29 de jan de 2010

o gato nassettiano na academia, poe XXV

algumas coisas me espantam.

a mais recente foi a leitura de uma análise descritiva das traduções brasileiras do conto the black cat de edgar allan poe,

estudo publicado em julho de 2009 por um docente de uma importante universidade federal, integrante de um também importante núcleo de pós-graduação em estudos de tradução. o artigo é em sua maior parte ocupado por dados biográficos de poe, pinceladas a respeito da fortuna histórica de sua obra, elementos paraliterários das edições sob análise e a exposição dos marcos teóricos adotados pelo articulista. num breve item final antes da conclusão, o docente apresenta uma sucinta comparação de quatro frases do conto o gato preto em duas traduções diferentes.

e aqui surge minha perplexidade: uma das traduções é legítima, da autoria de william lagos (pela lpm), e a outra é espúria, em nome de pietro nassetti (pela martin claret). faz anos que a farsa claretiana tem sido repetidamente desmascarada em inúmeros jornais, revistas e veículos de comunicação digitais, e não consigo entender como suas pseudotraduções podem ser tratadas em pé de igualdade com traduções legítimas, ainda mais em ambiente acadêmico.

os trechos apresentados no referido estudo são curtos, e reproduzo-os aqui:

I. william lagos:
- Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever [...] Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar a minha alma.
- Todos aqueles que estabeleceram uma relação de afeto com um cão inteligente e fiel dificilmente precisarão que eu me dê ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da gratificação que deriva de tal relacionamento [...] Encho-me de rubor e meu corpo todo estremece enquanto registro esta abominável atrocidade.

II. pietro nassetti:
- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, contudo, bastante doméstica que vou contar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já experimentaram afeto por um cão fiel e esperto, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

além de estranhar a escolha da edição martin claret para fins de análise especializada, admira-me também que um estudioso das traduções brasileiras de the black cat não reconheça de plano, no segundo lote de amostras, a tradução de brenno silveira:

- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

esse triste episódio no campo dos estudos tradutórios no país, a meu ver, apenas confirma um fato para o qual o mestre alfredo bosi alertou desde o primeiro momento: os plágios de tradução põem em risco "a integridade mesma da vida intelectual no Brasil".

imagem: astound

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