2 de ago de 2011

alices

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Meu amiguinho Higor, do The Bloggerwocky, supertrabalha com as Alices e suas traduções, e conversando no twitter lembrei esse artigo muito legal do Jorge Furtado, que saiu no ano passado aqui. Transcrevo com as devidas vênias, porque é muito bom e informativo.

Jorge Furtado compara traduções brasileiras de Alice no País das Maravilhas

Tradutor aponta soluções diferentes para enfrentar as muitas dificuldades do texto

JORGE FURTADO*

Em 2008, ao terminar a tradução de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, com a curiosidade acumulada durante os três anos que durou o trabalho, passei a ler com atenção todas as traduções brasileiras que consegui encontrar. Cada uma delas tem soluções originais, criativas, mais ou menos felizes, para enfrentar as muitas dificuldades do texto. Aqui, um quadro comparativo de algumas delas:

I. Poema de abertura, três primeiros versos
Lewis Carroll
Alice's Adventures in Wonderland

"All in the golden afternoon full leisurely we glide;
For both our oars, with little skill,
By little arms are plied, while little hands make vain pretence our wanderings to guide."

Monteiro Lobato (tradução e adaptação, Companhia Editora Nacional, primeira edição de 1931)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Primavera das Neves (tradução, Editorial Bruguera, sem data)
Alice no País das Maravilhas: "Na cálida tarde deste dia, o barco desliza lentamente, e é agradável deixar vaguear a mente pelo reino da fantasia"

Oliveira Ribeiro Netto (tradução, Editora do Brasil, sem data)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Maria Thereza Cunha de Giacomo (adaptação, Melhoramentos, 1966)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Sebastião Uchôa Leite (tradução e organização, Summus, 1980)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "No verão, na tarde de ouro, deslizamos vagarosamente. Nossos remos são manejados sem perícia, no sol ardente: mãos gentis, que fingindo vão guiar nosso passeio errante."

Regina Stella Moreira Gomes (Companhia Editora Nacional, 1984)
Alice no País das Maravilhas: não consta

Ana Maria Machado (Ática, 1997)
Alice no País das Maravilhas: "Num dourado entardecer rio abaixo a deslizar, os dois remos nem pediam nossos braços a remar. Mas pequeninas fingiam nosso passeio guiar."

Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher (poemas) Editora Objetiva, São Paulo, 1999
Alice no País das Maravilhas: "Nós deslizamos à vontade na tarde que é dourada, Bracinhos remam de maneira mais que desajeitada Enquanto em vão mãozinhas fingem guiar nossa jornada."

Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998)
Alice no País das Maravilhas: "Juntos na tarde dourada suavemente a deslizar, nossos remos, sem destreza, dois bracinhos a manejar, pequeninas mãos que fingem nossa direção guiar."

Maria Luiz de X. Borges (Jorge Zahar, 2002)
Aventuras de Alice no país das maravilhas: "Juntos naquela tarde dourada deslizávamos em doce vagar, pois eram braços pequenos, ineptos, que iam os remos a manobrar, enquanto mãozinhas fingiam apenas o percurso do barco determinar."

Jorge Furtado e Liziane Kugland (Objetiva, 2008)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "Num verão, com sol perfeito, devagar flutua um bote. A remadora sem jeito, espera que ninguém note que não navega direito, mal sabe o que é sul ou norte."

Nicolau Sevcenko (Cosac Naify, 2009)
Alice no País das Maravilhas: "Todos no bote ao sol da tarde, cheios de alegria flutuando, mãozinhas desajeitadas os remos e os lemes comandando, a tatear nas águas ondeadas, desliza o divertido bando."

Clélia Regina Ramos (Universo dos Livros, 2009)
Alice no País das Maravilhas: não consta

II. Capítulo 1
Lewis Carroll
Down the Rabbit's Hole
"There are no mice in the air, I'm afraid, but you might catch a bat, and that's very like a mouse, you know. But do cats eat bats, I wonder?' And here Alice began to get rather sleepy, and went on saying to herself, in a dreamy sort of way, 'Do cats eat bats? Do cats eat bats?' and sometimes, 'Do bats eat cats?' for, you see, as she couldn't answer either question, it didn't much matter which way she put it."

