13 de jul de 2010

prêmio abl de ligeireza 2010

o tradutor, poeta, acadêmico e imortal ivan junqueira declarou à imprensa que o Prêmio ABL de Tradução 2010 seria um reconhecimento de uma vida inteira dedicada à tradução.

ao ser informado de que milton lins se aventurou ao ofício há dez ou doze anos, ivan junqueira reagiu: "Pela quantidade de coisa que ele traduziu, eu imaginava que fosse mais tempo"...

já comentei essa reação do imortal tradutor ivan junqueira, pelo lado trocista da coisa. mas, se avaliarmos melhor, vemos que a surpresa do imortal é fundamentada. pois quem há de crer que é pouca coisa traduzir  rimbaud em metro e rima, todo o espólio poético de andré chénier, a totalidade dos 154 sonetos de william shakespeare, quatro volumes de pequenas traduções de grandes poetas, os álcoois de apollinaire, os versos do dom quixote, assim num estalar de dedos?

vejamos, pois:



será que milton lins realmente achou que o galho "retumba" em vez de pender ou recair sobre o banco? ou foi porque assim não precisava perder tempo procurando outra solução para a rima?
e o musgo? virou espuma porque era mais ligeiro e maneiro?

outra forma de ligeireza é a que se encontra no prefácio de pequenas traduções II, p. 13: "No translation would be possible [etc.], escreveu em inglês Walter Benjamin, filósofo e crítico literário alemão". ah, é mesmo? benjamin então escreveu o famoso prefácio à sua tradução de poemas de baudelaire, Die Aufgabe des Übersetzers ["a tarefa do tradutor"], em inglês?!

de qualquer forma, espero que a abl, que aliás conta com tantos tradutores entre seus membros, ao menos enrubesça pela injúria ao ofício e pelo insulto a seus praticantes.

imagem: vergonha

14 comentários:

  1. Que tal sugerir à ABL que na próxima dê o prêmio ao "google translator"?

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  2. Anônimo13.7.10

    Cara Denise:

    Você é mesmo, além de tudo, uma entidade indispensável, uma guardiã da causa justa, da dedicação e honestidade no trabalho intelectual. Agora mesmo, como sempre, denuncia corretamente um novo absurdo dos nossos dias, a premiação pela ABL dessas Pequenas traduções de grandes poetas que, pelas informações que venho tendo, é mais um escândalo de incompetência e/ou canalhice... Uma vez mais, estamos com você, e com a sua luta.
    Um abraço
    Mauro

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  3. pois é, 'espuma' no banco ficou estranho e nojento (o Tio Gugo é que escolheria 'espuma', ou 'musse', em vez de 'musgo' pra verter 'mousse').
    quanto ao galho retumbante, o problema é que sem ele o tradutor teria de abrir mão da tumba.
    e, em de vez de ver as lágrimas das coisas, viu as coisas lacrimosas; 'un signal à son angle placé' ('placé' que justamente evoca 'place') ficou 'na esquina colocado'. o ritmo ficou truncado com o 'galho, estando só, retumba' pra 'la blanche à l'abandon retombe' (ademais, o galho passou a retumbar, mas a sonoridade desse verso ficou pobre).
    faltou uma virgulinha entre 'ouro' e 'a flor' ('folor' = flor sem olor).
    'grise' pode ser tanto verbo como adjetivo.
    sei lá.

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  4. "quanto ao galho retumbante, o problema é que sem ele o tradutor teria de abrir mão da tumba." - não necessariamente, graf, mas já pensou o tempo que ele ia perder procurando uma solução mais adequada?

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  5. fui irônico quando falei da tumba do tradutor -- é que ele não ia querer ficar insepulto.

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  6. quanto ao 'griser' (acinzentar, ficar grisalho, embriagar, chapar, azoar, entusiasmar, excitar), só víssemos 'à l'aspect' em vez de 'a l'aspect'...

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  7. Olha, denise, esse negócio de traduzir poesia não é bolinho, reconheço o esforço do Seu Milton. Como estou superenferrujado, pedi pro Tio Gugo traduzir pra mim a estrofe em questão.
    Saiu o seguinte:

    A quem as lágrimas das coisas vê,
    Este banco deserto sente o fado
    Dos beijos demorados , do buquê
    De rosas qual sinal posto de lado.
    Sobre ele um galho qualquer freme ao léu,
    O musgo é fulvo, sem perfume é a flor:
    A pedra cinza lembra o mausoléu
    Onde defunto jaz o amor!...

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  8. Noutro tradutor on-line, saiu assim (cada um diz uma coisa):

    Pros olhos que das coisas vêem o pranto,
    Este banco vazio ostenta o passado,
    Os longos beijos, e as rosas num canto
    Postas como um sinal a ser lembrado.
    A um galho perdido serve de fulcro,
    Amarelento é o musgo, murcha a flor:
    A pedra gris se assemelha ao sepulcro
    Que recolheu o defunto amor !...

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  9. bom esse seu gugo, hein? ótimas as duas versões!
    (e claro que seu gugo viu que a edição grafa errado o "que" do último verso - evidentemente é "qui")

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  10. o importante é que agora contamos com tumba, mausoléu e sepulcro.

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  11. quaquá, verdade! lembrei de vc porque tem mais um poema onde se inventa um "retumba" para rimar de novo com a bendita "tumba".

    malherbe, "lamenta o cativeiro da amante":

    "não, não! quero morrer: a razão me convida:
    do mesmo modo o tom que a inveja me revida,
    mais belo não retumba.
    e a sorte que destrói o todo que consulto,
    torna-me claro ver que todo esse tumulto
    só terá paz na tumba."

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  12. non, non, je veux mourir: la raison m'y convie:
    aussi bien le sujet, qui m'en donne l'envie,
    ne peut être plus beau.
    et le sort qui détruit tout ce que je consulte,
    me fait voir assez clair que jamais ce tumulte
    n'aura paix qu'au tombeau.

    aliás, inveja para "envie" é triste; tenho a impressão de que o sentido da frase passou batido...

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  13. tuitada pertinente:
    @paduafernandes Explica-nos @dbottmann como a ABL e Milton Lins descobriram texto inédito de Walter Benjamin

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  14. idem:
    @gidaltelucio Amey!

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