8 de ago de 2011

henry james, o peso da tarraxa

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outro grande autor usado, mal usado e abusado cá entre nós é henry james. de seus 23 romances, quase cento e vinte contos, uma infinidade de ensaios e artigos de crítica literária, uma vasta e variada correspondência, no brasil temos apenas umas duas dúzias de gatos pingados, entre romances, novelas, contos e um pouco de crítica literária.

o frenesi editorial se concentra em the turn of the screw, cujo título usualmente é vertido num inexplicável decalque como a volta do parafuso ou a outra volta do parafuso, às vezes variando como os inocentes, decerto na esteira do filme the innocents, com roteiro de truman capote.

os outros volumes publicados entre nós são: A herdeira, A fera na selva, Os papéis de Aspern, Os embaixadores, As asas da pomba, Um peregrino apaixonado e outras histórias, Retrato de uma senhora, Os espólios de Poynton, Pelos olhos de Maisie, Lady Barberina, Daisy Miller, Os quatro encontros, A morte do leão, Até o último fantasma e outras histórias, A lição do mestre, O pupilo, A roda do tempo, O mentiroso, Um incidente internacional, A vida privada e outras histórias, A taça de ouro, Gustave Flaubert, A Madona do futuro, A arte da ficção (ou do romance, varia, e nem na íntegra), e certamente uma quantidade de contos espalhados em antologias sem identificação de conteúdo nem de tradução para consulta digital.

a vinda do the turn foi tardia: lançado em 1898, só chegou aqui em 1961. talvez para compensar o atraso, em menos de cinquenta anos sucederam-se nada menos de dez traduções e três adaptações: brenno silveira, olivia krähenbühl, wallace leal rodrigues, marcos maffei, marcelo pen, paulo henriques britto, chico lopes, guilherme braga, luciano alves meira, cláudia lopes (trad. e adapt.), marques rebelo (adapt.), ana carolina rodriguez (adapt.).

acho uma pena e um desperdício. henry james morreu faz quase um século, e pelo visto não existe sequer o mais remoto esboço de um projeto editorial para criar um corpus jamesiano minimamente expressivo no país.

6 comentários:

  1. Foi em um livro do Paul Auster que percebi a importancia de James. A personagem mencionava-o dizendo que ele é um dos maiores autores que já existiram e sua prosa é tão forte que faz as pessoas terem medo de ler. Isso me deu vontade de lê-lo e farei em breve.

    Pesquisei os livros dele para escolher quais comprar e localizei uns dez publicado no máximo, com edições atuais, digo, possíveis de encomenda. Alguns da Cia de Bolso, dois recentes pela Penguin, mais dois pela BestBolso e mais dois pela Cosac.

    Quanto as voltas do parafuso, a matéria que saiu no blog da companhia a respeito é bem interessante quanto a porque coloca um outra volta no título.

    Ampliando o assunto, vejo que os projetos editoriais de lançar a obra de um autor como um todo é um movimento recente no Brasil. Hoje temos editoras lançando alguns autores quase de maneira seriada para completar a obra em um bom tempo.

    Na década passada isso não acontecia, basta ver - vou usar dois autores que acompanho - os livros do Kundera que há uns anos, apenas, foram retomados e os do Nabokov que foram lançados em passos lentos até ir para a Alfaguara que já colocou 3 deles no mercado.

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  2. olá, thiago. é, henry james tem coisas fascinantes!
    todos os livros que citei estão disponíveis à venda em sebos, até bem baratinhos (www.estantevirtual.com.br) - boa parte é esgotada, mas se encontram sim para comprar usados.
    a questão é que "to turn the screw" é uma expressão em inglês que significa "aumentar a pressão progressivamente" - "the turn of the screw" quer dizer um aumento brutal da pressão, da tensão. e me desculpe, a volta do parafuso não significa isso. li o artigo no blog da cia. - na verdade, é mais por uma questão comercial: como o infeliz literalismo sem nenhum sentido pegou (o primeiro a usar foi brenno silveira, "a outra volta do parafuso"), as editoras acabam preferindo usar o mesmo título para atrair os leitores.
    aconteceu a mesma coisa com "metamorfose": mesmo que o tradutor queira usar uma tradução mais correta, as editoras usam a anterior, mais conhecida.
    uma pena....
    quanto a projetos editoriais de fôlego, não dá para esquecer a globo nos anos 30 a 50. por exemplo, o brasil tem a maior poeana traduzida do mundo, até hoje, graças à edição da globo de 1944, com a ficção completa, a maioria dos poemas e uma parte dos ensaios. na verdade, a coisa degringolou dos anos 60 em diante, e apenas recentemente a 34, a cosac e mais uma ou outra estão tentando algo de mais fôlego. nos anos 80 a nova fronteira ainda tentou com a yourcenar, o svevo e outros grandes autores. mas depois foi comprada pela ediouro, aí dançou...

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  3. Denise,

    Também acho uma pena que tantas obras do James ainda não estejam disponíveis para o leitor brasileiro. Sempre que posso, incomodo as editoras sugerindo a tradução de títulos como "In the Cage", "The Sacred Fount", "The Princess Casamassima", "The Awkward Age", "The Tree of Knowledge"...

    Outro autor que inexiste nos catálogos brasileiros é Samuel Richardson. Li dia desses "A Ascensão do Romance" do Ian Watt e fui procurar alguma tradução de "Pamela" ou "Clarissa". Qual não foi minha surpresa ao descobrir que não há!

    PS: Tem certeza que o Marcelo Pen traduziu "The turn of the screw"? Creio que ele apenas escreveu o prefácio para a edição da Hedra. O livro que ele traduziu foi "Os Embaixadores" para a Cosac Naify.

    Abraços

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  4. olá, ricardo: sim, são espantosas as lacunas!

    a informação sobre o pen - muito lúcido, gostei - "Marcelo Pen, a quem coube a novela “A volta do parafuso”, de Henry James, discute a tradução do título: garante que se trata de um grande equívoco e que, a rigor, ela não quer dizer nada em português".

    é uma matéria de 2007, na época do lançamento, escrita por álvaro costa e silva, nos tempos do caderno ideias do JB, mas vc encontra reproduzida aqui: http://capacitorfantastico.blogspot.com/2007/08/contos-de-horror-do-sculo-xix.html

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  5. é, ricardo, fui ver tb clarissa e pamela, necas de pitiritiba!

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  6. Obrigado pela informação, Denise. Já tinha visto essa coletânea, mas como é comum em casos assim o site da Companhia só traz a informação "Vários tradutores".

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