6 de jun de 2011

por que quero premiações de verdade

aproxima-se a data do prêmio de tradução da abl para obras literárias publicadas em 2010.

gostaria de explicar por que acho importante que esse prêmio de fato premie boas traduções.

em primeiro lugar, creio ser inegável que as obras de tradução têm um peso considerável no brasil. se - segundo dados que vejo na internet - nos estados unidos as traduções literárias correspondem a menos de 4% da produção editorial e, na europa, a cerca de 12-14%, no brasil alguns pesquisadores como heloísa barbosa e lia wyler estimam uma proporção que chega aos 80%.

apesar dessa presença significativa de obras traduzidas no país, o reconhecimento do ofício de tradução está muito aquém do que se poderia esperar. uma das formas de reconhecimento público, em todo o mundo, é a outorga de prêmios a obras de destacada qualidade. no brasil, porém, conta-se nos dedos de uma das mãos o número de prêmios de tradução. e refiro-me apenas à tradução literária, pois a tradução não literária é ainda menos reconhecida.

veja-se como está a situação dos prêmios de tradução literária no brasil:
  • o prêmio açorianos deixou de existir desde o ano retrasado;
  • agora em 2011, a cbl eliminou uma das duas categorias de tradução no prêmio jabuti;
  • com isso, restam apenas o jabuti (em apenas uma categoria, câmara brasileira do livro), o paulo rónai (fundação biblioteca nacional) e o da abl (academia brasileira de letras). a fundação nacional de literatura infanto-juvenil mantém o monteiro lobato tradução criança e o monteiro lobato tradução jovem.
em tradução não literária, temos apenas um prêmio, o da união latina, a cada três anos!

é por isso que acho que temos tanto mais razão em esperar que esses poucos, minguados, rarefeitos prêmios de tradução de fato premiem os praticantes de um ofício que responde por grande parte das publicações e das leituras do país.

e é por isso que acho uma pena enorme que a abl tenha descarrilado totalmente no ano passado, ao conceder um desses raríssimos prêmios a uma obra que não tinha as qualidades mínimas necessárias para ser sequer indicada.

ademais, não podemos esquecer que, antes desse triste episódio na abl em 2010, seu histórico de premiações era digno e louvável. veja-se:
2003 – Boris Schnaiderman
2004 – Bruno Palma e Marcos Santarrita
2005 – Ivo Barroso e Eduardo Brandão
2006 – Geraldo de Holanda Cavalcanti
2007 – Bárbara Heliodora
2008 – Leonardo Fróes e Agenor Soares dos Santos
2009 – Paulo Bezerra
[2010:  Milton Lins]
quanto ao velho argumento de que a abl, sendo uma fundação de direito privado, premia quem ela bem quiser, já expus longamente minha opinião: resumindo, por seu papel institucional, ela tem, sim senhor, de dar algum tipo de satisfação pública pelas escolhas culturais que faz.
 
então, a quem considera tola e inglória essa minha briga para se ter uma premiação legítima na abl, eu respondo: não, muito pelo contrário! temos é de torcer para que a abl volte a reconhecer devidamente a importância das boas traduções.

a quem afirma que essa minha esperança na verdade seria uma cruzada em proveito próprio, só posso lembrar que não costumo fazer tradução literária e me sinto bastante tranquila para defender desinteressadamente prêmios para traduções literárias meritórias.
 
e por fim, a quem pensa que eu não deveria criticar premiações francamente equivocadas porque estaria ferindo colegas de ofício, bom, só posso dizer que o corporativismo nunca foi uma coisa muito saudável em qualquer ofício que seja.
 
atualização: ao que parece, a comissão de tradução da abl já se reuniu e já tem suas indicações para este ano. seria legal se divulgassem.

quem quiser se informar sobre os descaminhos da abl em sua premiação de 2010, ver aqui.
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15 comentários:

  1. Anônimo7.6.11

    E o pior é que a excelente tradução de Vasco Graça Moura dos Sonetos de Shakespeare saiu justamente pela... Landmark.

    Abraço,
    Rubens Enderle

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  2. Denise:
    A ABL tem a obrigação moral de retomar o bom caminho no que diz respeito às premiações.
    Afinal, ela não é um grêmio de ginasianos, e tem responsabilidades perante a sociedade.
    Abraço.

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  3. Apóio plenamente seu protesto. Não só pela valorização da tradução, mas também pelo leitor, que supõe que uma obra premiada possua qualidade.

    Imagina um leitor monolíngue ao ler um texto absurdo (é o adjetivo que descreve o livro premiado no ano passado) e considerá-lo como referência, pois recebeu o aval de uma grande instituição?

