Passo à apresentação dos motivos de minha perplexidade e irritação com irresponsabilidades editoriais que mencionei no post anterior, poe XXXVI. Seguirei o índice.
"A queda da Casa de Usher", pela Edibolso/Cedibra, em nome de Luísa Lobo:
Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
"A queda da Casa de Usher", pela Civilização Brasileira, em nome de Brenno Silveira:Poderia prosseguir até o final do conto, mas, para fins ilustrativos, creio que basta esta primeira frase. Para mostrar claramente como é impossível encontrar duas traduções iguais feitas por dois tradutores diferentes, veja-se como José Paulo Paes, Oscar Mendes/ Milton Amado e Aurélio Lacerda vertem o mesmo original:
Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
A queda da Casa de Usher, pela Cultrix (Companhia das Letras), José Paulo Paes:Eis o original:
Durante todo um dia pesado, escuro e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoavam-se opressivamente no céu, eu percorri a cavalo um trecho de campo de tristeza singular, e finamente me encontrei, quando as sombras da noite se avizinhavam, à vista da melancólica Casa de Usher.
A queda do Solar de Usher, pela Globo (Nova Aguilar), Oscar Mendes e Milton Amado:
Durante todo um pesado, sombrio e silente dia outonal, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, estive eu passeando, sozinho, a cavalo, através de uma região do interior, singularmente tristonha, e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, perto do melancólico Solar de Usher.
A queda da casa de Usher, pela Pinguim, Aurélio Lacerda:
Por todo o correr de um dia escuro, lúgubre e silencioso de outono, quando as nuvens, baixas, se acumulavam opressivas no céu, atravessara sozinho, a cavalo, uma região de campanha singularmente triste e, afinal, quando já caíam as sombras da tarde, encontrava-me à vista da merencórea Casa de Usher.
During the whole of a dull, dark, and soundless day in the autumn of the year, when the clouds hung oppressively low in the heavens, I had been passing alone, on horseback, through a singularly dreary tract of country; and at length found myself, as the shades of the evening drew on, within view of the melancholy House of Usher.Como a tradução de Brenno Silveira saiu originalmente em 1959, e essa em nome de Luísa Lobo em 1975, não resta dúvida sobre a anterioridade. Para tornar as coisas ainda mais absurdas, tanto Brenno Silveira quanto Luísa Lobo são tradutores renomados, com trabalhos de qualidade, e não faria o menor sentido que um se apropriasse da tradução do outro. Acontece que assim estão os créditos no livro; assim está a atribuição de autoria; assim, em termos materiais, está criado um dado objetivo.
O grande risco, a meu ver, tal como ocorreu no caso da editora Itatiaia, atribuindo a Galeão Coutinho uma tradução de Mário Quintana, e no caso da editora Martin Claret, atribuindo a Isa Silveira Leal traduções de Ruth Guimarães, é que o nome do segundo tradutor, vitimado pela incúria da editora, fique conspurcado, ou pelo menos sob suspeita. No mínimo instaura-se uma confusão em nossa história lítero-tradutória. O que dirá um pesquisador daqui a cinquenta anos, perante a materialidade dos fatos?
Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria muito proveitoso que a profa. Luísa Lobo legasse para nossa memória documental um depoimento a respeito, a fim de esclarecer antecipadamente qualquer dúvida que possa vir a surgir no futuro sobre a legítima autoria dessa tradução.
atualização em 14/09/2011: a tradutora Luiza Lobo avisou que tentará descobrir o que pode ter acontecido.
imagem: a queda da casa de usher
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