeza de que isso é coisa de departamento jurídico. Que a área editorial nem deve saber que existe isso no contrato.

    De qualquer forma, é um absurdo.

    ResponderExcluir
  2. até acredito e bem pode ser, mas isso é lá problema deles. de minha parte, não assino isso nem morta.

    ResponderExcluir
  3. Com certeza.
    Por falar nisso, você conhece um pessoal da BEI, não?

    ResponderExcluir
  4. sim, fiz dois livros para a beï; achei um pessoal finissimo, maravilhoso de se trabalhar.

    ResponderExcluir
  5. Não sabia que você tinha feito livros lá!
    Eu trabalho na U-Near, empresa de tecnologia dos mesmos donos.

    ResponderExcluir
  6. ah, que legal! deve ser muito legal mesmo!

    fiz "as vidas dos artistas", do calvin tomkins, crítico e jornalista de arte, muitíssimo bom, sobre uma pá de gente interessante: damien hirst, cindy sherman, jasper johns etc.

    e fiz um outro, que ainda não saiu, o tubarão empalhado de 12 milhões de dólares, tb super.

    eles não tinham contrato padrão de tradução; apenas de edição, mas corrigiram direitinho cf o que pedi e sugeri.

    e o trabalho de preparação do tomkins foi primoroso. foi a própria editora da época, a francesca angiolillo, que fez, fizemos juntas.

    mande lembranças a eles :-))

    ResponderExcluir
  7. Mando sim!
    Infelizmente eles mudaram de andar. Eu gostava de trabalhar no meio daquele "ar de editora", livros por todos os lados, discussões interessantes...

    ResponderExcluir
  8. Anônimo9.12.11

    Denise, tenho duas palavras pra te dizer a respeito dessa cláusula contratual: "QUE BARBARIDADE!" Como é que pode uma coisa dessas? Se todos soubessem o trabalho que dá fazer uma tradução "comme il faut", pra depois assinar uma cláusula absurda como essa? É como um engenheiro assinar um projeto cujos cálculos ficarão passíveis de sofrer alterações por parte de... sabe-se lá de quem! NEM MORTA MESMO!!! Abraço,
    Lúcia Lopes

    ResponderExcluir
  9. que bom que partilhas do meu estupor, lúcia :-)

    ResponderExcluir
  10. Marcos9.12.11

    Denise, a cláusula é nula porque é abusiva: viola claramente direitos morais do autor (tradutor, como se sabe, é autor), previstos no art. 24, IV e V, da Lei de Direitos Autorais. Se não houver acordo, peça ao Judiciário a anulação da cláusula abusiva.

    ResponderExcluir
  11. olá, marcos: sinceramente, espero que o bom senso prevaleça antes disso. mas agradeço muito!

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.