Monteiro Lobato
Viagem à toca dos coelhos
"Sim, porque estou caindo na ar e no ar não há ratos, há morcegos, que é rato de asa. Mas será que gato come morcego?" Alice começou a sentir uma certa sonolência e neste estado o pensamento fica preguiçoso. Começou a repetir muitas vezes a mesma frase: — Gato come morcego? Às vezes repetia errado: — Morcego come gato? E como não obtivesse resposta continuava a repetir sempre a mesma pergunta."

Primavera das Neves
Capítulo Primeiro
"— No ar não há ratos, mas talvez haja morcegos. E os ratos e os morcegos são muito parecidos, só que os morcegos tem uma espécie de asas. Mas os gatos comerão morcegos? Às vezes enganava-se e dizia: — Os morcegos comerão gatos? Mas, de uma forma ou de outra, ninguém lhe podia responder, e ela tampouco, porque não sabia."

Oliveira Ribeiro Netto
Na toca do coelho
"Não há ratos no ar, infelizmente, mas você poderia caçar um morcego, que é muito parecido com rato, sabe? Mas será que gato come morcego? Aí Alice começou a sentir muito sono, e continuou a falar consigo mesma, numa espécie de sonho: Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes Morcego come gato?, porque, como vocês sabem, ela não podia responder a questão e de nada adiantava a maneira como perguntava."

Maria Thereza Cunha de Giacomo
Na toca do Coelho
"— Não há camundongo no ar, com certeza, mas você poderia caçar um morcego, que é tão parecido com rato. Só que tem asas. Gostaria de saber se gato come morcego... E, Alice, que já estava sonolenta, começou a repetir baixinho, como em um sonho: — Gato come morcego? Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes se enganava: morcego come gato? Como ninguém ia responder às suas perguntas, nem valia a pena falar certo."

Sebastião Uchôa Leite
Entrando na toca do coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas bem que você podia pegar um morcego, é igualzinho a um rato, sabe? Mas, gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar meio sonolenta, continuando a dizer para si mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como não sabia responder à pergunta, pouco importava a maneira como fosse colocada."

Regina Stella Moreira Gomes
Capítulo 1º
"— Penso que não existem camundongos no ar, mas você poderia caçar um morcego! Afinal, eles são bem parecidos com camundongos. Mas, será que gatos comem morcegos?
Alice já estava ficando com sono, e começou a repetir:
— Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?
Às vezes também falava:
— Morcegos comem gatos?
Mas, como não havia ninguém para responder, não tinha muita importância o modo como fazia as perguntas."

Ana Maria Machado
Na toca do Coelho
"— Quer dizer, eu sei que no ar não tem nenhum ratinho nem camundongo, e que você adora esses bichos, tem um amor cego por eles. Mas talvez você conseguisse pegar um morcego, quem sabe? Mas será que ia gostar? Também ia sentir um amor cego pelo morcego?
E como a essa altura Alice já estava ficando com muito sono, começou a dizer para si mesma, como se estivesse sonhando:
— Ia sentir um amor cego por morcego... E será que o morcego também sente amor cego?
É que, como ela não conseguia mesmo responder a nenhuma dessas perguntas, tanto fazia de um jeito como de outro."

Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher
Na toca do Coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas você bem que poderia pegar um morcego... é quase igual a um rato, você sabe. Será que gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar com sono, e continuou dizendo consigo mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como ela não conseguia responder à pergunta, não importava muito a ordem em que era colocada."

Rosaura Eichenberg
Descendo pela toca do Coelho
"Não há camundongos no ar, infelizmente, mas você poderia pegar um morcego, e morcegos são parecidos com camundongos, sabe. Mas será que gatos comem morcegos? E nesse momento Alice começou a ficar com sono, e continuou a falar consigo mesma, meio que sonhando: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?', pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava."

