13 de jul de 2011

falsos amigos I

como compartilho da posição de julia escobar, publicada aqui, creio que podemos e devemos comentar nossos erros com serenidade, sem medo de ferir suscetibilidades. digo erros, não partidos adotados, não escolhas mais afortunadas ou menos afortunadas: erros mesmo. acho que é importante para o amadurecimento do ofício a médio e longo prazo, contribui para um processo de aprendizagem mais amplo, faz parte da ética profissional e é uma mostra de respeito pela principal instância à qual dedicamos tantos neuroninhos, que é o leitor.

eu começaria por uma família de erros que é simples, mas muito numerosa.

I.
faz parte do beabá do ofício de tradução a cautela que se deve ter com o chamado "falso amigo": é aquela palavra estrangeira que é muito parecida com outra palavra em português (ou outra língua qualquer), mas cujos sentidos são diferentes. podem ter a mesma origem etimológica e foram seus sentidos que seguiram rumos diversos, e nesses casos são "cognatos", ou podem ter origens distintas e seus sentidos sempre foram diferentes, e aí são "falsos cognatos" - de qualquer forma, cognatos ou não cognatos, deve-se desconfiar da amizade que eles nos oferecem com tanta prestimosidade.


falando aqui só do inglês para o português, eles existem às centenas, aos milhares, desde os mais descarados aos mais insidiosos. alguns exemplos bastante conhecidos: eventually, actual, relevance, evidence, ingenious, conceit, deception, (to be) partial e seus vários correlatos. isso no nível vocabular, mas existem amigos bem falsinhos também no nível sintático.

um exemplo mais propriamente sintático seria, digamos, what can be substituted for eggs when cooking? pode acontecer que algum tradutor, feliz da vida com uma frase tão facinha ou nem feliz, mas simplesmente sem se dar conta, ponha assim: "o que pode ser substituído por ovos na hora de cozinhar?" - na verdade, a pergunta é "o que pode substituir os ovos na hora de cozinhar?"

os falsos amigos que fazem a gente cair nessas esparrelas compõem um dos capítulos mais divertidos e mais embaraçosos dessa vida nossa de tradutor. alguns, a rigor, nem são falsíssimos, estão mais para hipócritas: um que não esqueço e jamais esquecerei é um intoxicated que pus como "intoxicado" (em vez de "embriagado", p.ex.) no belíssimo homens em tempos sombrios da hannah arendt, e que deve continuar circulando por aí em sua enésima edição. apesar do ditado "desgraça compartilhada é meia alegria", pouco consolo foi encontrar paulo rónai e aurélio buarque de hollanda usando também o mesmo infeliz "intoxicado" em algum conto do mar de histórias. bom, pelo menos a companhia é ilustre...

imagem: mango juice

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3 comentários:

  1. Adorei o "Juice of Sleeve".
    Os cardápios traduzidos das barraquinhas das praias sempre me divertem.

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