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  4. prezado rubens, pena mesmo! a tradução da divina comédia do vasco graça moura também saiu pela landmark. um desperdício...

    concordo, henrique: as pessoas podem ridicularizar o chazinho da academia, mas tomar a instituição como mero folclore também não ajuda muito a melhorá-la.

    pois ééé, elaphar, tem mais essa, e talvez o mais grave: esse falso "selo de qualidade" para os leitores, para a sociedade em geral.

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  5. Anônimo11.6.11

    Denise, talvez você possa me ajudar. Tenho uma pequena curiosidade quanto a Tolstói:
    Em livros muito antigos, pode-se encontrar a grafia Leão Tolstói, depois foi empregado Léon Tolstói e, atualmente, Liev Tólstoi.
    Você sabia me dizer onde posso encontrar o motivo de tal variação no nome do escritor russo?

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  6. prezado anônimo:
    em termos gerais, eu diria o seguinte: em portugal costumava-se aportuguesar os nomes dos autores, e muito tempo atrás o brasil também adotava essa prática - carlos marx, leão tolstói etc. mas no século XX o brasil deixou de aportuguesar o primeiro nome do autor e passou a adotar a grafia basicamente francesa, visto que as traduções de autores russos no brasil eram feitas basicamente a partir do francês (além de léon, também fédor dostoievsky, por exemplo). só com o desenvolvimento editorial brasileiro e traduções feitas diretamente do russo é que passamos a ter as grafias tomadas diretamente ao russo também: daí fiodor, liév etc.

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  7. Anônimo12.6.11

    Obrigado pelo esclarecimento.

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  8. O que me consterna nesse caso do Milton Lins é o fato de que qualquer um com o mínimo de conhecimentos de inglês teria feito uma tradução "melhorzinha". Obs.: Tendo dito isso, que fique claro que eu não estou menosprezando o trabalho do tradutor profissional ou mesmo o texto de Shakespeare. Estou apenas deixando claro minha indignação com um trabalho "porco" feito com a obra de um dos maiores gênios da literatura universal.

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  9. Permafrost13.6.11

    Não precisava nem prêmio em dinheiro. Bastava *reconhecer*, né?

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  10. olá, perma, ou pelo menos não confundir tradução com esse tipo de coisa que nem sei que nome tem. já pensou botarem no mesmo saco com etiqueta "tradução"?

    pois é, leia, é bem isso mesmo: qualquer ginasiano, depois de dois semestres de inglês (ou de francês, porque os cometimentos da figura em francês são tão abismantes quanto esses) faria melhor. quer dizer, não é que seja uma tradução ruim - está muito aquém, muito antes e muito abaixo de qualquer tradução, por pior que seja. e por isso essa maluca premiação é tanto mais ofensiva para o ofício.

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  11. Anônimo14.6.11

    *off*
    denise, vc sabe se a tradução da L&PM de guerra e paz é boa?

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  12. olá, prezado anônimo: ao que eu saiba a tradução que saiu pela lpm é a de joão gaspar simões. não li, mas joão gaspar simões foi excelente tradutor: era um intelectual português de grande importância, e até onde sei sua tradução de guerra e paz saiu originalmente em 1957. não sei seé direta (pouco provável) - mais provavelmente é por interposição, mas não posso dar certeza, e nem saberia dizer se teria sido pelo inglês ou pelo francês. em todo caso, é um autor de primeiríssima linha e com vasto currículo tradutório. eu confiaria.

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  13. Anônimo15.6.11

    ah, brigadão, denise. é que eu ouvi falar algumas coisas ruins (não tanto da tradução em si, mas alguns errinhos de edição, ortografia) daí hesitei um pouquinho e até pensei em comprar uma edição em inglês, pq já tinha os volumes da l&pm em casa. mas ok, vai essa mesmo.

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  14. Olá, Denise.
    Esse dado sobre a proporção entre a publicação de traduções e edições originais no Brasil serve para aumentar a importância do teu trabalho aqui no blogue. Temos muito contato com autores estrangeiros, mas muitas vezes este não é um contato, digamos, legítimo, porque ficamos à mercê das más traduções e das más publicações. Eu já desgostei de alguns textos de escritores maravilhosos por causa do desserviço de seus tradutores; depois fui descobrir o quanto havia perdido.
    Sei que essa batalha é difícil e longa, porém desejo que dê tudo certo, pois como leitor também espero melhoras nesse sentido. É uma pena que poucas pessoas se interessem por questões como esta. São poucos os que pensam sobre aquilo que consomem.
    Bem, continua com o bom trabalho! Deixei uma recomendação ao Não Gosto de Plágio em meu sítio. Até!

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  15. christian, muitíssimo obrigada pelas palavras gentis e pelo alento. a coisa é meio inglória, mas, se deixar, aí sim é que desanda. e muito obrigada pela menção em seu site, ops, sítio :-)

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