5 de jul de 2011

o segundo ano de kafka no brasil

prosseguindo com essa difícil reconstrução da fortuna de kafka no brasil, apresentada no valioso artigo de sousa, brito e santos,* temos que:
Uma 2a tradução, Erstes Leid (traduzida como O artista do trapézio), vem a público em 1958, pela editora Cultrix, de autoria e fonte não mencionadas. O texto faz parte de uma antologia com o título Maravilhas do conto alemão, organizada por Diaulas Riedel. A seleção dos textos foi feita por Albert H. Widmann, com introdução e notas de Edgard Cavalheiro. Embora o tradutor não seja mencionado, há informações de que a tradução foi revista por T. Booker Washington, o que indica que o texto provavelmente também tenha sido traduzido a partir de edição inglesa. (pp. 232-33)
tentando contribuir, eu acrescentaria um ou dois pormenores.


a. essa coleção da cultrix em 24 volumes, com o título de maravilhas do conto x, y, z (aliás, bastante boa), concebida pelo falecido proprietário diaulas riedel, traz o nome de t. booker washington em vários deles: nas maravilhas do conto inglês, do conto italiano, do conto francês, do conto norte-americano, do conto russo, do conto universal... o que quero dizer é que, em vista disso, a presença do nome "t. booker washington" como revisor da tradução não indica que o texto de base fosse em inglês: como já afirmei em outro lugar (veja aqui), parece-me provável que seja apenas um pseudônimo usado por algum editor da casa na época - aliás, quem sabe se numa ressonância de booker t. washington, o ativista e pedagogo americano.

b. quanto ao responsável pela seleção desse volume de contos alemães da cultrix, não consegui localizar nenhuma referência a um "albert h. widmann" como antologista de kafka ou de qualquer outra coisa, seja em países de língua alemã ou de língua inglesa. eu não estranharia muito se fosse uma seleção nacional com nome istranjêro para ficar mais bonito.

c. o volume citado apareceu pela cultrix em 1957 (em 1958 talvez se trate de uma segunda edição).

d. finalmente, erstes leid traduzido como um artista do trapézio me evoca, em primeiro lugar e acima de tudo, a antiga tradução espanhola un artista del trapecio (publicada em nome de jorge luis borges, e que é toda uma outra novela do plagiarismo transnacional). vale notar que erstes leid foi publicado em inglês primeiro como first grief e depois, na tradução que se consagrou, como first sorrow - naturalmente, nada impede que um tradutor brasileiro resolvesse traduzir erstes leid ou first sorrow por um artista do trapézio. mas sinceramente me parece bem mais provável que a base dessa tradução publicada pela cultrix tenha sido mesmo un artista del trapecio.

de qualquer forma, esses dados da edição da cultrix parecem tão bizarros que mereceriam maiores pesquisas.

* veja aqui o primeiro kafka no brasil.

imagem: aqui
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4 comentários:

  1. A história dessa coleção está parecendo algo tramado por...Borges!

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  2. Querida Denise, volta e meia, durante minhas pesquisas, deparo com teu blog... Sempre tão útil e informativo. Bem, no meu caso, estou historiando a tradução das Novelas Exemplares no Brasil (apresentarei no próximo congresso intl. de hispanistas, bsas 15-20/julho) e uma das novelas, A força do sangue inicia a antologia MARAVILHAS DO CONTO ESPANHOL, Cultrix, 1958. Neste caso a seleção seria de um tal Ángel Eugénio Echegaray - pessoa que parece inexistente, portanto deve ser parente do tal Albert H. Widmann... Claro que também cheguei à mesma conclusão que você quanto ao T. Booker Washington, pena que só entrei no teu blog depois de perder tempo tentando descobrir que ele era!

    Um beijo grande, depois te mando o trabalho completo, você vai gostar.

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  3. quaquaquá! eles eram infames, não, silvia? e o coordenador editorial geral da cultrix nessa época, e também específicamente dessas maravilhas do conto universal era o edgard cavalheiro. entende por que eu digo que duvido muito de qualquer tradução que ele arrogasse a si? já quando ele estava com o almiro rolmes barbosa com aquelas coletâneas de obras-primas do conto isso e aquilo, pela martins, já tinha umas coisas meio estranhas. mas a martins era bem mais séria.

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