4 de fev de 2011

caso germinal

recentemente fui chamada à delegacia para uma oitiva sobre o caso da editora germinal. eu tinha entrado com um pedido de representação junto ao ministério público estadual de são paulo, e o procurador considerou por bem mandar instaurar um inquérito para apurar as responsabilidades.

compareci à delegacia, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito continua em andamento.

por coincidência, vejo que o crítico literário alfredo monte, um dos primeiros a denunciar essas terríveis ocorrências de plágios e cópias de traduções alheias, republicou em seu excelente blog, Monte de Leituras, um oportuníssimo Memorial do Caso Germinal.

transcrevo alguns trechos de seu artigo extremamente esclarecedor:
Uma das editoras que surgiram nos últimos anos, a Germinal, vem publicando traduções suspeitíssimas. Contatos foram tentados com os responsáveis, mas não há explicações plausíveis para o fato de as traduções de Felipe Padula Borges para Mulheres apaixonadas, de D. H. Lawrence, e Wilson Hilário Borges para Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, serem cópias de versões anteriores. Não tiveram nem o cuidado de disfarçar um pouco, o máximo a que se deram ao trabalho foram algumas mudanças insignificantes!


É lamentável, ainda mais porque se perdeu a oportunidade de oferecer, no caso de Broch, a primeira tradução legítima no Brasil (pois o suposto trabalho de Wilson Hilário Borges copia o do português Jorge Camacho para as Edições 70) de uma obra-prima; no caso de Lawrence, apesar de circular em nosso país há muito tempo, numa adaptação de Ruth de Biasi, a versão descaradamente copiada também é um texto lusitano, de Cabral do Nascimento, editada pela Record, pelo Círculo do Livro, pela Abril Cultural e recentemente pela Nova Cultural, herdeira mais pobre (em qualidade). [...] É ela que foi plagiada por Felipe Padula Borges. Eis um trecho plagiado:

pág. 482 (ed. Record): “Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se com o auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

pág. 563 (ed. Germinal): ” Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se como auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte, entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

Como [se] vê, a única contribuição de Felipe Padula Borges para a versão anterior foi uma vírgula após a palavra Marienhutte.

Vejamos agora o caso de “Os Sonâmbulos”. O livro foi lançado pelas edições 70, de Portugal, em três volumes ( os números 7, 11 e 13 da Coleção Caligrafias). O primeiro volume, “Pasenow ou O Romantismo” (em 1988), traduzido por António Ferreira Marques.


pág. 164 (ediçôes 70): “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protectora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objectivo, a caminho do nada.”

pág. 160 (Germinal): “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protetora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objetivos, a caminho do nada.”

O sr. Wilson Hilário Borges teve muito trabalho nesse trecho: tirar o “c” lusitando de protectora e objectivo.

O 2o. volume ((1989), “Esch ou A Anarquia”, foi traduzido (assim como o 3o., do mesmo ano, “Huguenau o O Realismo”) por Jorge Camacho.

pág. 306-7 do 3o. volume (edições 70): “Qualquer deles sabe efectivamente que a vida do homem não é suficiente para levar os passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alto, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes; via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até aos pólos e aos confins do mundo” etc etc.

pág. 697 (Germinal, que publicou os três num volume só):“Qualquer deles sabe efetivamente que a vida do homem não é suficiente para levar oa passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alta, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes: via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até os pólos e aos confins do mundo” etc etc.

O trecho acima deu mais trabalho: além do “c” de efectivamente, ele teve de tirar uma preposição de “aos pólos”.
Como disse, o inquérito para apurar as responsabilidades da editora em questão está em andamento. Espero que a procuradoria do estado venha a tomar as providências cabíveis e previstas em lei.

veja aqui os posts relacionados a várias ocorrências da germinal
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