Maria Luiza de X. Borges
Pela toca do Coelho
"Pena que mão haja nenhum camundongo no ar, mas você poderia apanhar um morcego, é muito parecido com camundongo. 'Mas será que gatos comem morcegos?' e às vezes 'Morcegos comem gatos?' pois, como não sabia responder à nenhuma das perguntas, o jeito como as fazia não tinha muita importância."

Jorge Furtado e Liziane Kugland
Na toca do Coelho
"— Não tem nenhum rato no ar, que pena, mas você poderia pegar um morcego, que é como um rato, você sabe. Mas será que gato come morcego? E então Alice começou a ficar com bastante sono e continuou falando sozinha, como num sonho: 'Morcego é como rato e gato come rato… Ga-to-co-me-ra-to… Gato come rato?', e às vezes, 'Ra-to-co-me-ga-to?'. Sabe como é, já que ela não conseguia responder nenhuma das perguntas, não importava muito a ordem das palavras."

Nicolau Sevcenko
Descendo à toca do Coelho
"— É pena que não haja ratos no ar, mas você poderia pegar um morcego, que é bem parecido com rato, sabe? Mas será que Diná, minha gata angorá, come morcego andirá?
Adormecendo aos poucos, ela continuou repetindo, como se a sonhar: 'Angorás comem andirás? Angorás comem andirás?' E, às vezes, 'Andirás comem angorás?', pois, já que ela não sabia responder a nenhuma dessas questões, tanto fazia a ordem."

Clélia Regina Ramos
Para baixo na toca do coelho
"'Não há ratos no ar, eu temo, mas você poderia pegar um morcego, eles são tão parecidos com os ratos, você sabe. Mas será que os gatos comem morcegos?' E aqui Alice começou a ficar sonolenta e continuou falando para si mesma, de uma maneira sonhadora. 'Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?'. Como vocês podem ver, ela não conseguia responder a nenhuma das duas questões, portanto não importava muito de que maneira ela as colocava."

Traduções:
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Nicolau Sevcenko (Cosac Naify, 2009)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Clélia Regina Ramos (Universo dos Livros, 2009)
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de Liziane Kugland e Jorge Furtado (Objetiva, 2008)
  • Alice: Edição Comentada - Tradução de Maria Luiza de X. Borges (Jorge Zahar, 2002)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Isabel de Lorenzo. Tradução dos poemas: Nelson Ascher (Sol, 2000)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Ana Maria Machado (Ática, 1997)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Barbara Theoto Lambert (Edições Loyola, 1995)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Regina Stella Moreira Gomes (Companhia Editora Nacional, 1984)
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de Sebastião Uchoa Leite. Tradução dos poemas: Augusto de Campos (Summus, 1977)
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de José Vaz Pereira e Manuel João Gomes (Editora Brasília, 1976)
  • Alice no País das Maravilhas - Adaptação de Maria Thereza Cunha de Giacomo (Melhoramentos, 1966)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Paulo Nasser (Vecchi, 1964)
  • Alice na Terra das Maravilhas - Tradução de Pepita de Leão (Livraria do Globo, 1947) [1a. ed.: 1934]
  • Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução e adaptação de Monteiro Lobato (Companhia Editora Nacional, 1944) [1a. ed.: 1931]
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução e adaptação de Oliveira Ribeiro Netto (Editora do Brasil, s/d)
  • Alice no País das Maravilhas - Tradução de Lúcia Benedetti (Editora Tecnoprint Ediouro)
  • Alice no País das Maravilhas (e Alice no País do Espelho) - Tradução de Primavera das Neves (Bruguera, sem data)
* Diretor de cinema, escritor e tradutor. Traduziu, com Liziane Koglund, As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (Objetiva, 2008)

imagem: aqui
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4 comentários:

  1. Isso me lembra que em 2015 será publicado nos EUA uma catalogação de todas as edições ever de "Alice in Wonderland", mal posso esperar. :)

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  2. é mesmo? será que estão incluindo as brasileiras tb?

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  3. Estão sim, recebi um e-mail da Adriana Peliano (presidente da "Sociedade Lewis Carroll do Brasil") dizendo que quem quisesse poderia ajudar no projeto.

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  4. ah, que bom! com sua colaboração, vai ficar legal :-)

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